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ARTIGO

A Copa da vergonha

Expulsão de atleta norte-americano anulada por Infantino a mando de Trump rebaixa a Copa ao um nível que não é tão costumeiro nem no futebol varzeano

por Milton Rodrigues
Publicado em 07/07/2026 às 21:16Atualizado em 07/07/2026 às 21:16
A Copa da vergonha (IA)
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A Copa da vergonha (IA)
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A Copa do Mundo de 2026 ficará marcada por grandes jogos, estádios lotados e recordes de público, e pelas performances avassaladoras de craques como Messi, Mbappé e Haaland. Mas também já entrou para a história como o Mundial da vergonha pela sabujice de uma Fifa incapaz de defender sua própria autonomia diante de pressões políticas.

O episódio envolvendo a expulsão de Balogun, dos Estados Unidos, foi o símbolo dessa fragilidade. Em um lance de infração indiscutível no jogo com a Bósnia, o árbitro brasileiro Raphael Klaus aplicou o cartão vermelho em campo, exercendo a autoridade que lhe foi confiada pelas regras. Mas a punição foi revertida, em meio à repercussão provocada pelo envolvimento público do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Não bastasse o telefonema revelado por Trump para tratar do caso com o subalterno Gianni Infantino, que comanda a Fifa, o próprio presidente norte-americano fez questão de confirmar publicamente sua atuação. A mensagem transmitida ao mundo foi devastadora: a de que a maior entidade do futebol se curvou sem pudor e até com certo regozijo.

Em vão, Infantino insistiu que a decisão foi tomada pelos órgãos competentes da Fifa. A entidade saiu menor. Seu presidente passou a imagem de alguém incapaz de preservar a independência institucional da Fifa justamente no maior palco do futebol mundial.

O constrangimento torna-se ainda maior porque esse não foi um episódio isolado. Ao longo da competição, a Fifa já havia sido criticada pela falta de firmeza diante do tratamento desigual dispensado pelos Estados Unidos à delegação do Irã. Em vez de agir como uma organização internacional acima dos interesses nacionais, preferiu, mais uma vez, evitar o confronto. O resultado é um Mundial que ficará marcado muito mais pelas interferências externas do que pela excelência esportiva.

A história oferece um contraste eloquente. Em 1936, na Alemanha nazista, Jesse Owens venceu quatro medalhas de ouro diante de Adolf Hitler e desmontou, nas pistas, a propaganda da suposta superioridade racial do regime. Hitler tornou-se um dos maiores ditadores da história, mas nem mesmo aquele ambiente de autoritarismo produziu uma intervenção para contestar as vitórias de, vejam só, um atleta norte-americano.

Tão certo como um dia atrás do outro, porém, a bola pune. Em campo, com Balogun e tudo, os Estados Unidos foram devidamente eliminados pelos 4 a 1 da Bélgica. A essas alturas do campeonato, Trump deve estar pensando em como convencer seu subalterno a anular os quatro gols e, claro, validar apenas o do seu time.

MILTON RODRIGUES

Jornalista, autor do livro “Avenida da Saudade, o América de Rio Preto na Era Pelé”.