Feminicídio anunciado
Karolayne fez o que tantas autoridades insistem em repetir: denunciou, procurou ajuda e relatou um histórico contínuo de agressões. Nada disso foi suficiente

Reportagem publicada nesta quarta-feira, 4, pelo Diário expõe uma realidade assombrosa: o ano de 2025 registrou 19 feminicídios na região de Rio Preto, o que representa um recorde desde 2015, quando os dados começaram a ser computados. As estatísticas da violência escondem tragédias que poderiam ser evitadas, já que o Estado, apesar de avanços aqui e acolá, segue falhando na sua missão de proteger vidas.
Foi o que ocorreu no primeiro feminicídio de 2026 em Rio Preto. A morte covarde de Karolayne Cristina Ferreira, 29 anos, assassinada pelo marido John Lenon Rocha de Carvalho, foi tudo, menos imprevisível.
Ela fez o que tantas autoridades insistem em repetir: denunciou, procurou ajuda, registrou boletim de ocorrência e relatou, em detalhes perturbadores, um histórico contínuo de agressões físicas, psicológicas e ameaças de morte. Tentativa de enforcamento com fio elétrico, queimaduras de cigarro, marteladas no rosto e nos braços, xingamentos degradantes e ameaça explícita de morte. Nada disso foi suficiente.
No dia 17 de janeiro, Karolayne foi resgatada por policiais militares após uma madrugada de violência brutal. O agressor estava no local. Havia lesões visíveis. Havia risco iminente. Ainda assim, ele não foi detido, não foi conduzido para averiguação imediata e não foi afastado de forma efetiva.
O boletim de ocorrência destaca, de forma absurda, que ela precisou da ajuda da Polícia Militar para "reaver seu celular, que havia sido tomado pelo autor, e que conseguiu pegar parte de seus pertences - parte dos pertences foi danificada pelo autor". Ela teve de sair de casa para não ser morta. Já o agressor, em flagrante, sequer foi perturbado. O atendimento seguiu o rito frio da burocracia, com a obtenção de uma medida protetiva, e não a urgência que o caso exigia. Duas semanas depois, ela estava morta.
Discursos sobre redes de proteção, Patrulha Maria da Penha, Justiça Restaurativa e atendimento psicossocial perdem sentido quando confrontados com a realidade concreta. Medidas protetivas que não blindam, delegacias especializadas que não funcionam 24 horas e municípios inteiros sem estrutura mínima de atendimento à mulher em situação de violência criam um ambiente em que denunciar não garante sobreviver.
O caso de Karolayne escancara uma verdade incômoda: muitas mulheres morrem não porque não pediram ajuda, mas porque, ao pedir, encontraram portas entreabertas, protocolos lentos e decisões equivocadas. O feminicídio, nesses casos, não é um evento isolado - é o último capítulo de uma sequência de falhas.
Enquanto autoridades discutem números, fluxos e estatísticas, mulheres continuam sendo mortas. Karolayne não é apenas mais uma estatística em um levantamento, mas um nome, um rosto e uma história abruptamente encerrados. Ela foi vítima de um feminicídio anunciado. E cada vez que o sistema falha em ouvir, proteger e agir, ele escreve, com antecedência, o próximo crime.