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ARTIGO

100 anos de devoção

O chão que pisamos no Noroeste Paulista tem camadas profundas, dessas que guardam segredos de mil anos

por Jocelino Soares
Publicação em 07/06/2026
Jocelino Soares (Divulgação)
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Jocelino Soares (Divulgação)
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O bairro rural da Boiadeira, encravado entre Rio Preto, Guapiaçu e Talhado, estará de 14 a 24 de junho em festa de comemoração aos cem anos do lugarejo. O chão que pisamos no Noroeste Paulista tem camadas profundas, dessas que guardam segredos de mil anos. Em 1978, os irmãos António Carlos e João Carlos Carvalho desenterraram no "Mato do Clarindo" as cerâmicas e os silêncios de povos pré-colombianos. Mas, se a ciência conta o tempo pelas pedras e ossos, o povo da nossa região aprendeu a contar os anos pelas fogueiras de junho. E, nesse calendário da alma, a devoção a São João Batista é o nosso marco mais antigo.

Tudo começa em um diário de viagem. Em 17 de julho de 1867, em plena Guerra do Paraguai, o Visconde de Taunay pernoitou na casa de um morador chamado Francisco Jacinto, ali perto de onde hoje reluz o Santuário dos Castores, em Onda Verde. Entre o cansaço da marcha e o frio do interior, Taunay anotou a presença viva de bandeirolas coloridas. Era a festa de São João. Havia ali mais do que folguedo: o festeiro reunia a comitiva para que o padre, de passagem, batizasse os novos rebentos e abençoasse os casamentos.

Há mais de 159 anos, São João já era o fiador da nossa sociabilidade.

Mas há um canto especial em Guapiaçu onde essa fogueira nunca apagou: o bairro da Boiadeira. Ali, a fé ganhou certidão de nascimento em 4 de abril de 1919, quando Francisco Batista de Souza e Olívia Cândida de Jesus doaram doze mil metros quadrados para o Santo e para São Sebastião. Antes do templo de tijolos, havia a "Igrejinha dos Pintos", uma capelinha rústica na beira da estrada poeirenta que ligava o Tabuado a Barretos, caminho de heróis anônimos.

Gente como Maria Magdalena de Jesus, que em 1910 cruzou estradas de terra vinda de Minas Gerais, chorando a perda de um filho no caminho, para fincar raízes e semear sete gerações naquelas paragens. Gente que, semanas antes do dia 23 de junho, parava a lida para apurar o doce de cidra, de leite, de mamão e assar as broas. Rezava-se o terço em casa e, depois, em procissão de pés descalços ou poeirentos, marchava-se para a Boiadeira.

Lá, sob os olhos de uma imagem de São João doada por "Chico Cem" — devoto que ganhou a sorte grande na loteria e dividiu a graça com a comunidade —, o povo se encontrava. Dona Antônia de Araújo lembra que, em 1947, as moças giravam ao redor do coreto sob a desculpa dos leilões, mas com os olhos compridos nos rapazes. Desse sagrado bailado nasceram casamentos que moldaram a nossa gente.

Hoje, quando olhamos para o Cruzeiro da Boiadeira, erguido em 1926, compreendemos que o engenho humano é a matemática da vida — tão bem guardados na memória de filhos. Mas é a fé, persistente como o cheiro de mastro queimado no sereno de junho, que explica a nossa identidade. Viva São João da Boiadeira!

Jocelino Soares
Artista plástico – Pós-graduado Arte-educação. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.