Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
EDITORIAL

A conta da água chegou

Segurança hídrica não se constrói apenas com obras de captação e distribuição. Exige planejamento territorial, recuperação ambiental e políticas permanentes

por Da Redação
Publicação em 09/06/2026
Editorial (Divulgação)
Galeria
Editorial (Divulgação)
Ouvir matéria

Os números divulgados pela Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP Águas) revelam um cenário preocupante para o Noroeste paulista. Segundo o monitoramento mensal feito pelo órgão, Rio Preto e outros 15 municípios da região aparecem com índice de estresse hídrico. Não se trata de uma ameaça distante nem de uma hipótese para as próximas décadas, mas de uma realidade que já bate à porta.

Para se ter uma ideia da gravidade, o nível dos mananciais de abastecimento é considerado crítico quando a captação de água supera 100% da vazão ecológica, ou seja, a água que passa obrigatoriamente pelo rio. No caso de Rio Preto, o percentual de comprometimento dos recursos hídricos é de 347%.

Por muitos anos, a abundância aparente de água subterrânea e a capacidade de captação dos mananciais deram a sensação de que o abastecimento regional estava garantido. O crescimento urbano avançou, bairros se multiplicaram, áreas impermeabilizadas se expandiram e o consumo aumentou. Em contrapartida, pouco se falou sobre infiltração da água da chuva, recuperação de nascentes, preservação de matas ciliares e recarga dos aquíferos.

O resultado está agora estampado nos relatórios técnicos. O rio Preto e o rio São José dos Dourados aparecem entre os 43 mananciais paulistas apontados pelo Projeto Mananciais como suscetíveis à indisponibilidade hídrica no futuro. O problema não é apenas a falta de chuva. É a combinação entre crescimento urbano, degradação ambiental, desperdício e ausência histórica de planejamento de longo prazo.

Rio Preto conhece essa discussão há décadas. Estudos sobre o Aquífero Bauru já alertavam, ainda nos anos 2000, para a crescente pressão sobre as reservas subterrâneas. Pesquisas posteriores identificaram rebaixamento dos níveis do aquífero e defenderam controles mais rigorosos para garantir sua sustentabilidade. O que hoje parece emergência já foi, há muito tempo, advertência técnica.

A resposta tradicional tem sido procurar novas fontes de captação. Uma das possibilidades seria buscar água no rio Grande, mas esse tema foi, ao menos por enquanto, colocado para escanteio pela atual gestão. Trazer água de mais longe pode aliviar a demanda, mas não corrige as causas estruturais do problema.

As ações anunciadas pelo Semae - combate às perdas, modernização da infraestrutura e campanhas de consumo consciente - são necessárias e merecem reconhecimento. Mas o momento exige uma discussão mais ampla. Segurança hídrica não se constrói apenas com obras de captação e distribuição. Exige planejamento territorial, recuperação ambiental, preservação de áreas de recarga e políticas permanentes capazes de atravessar governos.

O Noroeste paulista construiu sua força econômica sobre a capacidade de crescer, produzir e atrair investimentos. Nenhum desses pilares se sustenta sem água. A escassez hídrica não é apenas uma pauta ambiental, mas uma questão estratégica de desenvolvimento. E quanto mais tempo se demorar para enfrentá-la com seriedade, mais alta essa conta será para todos.