A arte de navegar no desconhecido

Vivemos tempos diferentes e estranhos. A economia oscila, a política surpreende, o clima parece cada vez mais imprevisível e as relações sociais se transformam num ritmo que mal conseguimos acompanhar. É muita volatilidade, muita incerteza, muita ambiguidade para uma só pessoa absorver, sobreviver e crescer.
A reação mais natural diante disso tudo: onde foi parar o que chamamos de conforto?
Seria muito importante termos mais previsibilidade nas coisas, mais respostas compatíveis com nossas expectativas, ou seja, uma sensação de que tudo está sob controle. Mas, por outro lado, isso pode ser uma armadilha.
A dúvida é viva, pulsante, questionadora. A certeza, por outro lado, fecha as portas, nos inibe ao questionar, se apresenta no desconhecido, que é enorme e assustador. Ou seja, nos mantém em uma zona de conforto. Sendo assim, qual o preço dessa troca? Deixarmos de arriscar, acreditar e crescer.
Porém, apenas ter consciência dessa situação não basta. Precisamos dar um passo adiante e admitir algo que custa muito: temos medo. Medo de perder o emprego, medo do rumo do país, medo do nosso futuro, medo do futuro dos filhos, medo de não darmos conta. E, ainda, não há nada de errado em sentir isso. O problema começa quando, para fugir do medo, programamos a vida para eliminar qualquer risco. Evitamos tudo que parece perigoso, tudo que nos tira do lugar conhecido. Ou seja, o resultado é paralisante: atrofiamos justamente os potenciais que poderiam nos fazer crescer.
A boa notícia é que existe caminho. Para isso, lembramos uma frase da autora Maya Angelou: "Perdoe-se por não saber o que você não sabia antes de aprender." Pense nisso. Quantas vezes nos cobramos por não ter antecipado uma crise, por não ter tomado a decisão certa, por não ter visto o que hoje parece óbvio? Esse peso nos paralisa ainda mais. O autoperdão não é conformismo, mas sim a porta de entrada para aprender de verdade.
Trabalhar a incerteza não significa gostar do caos. Significa aceitar que não saber é parte da condição humana, e que isso, ao contrário do que parece, é oportunidade. A tranquilidade não vem de saber tudo. Vem de se sentir bem navegando no que não se sabe.
Para quem hoje se encontra no desânimo, talvez seja importante lembrar que você não precisa ter todas as respostas. Precisa, sim, de coragem para continuar perguntando, de honestidade para reconhecer seus medos e de leveza para se perdoar pelo que ainda não aprendeu.
O futuro, seja econômico, político, ambiental, social, não pede certeza, mas disposição para caminhar mesmo quando a névoa não se dissipa. Afinal, é no desconhecido que a vida acontece.
Regis Maia Lucci
Consultor empresarial, membro da Academia Maçônica de Letras e Cultura do Noroeste Paulista.