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EDITORIAL

A farra dos flanelinhas

Eles também fizeram a festa, impunemente, no show em que agentes públicos exploraram estacionamento em área pública

por Da Redação
Publicação em 23/04/2026
Editorial (Divulgação)
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O episódio da exploração de área pública na Cidade da Criança para estacionamento, durante o show do Guns N' Roses, já seria, por si só, motivo suficiente para indignação coletiva. Trata-se de um espaço que acabou sendo apropriado por quem se sentiu autorizado a lucrar de forma indevida, com a permissão da Secretaria de Esportes e participação efetiva de um funcionário da Câmara Municipal, que recebeu R$ 100 de cada dono de carro, em dinheiro vivo ou direto no Pix pessoal.

A Câmara se omitiu, abrindo mão de investigar, e o Ministério Público tem a chance de fazer a sua parte. Mas o que se viu além dos portões da Cidade da Criança também foi grave e revelador. Nas ruas do entorno, os chamados flanelinhas agiam sem qualquer constrangimento, cobrando até R$ 200 para “vigiar” veículos. Não se tratava de oferta de serviço, mas de extorsão. Quem se recusava a pagar corria o risco de represálias. E elas vieram.

A cena é simbólica e perturbadora. Ao ser procurado por uma vítima que teve o carro riscado por não aceitar a exploração, e diante de um ato de extorsão em curso, um policial militar limitou-se a naturalizar o crime, dizendo que “se não paga, eles riscam mesmo”. Pior: ali, a poucos metros do crime, a polícia sugeriu que a vítima ligasse para o 190, ou seja, para a própria polícia.

A condescendência, quando parte de quem deveria agir, funciona como aval. É evidente que há uma dimensão social na origem desse fenômeno, ligada à informalidade e à falta de oportunidades. Mas isso não pode servir de justificativa para a inércia do poder público. Entre compreender e permitir, há uma distância que não pode ser ignorada.

Eventos de grande porte expõem fragilidades que, no cotidiano, já estão presentes. A diferença é que, nessas ocasiões, elas se tornam incontornáveis. E o que se viu foi uma cidade onde o cidadão é cobrado duas vezes: uma por estruturas improvisadas que se apropriam do espaço público, outra pela omissão de quem deveria protegê-lo.

É urgente romper com esse ciclo. A autoridade que se omite enfraquece não apenas a si mesma, mas todo o sistema que representa. E a população, diante disso, fica entregue a uma lógica perversa, onde pagar não é escolha. É sobrevivência.