SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 12 DE AGOSTO DE 2022
PANDEMIA

Sem festas presenciais, setor de eventos amarga um ano parado

Empresários de grandes eventos, tradicionais por movimentar a economia em Rio Preto e região, acreditam na vacinação para a retomada

Arthur Pazin
Publicado em 16/04/2021 às 22:18Atualizado em 06/06/2021 às 08:54
Empresários de grandes eventos, tradicionais por movimentar a economia em Rio Preto e região, acreditam na vacinação para a retomada (Johnny Torres 9/4/2021)

Empresários de grandes eventos, tradicionais por movimentar a economia em Rio Preto e região, acreditam na vacinação para a retomada (Johnny Torres 9/4/2021)

Desde o início da pandemia do coronavírus, em março do ano passado, vários negócios têm fechado e reaberto conforme avançam ou retrocedem as fases do Plano São Paulo. Entre este vai e vem, o setor de eventos, primeiro a paralisar e último que deverá voltar à normalidade, tem sido um dos poucos que não integra as categorias que se encaixam na flexibilização.

Sem poder realizar as festas de maneira presencial, empresários de grandes eventos, tradicionais por movimentar a economia em Rio Preto e região, amargam um ano sem gerar renda e apostam na vacinação como a maior expectativa para a retomada.Country Bulls deixa de gerar renda e emprego

Atração indispensável no calendário do município, o Rio Preto Country Bulls não realizou sua 24ª edição, em 2020, de maneira presencial, contando com uma edição simbólica, realizada por meio de uma live em um espaço afastado da cidade.

Integrante de um mercado de lazer que atrai milhares de pessoas, a festa gera, em média, 1,5 mil empregos a cada edição, com a contratação direta e indireta de colaboradores de diversas áreas, desde a montagem da estrutura e arena no Recinto de Exposições, aos seguranças, vendedores, garçons, recepcionistas etc, profissionais afetados com a não-realização do evento.

Desde a pandemia, a equipe do Country Bulls tem contado, então, apenas com os funcionários do escritório, que não foram dispensados. Sem a edição do ano passado, o evento, que movimenta pelo menos R$ 5 milhões e atrai de 120 mil a 150 mil pessoas, deixou de trazer esta renda para a região.

“Quem me conhece sabe da paixão que eu tenho pelos rodeios e o amor que tenho pelo Rio Preto Country Bulls. Cuido pessoalmente de cada detalhe da festa, todos os anos, mas entendemos que uma pandemia impede a realização de um evento de grande porte como o nosso”, disse Paulo Emílio Marques, organizador da festa.

Para livrar-se deste cenário, o empresário afirmou estar esperançoso com a vacinação e com isso, voltar, logo, a realizar o evento, ainda que com restrições e cuidados extras. Marques contou à reportagem que aguarda as liberações das autoridades de saúde para definir se este ano haverá ou não a edição do evento.

“Existe a previsão de avanço da vacinação nos próximos meses. Estamos trabalhando para ficarmos preparados para voltar a realizar o Rio Preto Country Bulls assim que for permitido e for seguro para o nosso público”, ressaltou o empresário, que precisou, diante da situação, renegociar datas com artistas e fornecedores.Villa Mix afeta contratações temporárias

Diversas atrações subindo ao palco no mesmo dia. Essa é a proposta do VillaMix, festival de música que chegou a Rio Preto em 2014 e reuniu 35 mil pessoas, em sua última edição, em 2019, no Recinto de Exposições. O evento é produzido por aqui pelo empresário Marcos Zanovelo, que também está à frente do Buteco Gusttavo Lima.

Segundo Zanovelo, com a não-realização dos eventos, no ano passado, milhares de contratações temporárias deixaram de acontecer, impactando na geração de renda de muitas famílias de Rio Preto e região. “Só o VillaMix gera, anualmente, cinco mil empregos diretos, entre seguranças, garçons, recepcionistas, promoters, montadores, técnicos de som e iluminação, auxiliares de limpeza e motoristas”, disse o produtor sobre o evento, responsável pela geração de R$ 4 milhões, em média, para o município.

“Esse impacto é sentido também nos setores de hotelaria, transporte e alimentação”, acrescentou Zanovelo. Atualmente, o produtor trabalha com os dois eventos sem data para voltar a acontecer, enquanto aguardam a permissão das autoridades sanitárias.

“O setor de eventos foi um dos mais prejudicados pela pandemia, já que foi o primeiro a parar e provavelmente será o último a retornar suas atividades. Nossa sensação é de impotência diante da demora do governo em vacinar a população. Temos um vírus matando milhares de brasileiros, mas também temos um setor de eventos com muitas pessoas necessitadas”, avaliou o empresário. Ele também criticou os “passos lentos” da vacinação. “Não houve empenho em comprar a vacina no momento correto”, disse Zanovelo.Sem Carnaval, Sem Oba!

Com o coronavírus ainda em circulação em fevereiro deste ano, o Carnaval acabou cancelado. Em Votuporanga, pelo menos 1800 postos de trabalho, que atendiam à organização do Oba Festival, tradicional evento carnavalesco realizado há 15 anos na região, deixaram de existir, impactando a renda de famílias e também do município.

