Vereador, doou os subsídios para causas sociais
Em um gesto altruísta, Buzzini anunciou que destinaria os recursos futuros para causas sociais fundamentais. E cumpriu

Advogado e jornalista, Norberto Buzzini exerceu mandato de vereador em Rio Preto de 1964 a 1968 de forma diferenciada, demonstrando um compromisso exemplar com a moralidade, transparência e, acima de tudo, com o bem-estar da comunidade. Sua trajetória política foi marcada pela postura ética que sempre caracterizou sua atuação à frente do Diário da Região, jornal que liderou com o compromisso de defender a verdade e a justiça.
Neste aspecto, ao promover o jornalismo crítico, denunciando falhas especialmente em áreas sensíveis como a saúde e a educação no governo de Philadelpho Manoel Gouveia Neto, Buzzini se convenceu de que poderia e deveria dar uma contribuição adicional, entrando para a vida pública, inspirado pela gestão marcante do seu primo, Alberto Andaló, que fora prefeito de Rio Preto de 1956 a 1959. Decidiu que não interessava apenas ser mais um: o desafio seria fazer a diferença, caso a população desse a ele o voto de confiança para o mandato de vereador.
SEM REMUNERAÇÃO
Logo de início, Buzzini se destacou por uma atitude rara entre políticos: em campanha, assumiu publicamente o compromisso de abrir mão de honorários pelo trabalho como vereador. Resolução 118, publicada pela Câmara Municipal em 30/7/1963 fixava esse subsídio em 1 salário mínimo ao vereador, mais 1/6 do salário mínimo por dia de comparecimento às sessões, com validade a partir de 1º de janeiro de 1964 (Lei Complementar nº 2, de 29 de novembro de 1967, aprovada pelo Congresso Nacional, que viria a definir configurações para todo o País, não alterou a realidade de Rio Preto).
Em um gesto altruísta, Buzzini anunciou que destinaria os recursos futuros para causas sociais fundamentais. Em uma carta-compromisso assinada em 30 de setembro de 1963 (leia reprodução ao lado) e publicada em 2 de outubro de 1963 na capa do Diário da Região, o candidato que concorreria à Câmara pelo PTN-UDN com número 1118 no “santinho” expressou sua posição de forma clara: “Nos dispusemos a abrir mão de todos os nossos subsídios a fim de que, se eleitos, possamos oferecer merenda escolar aos que não a recebem, nos grupos escolares, leite aos que aguardam a atenção oficial e sopa escolar à infância esquecida de nosso município”.
E continuava: “Graças a Deus, com nosso trabalho como jornalista, podemos, embora modestamente, manter nossa família, e sendo os subsídios de vereador uma paga extra pelo trabalho que faremos na edilidade, entendemos sinceramente que nossa infância merece o pequeno sacrifício”. Escreveu e cumpriu, a partir do momento em que assumiu o cargo, em janeiro de 1964.
Essa atitude de transparência e generosidade foi considerada um exemplo notável de compromisso com a população, um diferencial do seu mandato em relação a padrões convencionais de homens públicos. Buzzini, como homem de imprensa e político, mostrou-se sempre voltado para o serviço público de forma genuína e preocupado com as necessidades das pessoas mais vulneráveis.
DITADURA
Apesar das dificuldades enfrentadas durante seu mandato, Norberto Buzzini não se deixou abater. E, quando precisou, foi para o confronto em defesa do que entendia ser de interesse público. Logo nos primeiros meses após ser eleito com 579 votos, o terceiro mais votado na eleição ao Legislativo (1964/1968, a 5ª Legislatura), enfrentou os turbulentos tempos da ditadura, com suas inevitáveis influências locais.
Foi durante essa legislatura que a Câmara de Rio Preto cassou em 4 de abril de 1964 os mandatos dos vereadores Armando Casseb, Benedito Rodrigues Lisboa e José Eduardo do Espírito Santo, sob a acusação de serem defensores da “doutrina comunista” (projeto de resolução 6/64). Anos mais tarde, Buzzini – ferrenho defensor da verdade sem a presunção de querer ser o dono dela – se manifestou a respeito do episódio, reconhecendo que aquela foi uma decisão errada de todo o Legislativo, do qual fez parte.
PREFEITURA
Ao final de seu período como vereador, Norberto Buzzini – como jornalista e como líder político – seguia crítico em relação aos rumos da administração municipal, à época sob o comando do prefeito Lotf João Bassitt. Assim, se candidatou a prefeito de Rio Preto, tendo Otacílio Alves de Almeida como vice. Não sendo eleito, sua postura foi de total respeito ao processo democrático e aos adversários, apresentando requerimento (771/68) ao cumprimentar o vencedor, prefeito e vice-prefeito eleitos.
Ao cumprimentar o vencedor, o prefeito eleito Adail Vetorazzo, Buzzini demonstrou uma maturidade rara, sem rancores ou ressentimentos. Entendeu que seu compromisso com os princípios de honestidade e o compromisso de apoio crítico às boas causas da cidade foram e continuariam sendo sempre mais importantes do que qualquer vitória pessoal. Voltou a se concentrar no jornalismo e, em paralelo, assumiu o mandato como presidente do Palestra Esporte Clube.
A história de Norberto Buzzini na política é marcada pela integridade, pela coragem de fazer o certo, mesmo quando isso o fez nadar contra a corrente. Como vereador, ele deixou um legado de dedicação e respeito à população de Rio Preto, e como jornalista, sua postura ética e voltada para o bem comum continua até hoje a se refletir no Diário da Região.