Editorial

Os muitos papéis de um homem só

Ao longo de décadas, Norberto Buzzini construiu um dos mais respeitados grupos de comunicação do Interior, sustentado por valores que jamais aceitou negociar: ética, independência, credibilidade e compromisso com a verdade

por Da Redação
Publicado em 12/08/2026 às 21:01
Charge Norberto Buzzini (Lézio Jr.)
Galeria
Charge Norberto Buzzini (Lézio Jr.)
Ouvir matéria

Há pessoas que fazem parte da história de uma cidade. E há aquelas cuja própria história se confunde com a dela. Norberto Buzzini pertence à segunda categoria.

Ao longo de quase um século de vida, exerceu muitos papéis. Foi advogado, jornalista, empresário, vereador, presidente de clube, líder comunitário, marido, pai, avô e amigo. Mas talvez nenhum desses títulos, isoladamente, seja capaz de traduzir quem realmente foi. Porque, acima de tudo, Norberto Buzzini escolheu servir.

Serviu à família, ensinando que o único patrimônio impossível de ser perdido é o conhecimento. “Leia, leia e leia”, repetia aos filhos e netos, convencido de que a educação é a maior herança que alguém pode deixar.

Serviu aos colaboradores do Grupo Diário da Região não apenas como presidente, mas como alguém que enxergava pessoas antes de enxergar cargos. Mais do que um patrão ou um chefe, muitos encontraram um líder; outros tantos, um conselheiro; outros, ainda, um incentivador e uma figura quase paterna. Pequenos gestos revelavam sua grandeza. Organizar excursões para que funcionários conhecessem o mar pela primeira vez talvez diga mais sobre seu caráter do que qualquer discurso.

Serviu ao esporte quando aceitou a missão de salvar um Palestra Esporte Clube que parecia condenado. Recuperou um patrimônio da cidade, abriu portas para a juventude, apostou no esporte como caminho de inclusão e cidadania e devolveu aos rio-pretenses um clube que voltaria a ser motivo de orgulho.

Serviu à vida pública com rara coerência. Como vereador, abriu mão do próprio salário para destiná-lo a quem mais precisava. Entendia que exercer um mandato significava representar pessoas, jamais servir-se delas.

Serviu, sobretudo, ao jornalismo.

Quando assumiu o Diário da Região, em 1960, não herdou apenas uma empresa. Assumiu uma responsabilidade. Ao longo de décadas, construiu um dos mais respeitados grupos de comunicação do Interior, sustentado por valores que jamais aceitou negociar: ética, independência, credibilidade e compromisso com a verdade.

Nunca confundiu independência com neutralidade diante das injustiças. O Diário sempre teve lado: o lado da comunidade, do interesse público e da informação responsável. Era essa a missão que Norberto Buzzini fazia questão de recordar diariamente, muito antes da primeira reunião de pauta do dia, muito antes de qualquer manchete.

Sua paixão pelo jornalismo nunca diminuiu. Lia o jornal antes do amanhecer, anotava observações, elogiava, cobrava, sugeria pautas. Continuou sendo repórter mesmo quando já era um dos maiores empresários de comunicação do Interior. Porque entendia que o jornal nasce da curiosidade, do inconformismo e da busca permanente pela verdade.

Durante décadas, seu nome esteve ligado às grandes transformações de Rio Preto e do Noroeste paulista. Não porque buscasse protagonismo. Ao contrário. Nos últimos anos, preferiu o silêncio, a discrição, a serenidade de quem entendia que as obras falam mais alto do que as palavras. Mas sua presença nunca deixou de ser sentida, ao contrário: continuou sendo a referência máxima de trabalho duro, correção profissional e dignidade moral.

Filho de imigrantes italianos, adorava voltar à Itália. Roma exercia sobre ele um fascínio especial. Mas havia uma cidade que ocupava um lugar ainda maior em seu coração: Rio Preto, sua verdadeira “Roma Eterna”. Foi por ela que trabalhou durante toda a vida. Foi por ela que enfrentou desafios, assumiu responsabilidades, investiu, caiu, levantou, acreditou e sonhou.

É impossível medir quantas vidas foram tocadas por sua trajetória. Estão nas famílias que se informaram durante décadas pelas páginas deste jornal. Estão nas crianças que encontraram no esporte uma oportunidade. Estão nos profissionais que aqui aprenderam um ofício e uma maneira de exercê-lo com dignidade. Estão em todos aqueles que compreenderam, por seu exemplo, que liderança não se impõe; conquista-se.

A morte encerra uma biografia. Nunca um legado. Os jornais registram a história todos os dias. Mas, de tempos em tempos, a própria história se despede de alguém que ajudou a escrevê-la.

Hoje, Rio Preto perde um de seus maiores construtores.

O Diário da Região perde seu maior guardião.

E todos nós perdemos o privilégio de conviver com um homem cuja maior devoção sempre foi amar o próximo.

Seu nome permanecerá nas páginas deste jornal, nas instituições que fortaleceu, nas pessoas que formou e, sobretudo, nos valores que nos ensinou a defender.

Há perdas que pertencem apenas às famílias. Outras pertencem a uma cidade inteira. A despedida de Norberto Buzzini é uma dessas.

Há vidas que terminam. E há exemplos que simplesmente continuam.