A Copa de cada um
Comecei a entender alguma coisa na Copa de 1974. Foi quando tive meu primeiro álbum de figurinhas

A Copa mais antiga de que me lembro é a de 1970. Eu tinha seis anos e ficava catando os rojões que os adultos soltavam a cada jogo do Brasil. Não sabia direito do que se tratava. Só sei que gostava da algazarra dos adultos. Comecei a entender alguma coisa na Copa de 1974. Foi quando tive meu primeiro álbum de figurinhas. Faltou apenas a de Beckenbauer, da Alemanha Ocidental, campeã daquele ano. Desde então, apaixonei-me pelo futebol e, especialmente, pela Copa do Mundo.
Desenvolvi um hábito: acompanhava as especulações sobre quem seria convocado, a convocação e todos os preparativos. Assistia não só aos jogos do Brasil, mas também a todos os que eram transmitidos, não importavam a seleção nem o grupo.
Passei por várias fases: a de assistir às mesas-redondas, aos boletins da Copa, à cobertura da concentração e às entrevistas. Lia todos os cadernos especiais dos jornais impressos. Comprava a Gazeta Esportiva, a revista Placar e os almanaques das Copas do Mundo. Na década de 1990, cheguei a reunir em gravações todos os gols marcados desde a Copa de 1930.
Com o tempo, perdi o hábito de assistir aos jogos em grupo. Hoje prefiro vê-los em casa, apenas eu e a Denise. É bem mais tranquilo. Presto mais atenção às partidas. Percebi, ao longo dos anos, que a paixão pelo futebol cobrava seu preço, especialmente nas Copas.
Tudo começou com a vitória da Argentina em 1978, quando fomos “campeões morais”: ficamos em terceiro lugar sem sofrer nenhuma derrota. Em 1982, acompanhei e chorei a maior injustiça futebolística a que assisti: a derrota de uma seleção muito especial, com Zico, Sócrates, Falcão e tantos outros, para o time raçudo da Itália.
Em 1986, veio a tragédia dos pênaltis contra a França; em 1990, a escapada de Caniggia, da Argentina; em 1998, a estranha final contra uma França que tinha Zidane no auge.
Em 2006, foi o salto alto contra a França, novamente liderada por Zidane, então em fim de carreira. Em 2010, o descontrole emocional da seleção diante da Holanda. Em 2014, o inesquecível 7 a 1 contra a Alemanha, que pareceu tirar o pé para não humilhar ainda mais os anfitriões.
Em 2018 e 2022, duas seleções sem graça. Perdemos para Bélgica e Croácia por falta de humildade e de cabeça no lugar. Em compensação, em 1994 pude ver Romário no auge e, em 2002, a melhor seleção de que tenho memória, com uma verdadeira constelação em campo.
Eis que estamos novamente “em Copa”, com as mesmas polêmicas de sempre: quem ficou de fora, quem não deveria ter ido, o esquema tático “errado” do técnico, a cobrança por resultados e os memes intermináveis. Sempre haverá tudo isso.
Algumas coisas mudaram. Melhoraram a tecnologia, as regras, os materiais e a bola. Mas a emoção continua a mesma. É uma paixão não só dos brasileiros, mas do mundo todo. Eu também mudei. Desisti de colecionar o álbum. Um álbum com 980 figurinhas está além da minha paciência. Admiro quem embarcou na empreitada. Comecei até a dormir durante alguns jogos.
O excesso de cautela dos times transformou muitas partidas em espetáculos burocráticos. Vez por outra, alguma seleção ainda oferece lampejos de grande futebol. Mas não consigo me livrar. Assisto a tudo o que posso. Paixão antiga não vai embora assim. A Copa é de todo mundo, mas cada um guarda em si a própria Copa.
TOUFIC ANBAR NETO
Médico-cirurgião, diretor da Faceres, escritor e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec).