A genialidade de um professor
Ao genial professor Pasquale, meu respeito e admiração pelo empenho em transformar o dia a dia da poesia num poderoso instrumento político em defesa de línguas minoritárias

As línguas são poderosos instrumentos sociais e políticos de dominação cultural e imposição pela maioria desse linguajar, em detrimento das minorias. No Brasil, podemos reconhecer tal subordinação em relação aos idiomas indígenas e africanos. Imperou o português do colonizador.
O Atlas Mundial das Línguas da Unesco, também conhecido como o Atlas das línguas do mundo em perigo de extinção, registra mais de oito mil e trezentas línguas orais, que são aquelas que não possuem sistema de escritas próprias, assim como, as de sinais. Resistem tão somente pela tradição oral. Em relação a elas, o grande risco de extinção, ainda segundo a Unesco, é que por volta de uma língua morre a cada duas semanas. Dado alarmante que impacta especialmente dialetos e línguas indígenas, não só em nosso país, mas por todo o globo, tanto pelo número reduzido de falantes, quanto pela imposição da linguagem da maioria. Daí resulta a importância da preservação dos idiomas originais dos povos nativos, afetados que foram pelo domínio europeu.
Face ao exposto, o brilhante acadêmico italiano de Reggio Calábria, professor Pasquale Amato, graduado em Ciências Políticas pela Universidade de Messina, professor de História Contemporânea na mesma instituição educacional e na Universidade para estrangeiros Dante Alighieri, em sua cidade natal, teve a ousadia, a sensibilidade e a incrível ideia de criar o Prêmio Mundial de Poesia Nosside. O aludido prêmio tem o objetivo e a grandeza de preservar o que ainda resta do linguajar das minorias e consagra a famosa poetisa grega Nossis de Locri, considerada grande voz feminina do período helenístico, por passear pelo universo das mulheres e se impor frente ao domínio masculino.
Foi através do prêmio que o conheci pessoalmente, numa das ocasiões em que, tendo sido laureada, rumei para Reggio Calábria, sul da Itália, para receber a honraria pessoalmente. Na chegada ao aeroporto, já fui surpreendia, pois o amável professor lá estava para me recepcionar.
Foram dias e noites de inesquecíveis encontros e descobertas com poetas de todo o mundo. Novembro de clima agradável com o Etna faiscando do outro lado, na Sicília, em belas tardes ensolaradas. Dias de aprendizado e convivência jamais esquecidos. Em cada esquina uma bela surpresa. Nesse passeio poético me encontro no Museu Arqueológico Nacional de Reggio Calabria que salvaguarda os famosos bronzes de Riace, maravilhosas esculturas.
Revisito na memória os dias e noites de Reggio Calábria, do gentil cavalheiro de olhos vivos e brilhantes a nos mostrar novas realidades, no universo inspirador das letras. Como não sentir saudade?
Ao genial professor Pasquale, meu respeito e admiração não só pelo empenho em transformar o dia a dia da poesia num poderoso instrumento político em defesa de línguas minoritárias, mas pelo carinho com que nos acolhe. E, sobretudo, pela grandiosidade do seu trabalho de inclusão, possibilidade única dos bardos de todo mundo se manifestarem, traduzirem em versos suas emoções e protegerem da morte seu idioma de origem.
MERLI DINIZ
Professora, advogada, poeta e cronista. Vice-coordenadora da Comissão de Direito e Literatura da 22ª Subseção da OAB Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras.