Com Cilinho, há 20 anos o América vivia última alegria
Há 20 anos completados precisamente nesta segunda-feira, 22 de julho, o América conquistava aquele que viria a ser o seu último título como profissional; consagração que contrasta com atual situação de penúria

O ano era 1999 e o América já havia conquistado o acesso à primeira divisão do Campeonato Paulista, mas a expectativa pelo título da Série A-2 sobre a Ponte Preta deixou a cidade em vermelho e branco. O que os jogadores e torcedores americanos presentes no Teixeirão tomado por mais de 30 mil torcedores (segundo registros oficiais) não sabiam na noite daquela quinta-feira, 22 de julho, era que o empate por 1 a 1 com os campineiros seria a última conquista profissional do Rubro pelos próximos 20 anos.
Comandados pelo goleiro-capitão Sérgio Guedes, a seriedade do xerife Zambiasi, a velocidade de Marcinho e Fumagalli, os gols do centroavante Roberto Carlos e o pulso firme do técnico e 'chefe' Cilinho, a conquista ainda deixa marcas nos ídolos do passado americano e segue viva na memória do torcedor, que tem que amargurar a última divisão paulista há cinco anos.
"Guardada às devidas proporções, foi o maior time que joguei na carreira. A gente sabia que ia ganhar. A gente se propunha a fazer algumas coisas e resolvia. Mesmo passando por Seleção e grandes clubes, aquele foi um dos melhores times em que joguei", relembrou Sérgio Guedes, atual treinador da Portuguesa Santista. "Tenho saudades da época, do grupo, foi marcante. Quem via aquela torcida recebendo o ônibus com o grupo era uma coisa de louco", relembrou Roberto Carlos.
Guedes era a ligação entre o técnico Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho, e o elenco americano. Chamava o comandante de 'chefe' e acredita que ele foi o diferencial para aquela conquista, com seu jeito "genioso e competente", segundo Guedes, que chegou ao clube a pedidos do treinador. "Ele sabia que eu cuidava do vestiário e ele cuidava do resto. Eu conhecia o Cilinho mais do que todos os outros. Era duro na cobrança e às vezes incomodava alguns jogadores", contou o ex-goleiro.
Cilinho sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em abril do ano passado e desde então segue acamado em sua casa em Campinas. "Às vezes ele fala alguma coisa, mas a maior parte do tempo não, ainda por conta do AVC, está acamado, falava antes (sobre o América e os times), agora é difícil lembrar, infelizmente. Mas é um dia de cada vez", falou a esposa do ex-técnico, Priscila Pires de Camargo. "Deixou boas recordações para as pessoas, pros amigos, pro clube. Deus sabe o que faz", completou a mulher.
No jogo de ida em Campinas, o empate por 0 a 0, Cilinho havia deixado Roberto Carlos e o meia Luís Carlos Oliveira no banco de reservas, que 'chiaram' um dia antes da primeira decisão. "Eu escolho quem trabalha comigo, indico as contratações e exijo respeito à hierarquia", disse o treinador durante reunião no centro do gramado do Teixeirão no último treino para o segundo jogo.
O ex-treinador chegou ao América em julho de 1997 e se destacou pelo que fazia fora de campo. "Ele fazia o simples e mostrava caminhos diferentes. Batia na tecla de que o erro deveria ser refeito até acertarmos e fazia o futebol ser fácil", comentou o ex-zagueiro Zambiasi.
Campanha irretocávelA campanha do América naquela edição do Paulista A-2 foi irretocável, com 16 vitórias, 13 empates e apenas uma derrota (por 1 a 0 para o Santo André no quadrangular final), para espantar o temor do torcedor de que seria mais um ano na segunda divisão estadual. Em 98, o Rubro ficou com o vice-campeonato do Paulista, quando subia apenas uma equipe, a Barbarense, e adiou o sonho da volta à elite.
Em 99, o Rubro foi campeão com dois empates por ter feito a melhor campanha na classificação geral (59 pontos contra 55 da Ponte). A equipe recebeu a "Taça dos Invictos" do jornal A Gazeta Esportiva por ter permanecido 26 jogos sem derrotas. Empatou por 0 a 0 em Campinas no dia 20 e dois dias depois empatou em 1 a 1 no Teixeirão para dar a última volta olímpica de sua história (o América conquistou a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2006, mas a competição é das categorias de base).
No duelo, Zambiasi marcou o gol de empate aos 36 minutos do segundo tempo em cabeceada na entrada da área após cobrança de escanteio de Paulo César Martins. Segundo a previsão médica da época, o defensor não jogaria a final por conta de contusão no ligamento medial do joelho esquerdo um dia antes do duelo decisivo. "Me machuquei e ficou meio às escondidas, tinha medo de romper e ficar fora do futebol. O Pedro Batista (presidente na época) me disse que se rompesse me daria um contrato de oito meses até recuperar. Fiz infiltração e deu no que deu. Saiu o gol e fui correndo abraçar o médico", contou Zambiasi. Depois da final ele ficou apenas 20 dias de molho para recuperação.
O ex-jogador atua como agrônomo, prestando assistências em louvouras e sempre passar por Rio Preto quando está viajando. "Passo, vejo aquele refletor do Teixeirão de longe e vêm as lembranças. Quando cheguei era para ter ficado três meses em Rio Preto, mas acabei ficando por três anos", revelou o antigo xerifão.
O tridente Roberto Carlos, Fumagalli e Marcinho
Se Sérgio, Roberto Silveira, Zambiasi, Jean, Guilherme e Reginaldo se garantiam lá atrás, o trio de ataque formado por Roberto Carlos, Fumagalli e Marcinho, com ajuda dos meias Souza e Luís Fernando Gomes, tinha que balançar as redes para o time de Cilinho, que se manteve invicto no Teixeirão por 15 meses.
"Essa data é importante, não dava para esquecer. Eu tinha voltado de Portugal em 98, e o Cilinho e o Pedro Batista me falaram que o time trabalhava mais com jovens, então fui pra Francana. Fiz cinco gols em dois jogos contra o América e me chamaram para voltar", comentou o ex-atacante Roberto Carlos. Ele já havia passado no Rubro entre 1988 e 1990.
O centroavante foi o artilheiro daquela edição, com 17 gols marcados, e , segundo ele, todos importantes, mas se lembra com mais detalhes de quando marcou um gol de bicicleta contra o São Caetano no empate em 3 a 3 no quadrangular final. "Todos os gols foram decisivos. Nosso ataque era muito bom, rodava bastante, nossa zaga era forte e o time estava certinho".
Roberto parou de jogar em 2003 por lesões no joelho e na coluna e chegou a iniciar carreira como treinador, mas abandonou para cuidar de sua fazenda de café em Ibiraci, próximo a Franca. "Tentava me espelhar no Careca e no Reinaldo. Queria me posicionar para fazer gols. Tínhamos caras rápidos pelas pontas, como Marcinho, Gílson, Luís Fernando, então minha preocupação era fazer gol", falou o ex-jogador.
Parceiro de Roberto no ataque, junto ao então jovem Fumagalli, Marcinho dava velocidade ao time e sofria vários pênaltis que resultaram em gols. Aquela foi a primeira conquista como profissional do então atacante de 19 anos. "Estava nos juniores e o Cilinho me subiu pro profissional. Time era entrosado, só tinha cara rodado e foi uma honra jogar com eles", contou Marcinho.
Jogando pelo lado esquerdo do ataque, Marcinho deu dor de cabeça aos rivais. Ele anotou quatro gols e Fumagalli outros 16 para o Rubro. "Eu sofri vários pênaltis e passava bastante a bola pra eles marcarem", relembrou.
Hoje, o ex-jogador trabalha em uma empresa de flores artificiais em Rio Preto, onde reside há nove anos. Chegou a voltar para o América em 2011, mas, após ficar cinco meses sem receber salários, deixou o clube. (VS)
Passado alegre, triste presente
Além da conquista em comum, entre os ídolos está o lamento pela situação atual do clube, com acúmulos de dívidas trabalhistas, estádio indo à leilão, sem time competitivo e sequer revelar grandes jogadores, além de problemas políticos.
"Lamento muito, porque o futebol precisa de pessoas arrojadas e não aventureiras. Não vou julgar quem passou, mas que teve péssimas gestões é indiscutível. É um sonho meu ser treinador do América, tinha como meta pessoal e lamento, mas gostaria que o clube ressurgisse", disse Sérgio Guedes.
"O América era para ao menos estar disputando a Série B do Brasileiro. A gente vê a podridão do futebol ao ver essas situações", lamentou Roberto Carlos. "Não acompanhei o América. Não sabia dessa situação, mas o pessoal leva muito pro ego. Acho muita ignorância, o time é do povo e do torcedor", afirmou Zambiasi. (VS)
Campanha
1ª fase
1x1 Juventus 3x3 São Caetano 2x2 Etti Jundiaí 3x0 Noroeste 3x1 Santo André 2x1 Ponte Preta 2x2 Sãocarlense 1x1 Bragantino 2x2 Paraguaçuense 3x1 Mirassol 2x2 Botafogo 1x0 XV de Piracicaba 4x0 EC Corinthians 0x0 Francana 3x1 Comercial 1x1 Paraguaçuense 2x0 Mirassol 2x0 Botafogo 1x0 XV de Piracicaba 4x1 EC Corinthians 2x0 Francana 4x0 ComercialQuadrangular Final
3x1 Botafogo 3x3 Santo André 3x3 São Caetano 4x1 São Caetano 0x1 Santo André 2x1 BotafogoFinais
0x0 Ponte Preta - 20/7/99 1x1 Ponte Preta - 22/7/99Ficha Técnica
AMÉRICA - 1
Sérgio; Roberto Silveira, Zambiasi, Jean e Guilherme (Paulo César Martins); Reginaldo, Souza (Marcos Denner) e Luís Fernando Gomes; Fernando Fumagalli, Roberto Carlos (Cris) e Marcinho. Técnico: Cilinho.
PONTE PRETA - 1
Alexandre; Daniel, Fábio Luciano, Paulão e Alessandro (Adrianinho); Roberto, Mineiro, Dionísio (Julinho) e Vander; Fabiano e Claudinho. Técnico: Marco Aurélio Moreira.
Gols: Julinho aos 30 e Zambiasi aos 36 minutos do 2º tempo. Árbitro: Alfredo dos Santos Loebeling. Renda: R$ 102.505,00. Público: 28.501 pagantes e 5.400 menores credenciados. Local: estádio Benedito Teixeira, o Teixeirão, em Rio Preto, na noite de quinta-feira, 22 de julho de 1999.