Paixão de repórter, do Tribunal do Júri à Ponte Rodoferroviária

Apaixonado por dona Neuza, pelo jornalismo e pela liberdade de expressão, Buzzini liderou equipe com mais de 400 colaboradores e testemunhou momentos marcantes da história local

por Milton Rodrigues
Publicado em 12/08/2026 às 21:00Atualizado em 12/08/2026 às 22:16
Norberto e Neuza Buzzini, no álbum de casamento; eles se conheceram no Tribunal do Júri (Reprodução)
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Norberto e Neuza Buzzini, no álbum de casamento; eles se conheceram no Tribunal do Júri (Reprodução)
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Uma década depois da fundação do Diário da Região por Euphly Jalles, ao assumir a direção inicialmente em sociedade e depois como único proprietário, o advogado Norberto Buzzini, mais do que empreender na área da comunicação, tomou a linha de frente ao atuar como repórter em diferentes oportunidades. Tinha especial predileção pelas reportagens envolvendo o júri popular.

Numa dessas coincidências, foi na cobertura do Tribunal do Júri, em Rio Preto, que ele conheceu o amor de sua vida, a então jovem Neuza Silva Castro, professora recém-formada, ali presente acompanhando a sessão. O encontro evoluiu para relacionamento sério e teve como desfecho o que todos os amigos já imaginavam: eles sobem ao altar da Catedral de São José em 21 de outubro de 1960, dando início a uma longa história de amor, respeito e união.

Apaixonado por dona Neuza, pelo jornalismo e pela liberdade de expressão, Buzzini chegou a ampliar para 400 pessoas o quadro de funcionários em todos os departamentos do grupo de comunicação que ainda incluiria a FM Diário (89,9) a partir de agosto de 1988. Nunca foi do tipo que interferia na atividade de seus jornalistas, e disso nunca se arrependeu. Ao longo dos anos, soube delegar funções e atividades, mestre que sempre foi em matéria de relacionamento humano e exímio formador de equipes de qualidade.

EXIGENTE

A liberdade que sempre foi confiada aos jornalistas, porém, nunca foi sinônimo de alienação. Sempre foi o leitor mais crítico e mais qualificado. O controle de qualidade chegava às mãos do comando da redação em forma de bilhetinhos manuscritos já nas primeiras horas do dia com as observações feitas a partir do hábito da leitura muito antes de raiar o sol. Não raras vezes os recados também eram elogios, e lembretes para reportagens que, em datas específicas, resgatavam fatos marcantes, sempre com abordagens inovadoras.

Ao acordar junto com o cantar do galo para ler o Diário em casa, Buzzini já conferia pessoalmente se outro departamento estava atuando a contento: a entrega dos exemplares de forma pontual, sem atraso, na residência do assinante. Era sempre o primeiro a chegar à sede da empresa.

NO RIO PARANÁ

Mesmo com o passar de muitos anos, já sexagenário, sentia pulsar o sangue quente de repórter nas veias de ancestralidade italiana. Foi assim que num belo dia de 1997, lá estava ele de novo no “front”, conferindo pessoalmente o andamento de um dos maiores projetos acompanhados de forma intensa pelas reportagens do Diário desde os anos 70 e 80: as obras da Ponte Rodoferroviária sobre o rio Paraná, que seria inaugurada em 1998 após 25 anos de luta.

Revivendo a adrenalina dos bons tempos de jornalista, vestiu colete salva-vidas alaranjado e foi ver de perto aquela obra, a bordo de um pequeno barco e em meio à imensidão das águas do Paranazão. No embarque, foi acompanhado pelo professor Orlando Bolçone, pelo ex-prefeito Manoel Antunes e pelo deputado federal Edinho Araújo.

“A ponte foi uma luta, a gente sempre mobilizando a Assembleia Legislativa, o Congresso, a Comissão de Viação e Transportes, contato com governadores, e sempre mobilizando a população, os políticos e principalmente a imprensa regional, como o Diário da Região capitaneado pelo doutor Buzzini”, afirma Edinho.

Composto por 25 pilares de concreto, sustentados por 198 tubulões cravados quatro metros em rocha no leito do rio, com concretagem submersa, a obra foi entregue em 29 de maio de 1998, com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso, sob muita chuva, 200 autoridades convidadas e público de três mil pessoas.

Era a transição da era das balsas para o vaivém de veículos e trens de carga enormes fazendo circular o agronegócio, agilizando o escoamento das riquezas do Brasil central.

ENTUSIASTA DA ADESG

“Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las.” Atribuído a Voltaire, filósofo do Iluminismo francês, o enunciado se encaixa com perfeição à forma como Norberto Buzzini dedicou uma vida toda em defesa da liberdade de expressão. Não só como empresário da comunicação e profissional do direito, mas especialmente por uma questão de princípios.

Esse pensamento Buzzini levou para seus múltiplos campos de atuação. Como na participação que teve na condição de “adesguiano”, como são chamados os membros da Adesg (Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra). Uma entidade da sociedade civil sem fins lucrativos, com representantes selecionados observando-se aspectos do comportamento, da ética, da idoneidade, da dignidade, honradez pessoal e liderança na comunidade.

Contemporâneo de Buzzini no núcleo regional da Adesg dos anos 70 e 80, o advogado Romildo Bolini costumava ver no colega e amigo um verdadeiro líder e defensor do bem-estar da coletividade, fonte inspiradora de ideias em sintonia com os ideais da associação.

Em texto de catálogo de 1989 intitulado “Aos companheiros da Adesg”, o professor Fahad Moyses Arid descreve a Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra como entidade formada por membros civis e militares, que ao longo do tempo frequentaram seus cursos, aprimorando debates diversos.

Os adesguianos são pessoas que se unem em torno de ideias e ações que proporcionem benefícios à coletividade, de forma apartidária. Não se prendem a um elenco estático de dogmas, mas um conjunto de ideias organicamente ligadas, abertas e democráticas. A Adesg foi fundada em 7 de dezembro de 1951.