Credibilidade, o maior patrimônio do Diário

“A equidistância da linha editorial em relação à influência do poder econômico e facções políticas, e a defesa dos interesses da comunidade, fizeram o sucesso do jornal em todos estes anos” (Norberto Buzzini)

por Milton Rodrigues
Publicado em 13/08/2026 às 00:01
Primeira sede do Diário da Região, na Marechal Deodoro (Arquivo/Diário da Região)
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Primeira sede do Diário da Região, na Marechal Deodoro (Arquivo/Diário da Região)
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"Foi num domingo parecido com os anteriores. A 23 de julho a cidade de 54.451 habitantes amanheceu mais rica, com mais um jornal na praça (...) Na rua Marechal Deodoro, entre General e Coronel, há compradores de pão especial na Delícia. Defronte à padaria, que projeta uma Casa de Chá chamada Luar de Agosto, a redação do novo jornal está pondo seu primeiro exemplar na rua. Na calçada há malotes que vão pela EFA ou no porta-malas das jardineiras. O jornal é o Diário da Região”.

Foi desta forma que a premiada escritora e jornalista Dinorath do Valle descreveu as origens do Diário da Região, em texto por ela assinado, na ocasião de mais um aniversário do jornal, em 23 de julho de 1999. Seguia Dinorath: “Jornal é a cultura à mão, e desse modo o Diário tornou-se uma empresa que presta serviço público essencial. E insiste no distanciamento em relação a partidos políticos (...) A independência em primeiro lugar. Depende dela a credibilidade”.

Dinorath faz coro à frase “Noticiando ou comentando, nossa preocupação há de ser a verdade”, expressa em forma de compromisso no primeiro editorial do Diário da Região, em 23 de julho de 1950, e que jamais saiu das páginas do jornal, fixado junto ao espaço do expediente.

QUATRO AMIGOS

Em 26 de dezembro de 1959, Norberto Buzzini e os amigos Alberto Cecconi, Antonio Natalone e José Barbar Cury adquiriram o jornal fundado por Euphly Jalles e à época arrendado por Danilo Mantovani. O quarteto assumiu a direção em 1º de janeiro de 1960. Em 1962, Buzzini já expandia os negócios, lançando em 18 de fevereiro o Diário de Fernandópolis, com 20 páginas e tiragem de 1,5 mil exemplares.

Dez anos depois, Barbar e Cecconi deixaram a sociedade no Diário da Região para cuidar de outros projetos. Em 1976, Natalone também saiu e Buzzini tornou-se o único proprietário. “A equidistância mantida pela linha editorial do Diário em relação à influência do poder econômico e facções políticas, e a defesa dos interesses da comunidade regional, são fatores que fizeram o sucesso do jornal em todos estes anos”, relatou Buzzini em reportagem no dia 23 de julho de 1987, nos 37 anos de fundação do jornal.

RÁDIO E NOVA SEDE

Em expansão permanente, em 10 de agosto de 1988 o Grupo Diário ganhava outro reforço: entrava no ar a rádio FM Diário 89,9, sediada em Mirassol. A partir de 1999, o talento empreendedor da família Buzzini tendo o timoneiro Norberto à frente mirava as plataformas digitais, com o lançamento do portal do Diário (atualmente é o portal mais acessado do noroeste paulista).

Chegar a esse ponto não foi uma tarefa fácil. A empresa teve períodos de forte concorrência, casos de títulos como A Notícia, Correio da Araraquarense, Dia e Noite, Folha de Rio Preto, Folha de S. Paulo com a publicação de cadernos regionais, entre outros. Em meio aos desafios de fases em que a cidade chegou a ter cinco jornais diários, o Diário da Região jamais entrou em zona de conforto e seguiu seu processo de aperfeiçoamento contínuo, em que se destacou no pioneirismo da implantação do sistema de impressão em offset.

Poucos anos após a mudança da rua Marechal Deodoro para a rua Delegado Pinto de Toledo, a nova sede já começava a ficar pequena para as proporções que o Diário adquiria. Veio uma mudança para o Distrito Industrial. A versão impressa já passava dos 20 mil exemplares, incluindo edições especiais que chegaram a ter mais de 100 páginas.

Nas coberturas eleitorais, o jornal exerce protagonismo desde o princípio. A partir dos anos 80, passou a organizar debates com os candidatos a prefeito em parceria com emissoras de rádio e de televisão. Com o passar do tempo, acrescentou à cobertura a publicação de pesquisas de intenção de voto e de avaliação dos governos municipais. Virou referência em cobertura política.

De circulação regional, o Diário transformou-se em veículo de visão cosmopolita e rompeu fronteiras, em sintonia com os grandes acontecimentos mundo afora, contextualizados com a realidade local. Pelo jornal, em 2009 os repórteres Raul Marques e Rubens Cardia fizeram reportagem especial no Haiti, acompanhando missão do Exército brasileiro. Enviada especialmente ao Vaticano em 2014, Cecilia Demian fez a cobertura da promoção do ex-bispo de Rio Preto e atual arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, à época elevado ao cardinalato pelo Papa Francisco.

PRÊMIO ESSO

Pela qualidade das reportagens, o Diário é ganhador de prêmios em diversas categorias. Em sua história estão, por exemplo, três conquistas do Prêmio Esso, o “Oscar” brasileiro do jornalismo, em reportagens de Alexandre Gama, Allan de Abreu e Rita Magalhães.

“Não fazemos jornalismo para ganhar prêmios, mas o reconhecimento é bem-vindo”, raciocinava Buzzini em encontros com representantes da Redação. "Com serenidade e valentia, doutor Buzzini sempre defendeu a liberdade de imprensa e a busca da verdade. Para ele, a verdade é o conteúdo que mantém o jornal de pé há sete décadas e meia", diz o jornalista Lelé Arantes, historiador, que no Diário foi repórter e editor de política por vários anos.

Em 2011, quando o Diário comemorou 61 anos de circulação ininterrupta, Buzzini relembrou as batalhas dele e dos antigos sócios, afirmando que a luta sempre foi para ter um nome sério. “A atividade jornalística é difícil, tanto do ponto de vista do exercício profissional quanto da rentabilidade. É graças a essa contribuição que estamos aqui."