A Economia, a Política e Maquiavel

As boas práticas pedagógicas recomendam que os docentes, ao iniciarem suas respectivas disciplinas, ofereçam aos alunos uma visão geral dos conteúdos que serão abordados ao longo do semestre, bem como, a relação desses conteúdos com a construção do conhecimento necessário para que os futuros egressos tenham condição de desenvolver um senso crítico sobre as temáticas que irão acompanhá-los durante a realização de suas atividades profissionais e, ainda, no decorrer do importante exercício da cidadania, que se fará presente em todos os dias de vida dos indivíduos.
No caso da disciplina de Economia, além dos múltiplos conteúdos específicos (História Econômica; Evolução do Pensamento Econômico; Macro e Microeconomia; Desenvolvimento Econômico; Economia Internacional etc.), há a necessidade de se discutir temas interdisciplinares (Matemática; Estatística; Política; Sociologia etc.). Se por um lado, esse mosaico de conhecimentos pode parecer aterrorizante para os discentes, por outro, transforma-se em uma missão desafiadora e altamente estimulante para o docente.
Para os alunos, o terror começa a diminuir quando eles descobrem que, desde a Era Primitiva, o homem precisou lidar com questões econômicas. Naquela época, a “simples” tarefa de sobreviver envolvia ter que lidar com elementos que continuam sendo discutidos pela Economia na atualidade: escassez; maximização de recursos; busca pela melhoria técnica; introdução de novas tecnologias nos processos, entre outros. E essas questões econômicas persistiram nas Idades do Bronze e do Ferro, mudando apenas a escala. Por exemplo, na Era Primitiva, o homem produzia algumas poucas flechas para caçar. Quando aprendeu a fundir metais para torná-los armas, o homem passou a ter que produzir centenas de flechas para assassinar e/ou escravizar outros indivíduos, para conquistar novos territórios e, depois, para proteger os novos domínios.
E a História Econômica continuou sendo escrita, chegando à Economia Mediterrânea, quando grandes civilizações (egípcios, mesopotâmios, gregos, fenícios e romanos), tornaram a região do Mediterrâneo o centro econômico do mundo. Impérios expandiam e ruíam, e isso foi se repetindo por toda a Idade Média. Seja no período das Trevas, do escambo ou da moeda mercadoria, a Economia foi se transferindo do feudo para os burgos. Nos burgos, as feiras foram transformadas em centros econômicos graças à expansão mercantilista e pela consolidação da Economia Internacional. Rotas Venezianas e Genovesas, Rota da Seda, crescimento populacional e uma quantidade absurda de reinos e governantes, inspiraram Nicolau Maquiavel. E é a partir desse momento que a aula de História Econômica deixa de ser uma revisão do passado para se tornar um alerta para os cidadãos do futuro. No livro “O Príncipe”, publicado em 1532, Capítulo XXII, denominado “Os ministros dos príncipes”, Maquiavel escreveu: “A escolha dos ministros por parte de um príncipe não é coisa de pouca importância: os ministros serão bons ou maus, de acordo com a prudência que o príncipe demonstrar. A primeira impressão que se tem de um governante e de sua inteligência, é dada pelos homens que o cercam. Quando estes são eficientes e fiéis, pode-se considerar o príncipe sábio, pois foi capaz de reconhecer a capacidade e de manter fidelidade. Mas quando a situação é oposta, pode-se sempre fazer dele mau juízo, porque seu primeiro erro terá sido cometido ao escolher os assessores.” Não é por acaso, que essa obra é considerada uma das teorias políticas mais elaboradas pelo pensamento humano, até os dias de hoje.
Por fim, normalmente, é na aula em que “O Príncipe” é apresentado aos que desconheciam essa obra, que os discentes compreendem a razão pela qual a Economia é uma ciência social aplicada, não uma ciência exata. E é nessa mesma aula, cuja relação entre a Economia e a Filosofia Política se materializa, que os alunos percebem que ainda existem “príncipes” que insistem em não seguir os ensinamentos de Maquiavel (talvez por desconhecimento ou pura ignorância) e continuam escolhendo “maus ministros”. E, para piorar, esses “príncipes” e seus “maus assessores” estão mais perto de nós do que pensamos...
Ademar Pereira dos Reis Filho
Doutor pelo IGCE-Unesp de Rio Claro e docente da Fatec Rio Preto