A Copa da Tecnologia ou da Desconfiança?
A integridade de uma competição não se mede apenas pelo campeão que ela consagra

O futebol sempre conviveu com erros de arbitragem. A diferença é que, em 2026, eles deixaram de ser explicados apenas pela limitação humana. Nunca uma Copa do Mundo contou com tantos recursos tecnológicos: VAR, impedimento semiautomático, sensores na bola, múltiplas câmeras. Ainda assim, a legitimidade das decisões jamais esteve tão em debate. O problema não é mais o erro. O que está em jogo é a confiança.
Quando a tecnologia promete reduzir falhas, a sociedade espera decisões consistentes e transparentes. Se lances semelhantes recebem tratamentos distintos, surge uma dúvida inevitável: estamos diante de equívocos técnicos ou de um sistema incapaz de garantir igualdade de tratamento?
Nesta Copa, diversas decisões provocaram controvérsia. A Argentina foi beneficiada por decisões arbitrais importantes em partidas decisivas, como contra Egito e Suíça, o que gerou muitas críticas. Do mesmo modo, a autorização para que o norte-americano Folarin Balogun atuasse após suspensão decorrente de expulsão, em meio à pressão política, reforçou a percepção de que fatores externos podem influenciar decisões administrativas da FIFA.
Nada disso é prova de manipulação de resultados. Seria irresponsável afirmar o contrário. Mas a integridade de uma competição depende não apenas da ausência de corrupção comprovada, mas também da certeza de que todos competem sob as mesmas regras.
Em governança, tão importante quanto evitar conflitos de interesse é evitar a aparência de conflito de interesse. A confiança não se perde apenas pela corrupção; ela também se deteriora quando várias decisões geram a impressão de favorecimento. O favorecimento institucional pode existir sem pagamentos ou combinações clandestinas, quando determinados participantes parecem receber interpretações mais benevolentes das regras.
Antes, os erros tinham uma explicação simples: o árbitro não viu. Hoje, a tecnologia vê praticamente tudo. Se, mesmo assim, persistirem decisões inconsistentes, a sensação de injustiça é ainda maior. O maior desafio da FIFA já não é tecnológico, mas institucional. Infelizmente, a tecnologia não trouxe critérios claros, uniformes e auditáveis. É hora de a FIFA ampliar a transparência: divulgar os fundamentos técnicos das revisões do VAR, adotar critérios objetivos para suas intervenções e submeter sua atuação a mecanismos independentes de auditoria.
A integridade de uma competição não se mede apenas pelo campeão que ela consagra, mas pela confiança de que todos foram julgados pelos mesmos critérios. No esporte, a legitimidade não depende apenas da justiça. Ela depende de convencer a sociedade de que a justiça foi feita.
Ligia Maura Costa
Advogada, professora titular na FGV EAESP, integra o Conselho de Administração do Pacto Global da ONU.