Por que o Diário sobreviveu

por Lelé Arantes
Publicado em 13/08/2026 às 00:00
Lelé  Arantes (Arquivo Pessoal)
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Lelé Arantes (Arquivo Pessoal)
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Houve um tempo em que, para se abrir um jornal, bastava comprar um cavalete de tipos, tanto para textos como para títulos, uma bancada para composição e uma impressora plana para duas páginas. Imprimia-se a frente, depois dava-se o tombo, e imprimia-se o verso. Era exaustivo o trabalho manual do tipógrafo.

Quando Ottmar Mergenthaler inventou o “linotipo”, em 1884, a imprensa ganhou velocidade. Sua máquina revolucionou o trabalho gráfico. Um trabalho de dias passou a ser feito em horas. Um linotipo (sem acento, como ficou conhecido no Brasil) demorou para chegar ao sertão brasileiro. A linotipia era capaz de produzir seis mil toques (caracteres) por hora, com suas matrizes descendo, formando a linha, e sendo chumbadas a 270 graus, simplificando e agilizando o trabalho do paginador. O linotipo era uma máquina de escrever acoplada a uma fornalha de chumbo derretido, cheia de braços, correias e matrizes.

Conforme as máquinas avançavam para o interior, os jornais que não se adaptavam logo fechavam suas portas. E foi assim com o advento das rotativas, do off set, do composer, do computador e agora, da internet. Em todas essas fases, muitos jornais deixaram de funcionar. Em São José do Rio Preto não foi diferente. Todos os jornais que circularam em 1950, quando o Diário da Região foi fundado, desapareceram.

Todos passaram, de uma forma ou de outra, pelos mesmos processos de evolução tecnológica. Por que o Diário da Região sobreviveu? Sobreviveu pela intrepidez, determinação e teimosia de Norberto Buzzini. No antepenúltimo dia de 1959, Buzzini e seus três amigos, Alberto Cecconi, Antonio Natalone e José Barbar Cury, juntaram suas economias, seus sonhos e sua juventude e, a exemplo dos mosqueteiros de Alexandre Dumas, adquiriram de Euphly Jalles o jornal que estava completando dez anos.

Mais tarde, Buzzini seguiu como único proprietário. Nos momentos de crise, o sangue lombardo falou mais alto, era preciso atravessar seu próprio Rubicão. E ele atravessou. Com serenidade e valentia, sempre defendendo a liberdade de imprensa e a busca da verdade.

Lelé Arantes

Jornalista e historiador

Publicação original em 23/7/2024