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ARTIGO

A dor de adoecer e deixar de pertencer

Precisamos falar sobre o sofrimento de quem é abandonado em sua maior vulnerabilidade

por Zelia Cristina Regis Brazolin
Publicado em 24/06/2026 às 17:23Atualizado em 24/06/2026 às 17:27
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Nem toda morte começa no último suspiro.

Algumas começam antes — no corpo que se deteriora, na força que desaparece, na autonomia que se perde. Mas, muitas vezes, começam também nos vínculos que se rompem.

Acompanhar alguém com cirrose hepática avançada é assistir a um processo lento e devastador. O corpo enfraquece, as complicações surgem, as internações se tornam frequentes e a dependência cresce. Mas existe uma dor que nem sempre aparece nos exames ou nos prontuários: a dor de perceber que, enquanto a doença avança, a presença de muitos familiares recua.

Quando falamos de cirrose, muitas vezes o debate se limita ao dano físico. Pouco se fala sobre aquilo que acontece dentro das famílias. Sobre o afastamento. Sobre o silêncio. Sobre a negligência emocional. Sobre a exclusão que nasce justamente de onde deveria vir o acolhimento.

Em muitos casos, principalmente quando a doença está ligada ao alcoolismo, o julgamento moral se instala primeiro dentro da própria família. O sofrimento do doente passa a ser atravessado por lembranças de erros, conflitos antigos, ressentimentos e culpas. E, aos poucos, o cuidado se enfraquece.

O abandono familiar é uma das formas mais dolorosas de sofrimento. Porque o dependente, muitas vezes, percebe tudo. Percebe os olhares impacientes. As visitas que diminuem. As conversas interrompidas. O incômodo da sua presença. A distância emocional de quem antes era abrigo.

E sofre calado.

Sofre porque, muitas vezes, já carrega culpa suficiente dentro de si. Sofre porque sabe que precisa de ajuda, mas sente que se tornou um peso. Sofre porque entende que sua fragilidade expõe não apenas sua doença, mas também a fragilidade das relações ao seu redor.

E talvez essa seja uma das maiores crueldades do adoecimento crônico: adoecer e, ao mesmo tempo, assistir ao esvaziamento dos próprios vínculos.

A família deveria ser o primeiro lugar de cuidado. Mas, em muitos casos, é também o primeiro lugar de exclusão.

E isso precisa ser dito.

Precisamos falar sobre o sofrimento físico da cirrose, sim. Mas precisamos falar, principalmente, sobre o sofrimento emocional de quem é abandonado em sua maior vulnerabilidade.

Porque ninguém deveria morrer sentindo que deixou de pertencer.

Escrevo este texto em homenagem ao meu irmão, cuja partida me atravessou não apenas pela dor da perda, mas pela experiência de testemunhar um sofrimento que muitas vezes foi silencioso. Que sua memória possa servir como reflexão e conscientização sobre a importância do cuidado, da presença e da responsabilidade familiar diante da fragilidade humana.

Zelia Cristina Regis Brazolin

Pesquisadora bibliográfica no setor de comutação.