'A Bíblia é minha arma', diz rio-pretense que ajuda a salvar vidas na Ucrânia
Missionário, padre rio-pretense decidiu permanecer na Ucrânia mesmo com os ataques da Rússia; igreja onde ele atua tem funcionado como base de apoio a famílias que tentam sair do país

Enquanto as tropas russas avançam pela Ucrânia, acirrando os conflitos no país europeu, milhares de pessoas tentam escapar da guerra. Na contramão, está o padre rio-pretense Robson Gavioli de Mattos, 32 anos, que retornou na sexta-feira, 25, de uma conferência a sete quilômetros de duas fronteiras (Hungria e Eslováquia) para o seu posto como missionário de uma igreja em Khmelnytsky.
No trajeto para dentro da Ucrânia, o religioso foi submetido a diversas revistas por tropas locais, intrigadas com o grupo que fazia o caminho contrário ao da população. Questionado por um soldado se transportava armas, Robson respondeu afirmativamente: a Bíblia.
A cidade onde o religioso atua há 10 anos não está próxima a nenhuma fronteira, mas está na rota dos refugiados que seguem para a Polônia. Por isso, a igreja tem funcionado como base de apoio, oferecendo descanso, banho e alimentação para dezenas de famílias. Quem se aloja, repõe também as energias espirituais. “Não deixamos o irmão seguir jornada sem uma palavra de vida e esperança”, diz Robson.
Um dos necessitados foi um muçulmano que chegou à Ucrânia fugindo de outro conflito, na Síria, onde perdeu 14 irmãos. Acolhido pela igreja católica, o homem demonstrou gratidão ao comparecer à missa de domingo.
“É nesse momento que qualquer barreira imposta pelas religiões cai por terra. Estamos colocando em prática o maior ensinamento de Cristo: amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, diz.
Em ligação de vídeo na tarde desta segunda-feira, 28, (noite na Ucrânia), Robson relata que o conflito aproximou as pessoas da igreja.
“O comunismo implantado no país praticamente dizimou o cristianismo na Ucrânia. Grande parte do povo daqui é ateu. Mas nesse momento de conflito, as pessoas se apegam à fé. E a igreja está de portas abertas para acolher os angustiados”, afirmou.
Apesar de funcionar como base de apoio, não há publicidade nas proximidades sobre o trabalho missionário realizado pela instituição.
“As pessoas buscam ajuda por instinto, por referência de que pode ser um lugar de ajuda. Todas as sinalizações de trânsito foram tiradas da cidade para, no caso de uma invasão russa, as informações não ajudem as tropas adversárias a se deslocarem. Na esquina da igreja foram montadas barricadas e a população está preparada para proteger o território. Estou testemunhando um patriotismo que nunca tinha visto”.
Por duas madrugadas, a cidade acordou com alerta de ataque aéreo, que não se concretizou. Pouco depois da entrevista, o padre precisou se proteger novamente no subsolo da igreja.
Apesar da incerteza sobre o futuro, Robson tem confiança no propósito que o levou até a Ucrânia. “Fui sorteado entre dezenas de missionários para estar neste país. Minha mãe disse para eu voltar para casa. Respondi para ela: ‘mãe, eu já estou em casa’”.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores informou que, antes do conflito, a comunidade brasileira na Ucrânia era de aproximadamente 500 pessoas. Até o momento, 80 brasileiros já foram retirados do país pela Romênia e Polônia e outros 100 aguardam na lista da embaixada. “O plano prevê a possibilidade de resgate quando as condições permitirem. Nos primeiros dias, ante a falta de condições de segurança, estamos implementando a evacuação segura e ordenada”.
Daniel espera pelo ‘expresso da liberdade’

O acirramento dos ataques à Kiev, capital da Ucrânia, impediu que o jogador de futebol Daniel Jesus se juntasse ao grupo de jogadores brasileiros do Shakhtar e do Dínamo reunidos em um hotel, por orientação do Itamaraty. No domingo, o grupo conseguiu embarcar em um trem e chegar à Moldávia, um dos países que fazem fronteira com a Ucrânia. Boa parte dos atletas já está no Brasil.
Daniel é do Novorizontino e está emprestado ao VPK Ahro, da Ucrânia. O meia está abrigado em uma espécie de “banker”, no subsolo de uma casa que pertence ao dono do clube, em Dnipro. Ele está acompanhado de um colega de elenco, natural da Geórgia. “Só saio para comer ou buscar suprimentos”, revelou. Ele compartilhou com o Diário um vídeo curto onde mostra prateleiras vazias em um supermercado.
Ele se agarra ao celular na esperança de um “expresso da liberdade”, que vai resgatá-lo de Dnipro e levá-lo para a Polônia, de onde ainda é possível sair da Europa pelo espaço aéreo. A ligação, vinda da embaixada brasileira na Ucrânia, pode acontecer a qualquer momento, obrigando que ele deixe uma mala sempre pronta.
Cada cidade ucraniana estabeleceu o horário do toque de recolher, baseado na vulnerabilidade da região. Em Dnipro, ninguém pode sair às ruas a partir das 18h. Nesta segunda-feira, a embaixada brasileira informou o jogador que poderia haver um trem partindo da cidade às 22h, rumo à Lviv, de onde é possível deixar o país pela Polônia. O jogador teria que se arriscar, desrespeitando o toque de recolher.
“Me aconselharam a ir, mas só posso sair daqui se tiver certeza que vou embarcar”, disse.
A viagem acabou não se concretizando. Em razão da tensão com a Rússia, não há linhas fixas, por isso o jogador permanece à espera de informações do Itamaraty sobre o momento mais seguro para deixar a região. (JT)
Hérnia ‘ajuda’ Alan

O catanduvense Alan Patrick, de 30 anos, que joga como meia no time Shakhtar Donetsk, da primeira divisão da Ucrânia, já está em solo brasileiro. Uma hérnia abdominal livrou o jogador de enfrentar a tensão de deixar às pressas o país que está sob ataque do governo Vladimir Putin.
Em vídeo publicado no Instagram, o meia disse que, na véspera da invasão russa, viajou para a Alemanha a fim de investigar uma dor abdominal que estava o impedindo de jogar. A suspeita de hérnia se confirmou e, no dia seguinte, Alan passou por cirurgia. Após recuperação, ele veio para o Brasil.
Ele detalha que foi um procedimento simples e bem-sucedido. “Uma cirurgia acabou me tirando desse momento de tensão que todos os brasileiros estão passando lá (na Ucrânia). É um mix de sentimentos que venho sentindo. Alívio por estar em casa com a minha família, com os meus filhos. Porém, coração muito apertado, muito aflito, por meus companheiros de clube, que acabam sendo a minha família também. Então espero que Deus possa estar cuidando de todas as coisas. Que eles possam encontrar soluções para que, o mais rápido possível, possam estar saindo de lá”, falou.
Em outra postagem, ele publicou “stop the war” (pare a guerra) e “#standwithukraine” (estamos com a Ucrânia).
A assessoria de imprensa do jogador não informou se ele tem planos de viajar para a região de Rio Preto nos próximos dias. (JT)