A África, seu dia e nossas histórias
As aulas se desenvolveram com a classe pesquisando aspectos do continente africano pouco difundidos, como os diferentes países, o desenvolvimento tecnológico e científico

Foi divulgado na internet o trabalho de uma professora brasileira que começava uma série de aulas perguntando aos alunos o que eles sabiam sobre a África. Faça esse exercício também: o que você sabe sobre a África? Provavelmente sua resposta não será muito diferente daquela dos estudantes: safári, fome, pobreza, tribos, crianças doentes. As aulas se desenvolveram com a classe pesquisando aspectos do continente africano pouco difundidos, como os diferentes países, o desenvolvimento tecnológico e científico, entre outros. Após as atividades, as crianças deixaram de ter uma ideia única sobre a África.
Já falei anteriormente sobre Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana, considerada uma das principais vozes da literatura contemporânea mundial. Ganhou uma grande projeção ao participar das TED talks - conferências globais para disseminar ideias.
A primeira TED de Chimamanda, de 2009, “O perigo de uma história única”, conta hoje com mais de 42 milhões de visualizações. Nessa palestra, disponível no YouTube, ela conta, entre outras, sua experiência ao chegar aos Estados Unidos e uma de suas colegas na universidade perguntar de quais “músicas tribais” ela gostava e ser surpreendida com a resposta que Chimamanda ouvia Mariah Carey. Motivo de espanto também foi o inglês fluente de Chimamanda. A colega não sabia que, embora na África existam aproximadamente 2000 línguas, na Nigéria se fala inglês. Nesta palestra, uma ideia importante é que o problema dos estereótipos não é que eles sejam mentirosos, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história.
Conhecemos outras histórias únicas no nosso cotidiano. Por exemplo, a ideia de que nas comunidades periféricas das cidades só moram criminosos. Nas favelas há bandidos e não bandidos, assim como nos condomínios de luxo - lembrando as recentes prisões de grandes criminosos que moravam em luxuosos condomínios. Nos diversos territórios, há sempre diversas histórias.
Dia 25 de maio, comemora-se o dia da África. Esse dia nasce em 1963, a partir do encontro de lideranças africanas com o objetivo, entre outros, de celebrar a diversidade do continente africano e discutir o papel geopolítico da África. No Brasil, este ano, uma das comemorações desse dia foi muito simbólica: a realização do I Fórum de Reitores Brasil - África, com a presença de dirigentes de universidades africanas e brasileiras. O conhecimento amplo - representado aqui pelas universidades, mas não restrito a elas - é um dos principais antídotos contra a disseminação de histórias únicas e perigosas.
Na África há animais selvagens e regiões empobrecidas, mas também há grandes centros urbanos, produções científicas, artísticas e tecnológicas; existem problemas graves, mas também soluções criativas. Não há uma história única sobre o continente africano, em especial quando pensamos na sua relação com o Brasil. Nossa história é parte da história africana, assim como a história da África é parte da nossa, histórias múltiplas, ricas, complexas e diversas.
Monica Abrantes Galindo
É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos
Mulheres na Política e CDINN -Coletivo