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A Armata Brancaleone

O mecanismo é antigo: quando o prefeito erra ou toma uma decisão impopular, cada pré-candidato corre para ser o primeiro a comentar. Não para cobrar solução. Para colher engajamento. A crítica vira moeda. O problema da cidade vira trampolim.

por Beto Braga
Publicado em 02/06/2026 às 22:49Atualizado em 03/06/2026 às 06:34
Beto Braga (Beto Braga)
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Existe um clássico do cinema italiano em que um cavaleiro fanfarrão lidera uma tropa de desajustados em direção a um objetivo nobre. Cada um marcha para um lado. Ninguém combina nada. O chefe avança sem olhar se alguém o segue.

A missão existe. A coordenação, não. O resultado é caos com aparência de movimento. A busca de protagonismo por alguns membros da frente que se formou em torno da oposição ao prefeito pode estar criando, sem que ninguém perceba, justamente o personagem que o filme imortalizou.

A eleição de 2026 ainda está longe no calendário oficial. Mas na prática já começou. Existe um intervalo legal entre o momento atual e as convenções partidárias. Nesse período, qualquer pessoa que queira ser candidata pode fazer o que quiser, desde que não peça voto explícito. Campo aberto.

E é nesse campo que o oportunismo se instala. A frente que se formou em torno da oposição ao prefeito chegou a representar uma voz coletiva sobre os problemas da cidade. Organizada, plural, com credibilidade. Nas últimas semanas, algo mudou. Não por divergência de ideias. Por disputa de posição.

O mecanismo é antigo: quando o prefeito erra ou toma uma decisão impopular, cada pré-candidato corre para ser o primeiro a comentar. Não para cobrar solução. Para colher engajamento. A crítica vira moeda. O problema da cidade vira trampolim.

Um exemplo recente deixou isso claro. A abertura de um pedido de comissão processante contra o prefeito, que deveria ser um movimento coordenado, virou dois pedidos separados, feitos de forma independente e com argumentações praticamente idênticas. O primeiro foi atacado pela base do prefeito como armação da esquerda. O segundo entrou logo depois, por uma pré-candidata de direita sem mandato, para desmontar esse argumento.

Resultado: o prefeito ganhou tempo, se organizou e a Câmara rejeitou a medida. O que poderia ter sido uma ação consistente virou sequência descoordenada que só ajudou quem deveria ser pressionado.

No outro extremo, há quem faça o movimento inverso: em vez de buscar protagonismo contra o prefeito, prefere uma aproximação silenciosa, trocando posicionamento por acesso. Fisiologismo de sempre, em versão pré-eleitoral.

Dois sintomas, uma mesma doença: o interesse pessoal sobrepondo o coletivo. Não é crime. É política. Mas é exatamente o tipo de política que o eleitor de Rio Preto disse nas urnas que está cansado de ver. O ponto não é questionar a oposição. É questionar o que acontece com ela quando a eleição entra em cena.

Rio Preto precisa de fiscalização permanente, não sazonal. Há uma diferença

grande entre cobrar um prefeito ruim e usar um prefeito ruim. O prefeito não ficou parado. Nas cordas e com o desgaste acumulado, aproveitou o gongo para se reorganizar. Cancelou contratos que chamavam atenção. Adotou um tom mais contido, humilde, incomum para quem o conhece. Passou a se aproximar de alguns críticos, oferecendo o que a política costuma oferecer: espaço, atenção e acesso.

Não está vencendo. Está se organizando no intervalo. E o roteiro é conhecido: foi usado no plano federal para transformar opositores em aliados discretos. Em Rio Preto, há sinais de que está operando. O risco não é a oposição ser cooptada de forma aberta. É mais sutil.

A armata vai se fragmentando, sem que ninguém declare o fim. Cada um constrói seu palanque. A cidade continua esperando respostas que não chegam. A eleição vai passar. Os candidatos vão se lançar, disputar, ganhar ou perder. A cidade vai continuar existindo depois. Se a única estrutura de pressão cívica que existe hoje se desfizer no caminho da campanha, quem fica para cobrar o dia seguinte?

Protagonismo eleitoral e responsabilidade com o eleitor não são a mesma coisa. Às vezes são até opostos. Saber diferenciar os dois é o que separa quem quer representar Rio Preto de quem quer apenas usar Rio Preto.

Beto Braga

É empresário