EDITORIAL

A autoridade exige exemplo

É grave que uma secretária municipal transforme um passeio de carro em um desfile de ofensas, acusações levianas e sucessivas infrações de trânsito

por Da Redação
Publicado em 17/08/2026 às 20:00Atualizado em 17/08/2026 às 20:25
Editorial (Divulgação)
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Há uma diferença fundamental entre o chamado cidadão comum e quem ocupa um cargo público: o agente público não representa apenas a si mesmo. Suas palavras, atitudes e comportamentos projetam a imagem da instituição que serve e influenciam a confiança da população no poder público. Por isso, é grave que uma secretária municipal transforme um passeio de carro em um desfile de ofensas, acusações levianas e sucessivas infrações de trânsito.

O vídeo divulgado pela própria secretária de Desenvolvimento Econômico de Rio Preto, Cláudia Bassitt, ultrapassa qualquer limite de urbanidade. Ao apontar jovens ciclistas e perguntar se “não têm cara de assaltante”, ao chamar pessoas de “traficante” sem qualquer prova e ao utilizar expressões preconceituosas contra profissionais do sexo e pessoas trans, ela abandona o dever de respeito que o cargo lhe impõe. Não cabe a ninguém, muito menos a uma autoridade, rotular cidadãos e condená-los pela aparência.

A situação torna-se ainda mais preocupante porque tudo isso ocorre enquanto dirige um veículo e grava imagens com o telefone celular. O próprio registro mostra o avanço de semáforos vermelhos e a condução distraída em vias da região central. Combater a desordem urbana jamais autoriza desrespeitar as leis de trânsito. Quem exerce função pública deve ser o primeiro a cumpri-las.

A justificativa apresentada posteriormente tampouco convence. Alegar que o vídeo foi gravado fora do expediente e que se tratava de manifestação como “cidadã” não elimina a responsabilidade decorrente do cargo. Ela utilizava um veículo percorrendo justamente a área sobre a qual exerce atribuições administrativas. A condição de secretária não é um uniforme que se veste apenas durante o horário comercial.

É evidente que o Centro de Rio Preto enfrenta desafios reais, como a presença de pessoas em situação de rua, o consumo de drogas e a criminalidade. Esses problemas exigem políticas públicas, inteligência, assistência social, segurança e diálogo. O que não contribui em nada é substituí-los por estigmatização, insultos e julgamentos sumários gravados para as redes sociais.

O episódio merece reprovação por uma questão elementar de ética pública. Autoridade não recebe licença para humilhar, discriminar ou infringir a lei. Ao contrário, recebe a obrigação de liderar pelo exemplo. É exatamente esse exemplo que faltou.