A cidade que já não se reúne
Talvez não seja exatamente uma perda. Mas também não é só adaptação. É uma transição meio sem nome ainda, em que formas diferentes de presença coexistem, sem se substituir por completo

Alguns textos informam. Outros acabam ficando, mesmo sem essa pretensão. O comunicado sobre o cancelamento de uma feijoada — dessas que durante anos reuniram uma certa vida social — talvez seja um deles. Não é só um evento que não vai acontecer. Fica alguma coisa ali, difícil de nomear de imediato. Talvez porque certos hábitos coletivos só revelem seu peso quando deixam de acontecer. Enquanto existem, parecem apenas rotina; quando cessam, expõem o tipo de vínculo que sustentavam.
Mas a semana não ficou só nisso. Houve também despedidas de pessoas próximas, ou próximas de quem é próximo o suficiente para que o afeto nos encontre. Às vezes, sem alarde, ou como um silêncio estranho, ou um olhar, que se instala antes de qualquer palavra.
Minha mãe completou, há pouco tempo, 48 anos como cabeleireira. No mesmo salão. Com praticamente as mesmas clientes. Gente com quem ela atravessou aniversários, doenças, reconciliações, rotinas inteiras. Nesta semana, uma delas se foi. E não é só mais uma perda. É como se um elo antigo se rompesse.
Talvez seja aí que as coisas se toquem. Porque o que aparece, tanto no salão quanto no comunicado, não é exatamente o tempo passando. É outra coisa. Uma mudança mais silenciosa, que mexe com a forma como as pessoas se encontram — e se reconhecem.
Houve um tempo em que bastava o nome. Em que o convite circulava quase sem esforço. Em que estar ali já dizia alguma coisa sobre pertencer.
O comunicado chama atenção pelo cuidado. Não tenta esconder. Expõe custos, decisões, limites. E nisso há algo que vai além da explicação: há uma ética. Uma tentativa de manter uma relação direta, mesmo quando o entorno já mudou.
Porque o que mudou não foi só a adesão a um evento. Mudou o modo de estar junto. Aquela sociabilidade de clube, de mesa marcada, de agenda compartilhada — e também aquela mais discreta, construída em conversas de salão — foi sendo atravessada por outras lógicas. Mais dispersas e intermediadas; menos contínuas.
Nada desaparece de fato. Mas muda de lugar. E o que antes reunia, hoje já não convoca do mesmo jeito.
Talvez não seja exatamente uma perda. Mas também não é só adaptação. É uma transição meio sem nome ainda, em que formas diferentes de presença coexistem, sem se substituir por completo.
No meio disso, o que chama atenção é quem permanece. No salão, no jornal, na rotina. Gente que sustenta vínculos por décadas, quase na contramão do ritmo atual. Há uma fidelidade aí — ao trabalho, às pessoas — que não acompanha a pressa das mudanças ao redor.
E isso, hoje, pesa de outro jeito. Permanecer virou quase uma escolha consciente. Sustentar o vínculo, explicar, não desaparecer — tudo isso ganhou um valor diferente. Não chega a ser resistência. Mas também não é automático. É postura.
Talvez a semana tenha juntado coisas que normalmente aparecem separadas: o fim de um encontro, a ausência de alguém, a mudança de um hábito coletivo. Tudo atravessado pelo mesmo fundo de afeto — esse que, mesmo sem organizar, ainda une.
E, no meio disso, fica a marca de quem, por tanto tempo, fez da própria presença um ponto de encontro — à mesa do clube, no salão ou em qualquer lugar onde, por um tempo, a cidade de fato se reunia.
PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados.