Olhar 360

A coisificação do anônimo

Falar em limpar uma área de moradores de rua, de profissionais do sexo, de pessoas trans é coisificação pura: trata gente como sujeira, algo que se varre da paisagem

por Beto Braga
Publicado em 24/08/2026 às 22:24Atualizado em 24/08/2026 às 22:29
Beto Braga (Divulgação)
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"Da abundância do coração fala a boca". A frase é de Lucas 6:45, e atravessa dois mil anos sem perder atualidade. Não é previsão de pedido de desculpas. É diagnóstico de comportamento: a boca revela o que já mora dentro da pessoa, antes de qualquer arrependimento vir depois. Há duas semanas, a secretária de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Rio Preto, Cláudia Bassitt, publicou um vídeo de mais de vinte minutos, gravado ao volante pelo Centro da cidade.

Ao longo da gravação, narra obras e ações da própria secretaria. Num dos trechos, filma três adolescentes andando de bicicleta, um deles com treze anos, e pergunta se eles não têm cara de assaltante. Diz também ter feito uma "limpeza" de moradores de rua, profissionais do sexo e pessoas trans no Centro, e ofende pedestres pelo caminho.

Depois da repercussão, e de vereadores acionarem o Ministério Público, publicou, na semana passada, um segundo vídeo, pedindo desculpas às mães, aos filhos, à avó dos adolescentes filmados, e a todos que se sentiram ofendidos.

O problema é que desculpa administra a repercussão, não desfaz o que já foi dito. Se a boca fala do que o coração está cheio, o primeiro vídeo é o dado relevante. O segundo é só o epílogo. Vale notar que a secretária alegou ter falado como cidadã comum, fora do expediente. O próprio vídeo desmente isso: quem narra entrega da secretaria presta contas do cargo, não passeia. Prestação de contas se responde com o rigor do cargo, não com a alegação de opinião pessoal.

O que ela fez, tecnicamente, tem nome: lombrosianismo. Cesare Lombroso foi um criminologista italiano do século dezenove que defendia a existência do "criminoso nato", um tipo humano cuja propensão ao crime podia ser identificada antes de qualquer ato, através do formato do crânio, dos traços faciais, da fisionomia.

A tese foi desacreditada há mais de cem anos, mas sobrevive, informalmente, sempre que alguém decide que uma pessoa é perigosa só porque parece perigosa aos seus olhos. Foi exatamente isso que aconteceu com os adolescentes de bicicleta: nenhum ato, nenhuma denúncia, nenhum flagrante, só a leitura de um rosto e de uma roupa.

A palavra "limpeza" merece o mesmo cuidado. Falar em limpar uma área de moradores de rua, de profissionais do sexo, de pessoas trans, é coisificação pura: trata gente como sujeira, algo que se varre da paisagem, não como cidadão com histórico, direito e, na maioria dos casos, vulnerabilidade não resolvida pelo poder público. Essa lógica não nasceu em Rio Preto, nem é exclusividade de uma secretária. Escrevi há pouco sobre a fala do chanceler alemão Friedrich Merz, que perguntou aos jornalistas na COP-30, em Belém, quem gostaria de ficar na cidade, e nenhum levantou a mão.

Era o mesmo mecanismo: tratar um problema como incômodo a ser evitado, e não como resultado de causas a ser enfrentado. Escrevi também sobre o cachorro Orelha, em que agressores foram protegidos sob o rótulo de "jovens de bem", como se classe social valesse mais que o ato cometido. O episódio Bassitt inverte a direção da mesma engrenagem: aqui, quem não tem endereço nem sobrenome que proteja é quem sofre a condenação antecipada. É a mesma raiz. Muda só quem carrega o rótulo.

Político não pode querer o cargo pela metade: o glamour do gabinete, o cargo, a visibilidade. O ônus, a cobrança, o julgamento quando erra, faz parte do combo. Governar não é comparecer a um evento social. Quem se lança na vida pública precisa entender uma coisa: político precisa gostar de gente. Isso significa olhar para a dor alheia e querer resolvê-la, não classificá-la. Gostar de gente não é seletivo: não é gostar de quem se parece com a gente, fala como a gente, frequenta os mesmos lugares que a gente. Falar pelo povo sem gostar dele é, na melhor das hipóteses, contradição. Na pior, é exatamente o que o vídeo mostrou.

Beto Braga

É empresário