“A cidade parava para trabalhar e também binha gente de fora, do Brasil todo”, declarou Matheus Rodero, um dos organizadores do evento, que na última edição, em 2020, reuniu 20 mil pessoas por dia, em média.

Em entrevista ao Diário, Rodero avaliou que os mais afetados eram colaboradores que já contavam com o evento para a fonte de renda. “Falo no pessoal de trabalho braçal, como barman, segurança, montagem de estrutura, atendimento, confecção de abadá, produtores parceiros, pessoas que trabalham para situações que geram aglomeração e então só podem voltar vacinados”, disse.

O empresário contou que para muitos terceirizados, cada dia trabalhado para a realização do evento significava até R$ 800 de fonte de renda. Junto aos outros dois sócios da festa, Edilberto Fiorentino e Alessandro I. Possoni, ele diz que tem conseguido manter um escritório em Votuporanga, porém com o quadro de funcionários fixos reduzido.

“Eu acredito que deixou de ser gerado para a cidade cerca de R$ 30 milhões sem o evento este ano”, afirmou o organizador da festa. Embora eles tenham outros negócios, Rodero contou que a pandemia tem trazido a eles um momento muito difícil, tanto pela preocupação com quem depende financeiramente do evento como pela paixão por fazer acontecer todo o ano o festival, que se tornou referência turística estadual no Carnaval.

“Geralmente a gente e muitos votuporanguenses também trabalhamos um ano todo para quatro dias de evento”, lamentou o empresário. Ele relatou, ainda, que o Oba segue pré-confirmado para julho, mas admitiu a possibilidade de um novo adiamento devido ao ritmo da vacinação contra a Covid.

“Estamos aqui, lutando para ficar fortes até resolver a situação do evento, mas a gente tem bastante esperança, a gente vem conversando com as agências de turismo, trocando ideia, pra ver o melhor caminho pra que aconteça o evento de alguma forma”, disse.

Rodero também comentou que espera que o retorno dos eventos faça com que a população passe a valorizar a realização de festas da região. “Tenho esperança que quando a pandemia passar, os eventos voltem com muita força e valorização, e que as pessoas enxerguem o trabalho para que haja aquela estrutura, a segurança, seja evento grande ou pequeno”, destacou o empresário, enaltecendo a luta da categoria. “Não é fácil ser produtor de eventos, é um risco grande e você lida com muita gente, estrutura, alvarás, documentos, controle de bebidas, muita coisa”, concluiu o organizador do Oba.Barretos acredita no segundo semestre

Com base na lei 14.046, de agosto de 2020, Os Independentes, associação responsável pela realização da Festa do Peão de Barretos, adiou a 65ª edição do evento, que não ocorreu em 2020, para o período de 19 a 29 de agosto deste ano enquanto acompanha a situação da pandemia no Brasil e segue as recomendações das autoridades competentes.

De acordo com o grupo, cada edição do evento gera aproximadamente cinco mil empregos diretos e oito mil indiretos. Segundo a Secretaria de Turismo do Estado, a festa movimentou cerca de R$ 900 milhões, na região, na última edição, em 2019.]

Sem abertura para o público, a estrutura fixa do Parque do Peão segue parada e permanece em funcionamento interno. “Estamos acompanhando de perto o cenário para 2021. É inegável a pujança dos eventos na nossa região e a ausência de toda essa cadeia ativa traz impactos econômicos a milhares de pessoas. O momento é de cautela para que possamos retornar com segurança e restabelecer a força econômica e cultural dos eventos”, disse Jeronimo Luiz Muzetti, presidente de Os Independentes.Bálsamo adia rodeio

Programada para acontecer em junho, a Festa do Peão de Bálsamo precisou adiar novamente a data em decorrência da pandemia do coronavírus. O evento já não aconteceu no ano passado e havia sido marcado pela Comissão Organizadora, no início do ano, pelo cenário com menos casos.

“Tínhamos esperança de que as coisas fossem caminhar para liberação dos eventos, e com isso poderíamos contribuir devolvendo um pouco da alegria e autoestima às pessoas e ao público, trazendo diversão e entretenimento com uma festa de portões abertos”, informou o Clube dos Cavaleiros de Bálsamo, em nota.Associação fala em um terço de fechamentos

Antes da pandemia do coronavírus, o setor de eventos era responsável por 4,32% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, segundo Alessandro I. Possoni, diretor regional, do Interior de São Paulo, da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape). O diretor atribui o dado ao trabalho de pelo menos 72 mil empresas no País.

Ainda de acordo com ele, um terço destas empresas já fechou suas portas e outro terço terá dificuldade de se manter caso o setor continue sem solução imediata. “Estimamos que já foram perdidos 450 mil empregos no Brasil devido à ausência de eventos, com os indiretos falamos em aproximadamente 2 milhões de serviços”, disse Possoni, que é, também, um dos organizadores do Oba Festival, de Votuporanga.

O diretor afirmou que as medidas criadas pelas autoridades para lidar com o cenário econômico em meio à situação foram feitas de forma horizontal, como a redução e suspensão de contratos de trabalho, faltando, entretanto, políticas de auxílio voltadas exclusivamente para o setor, como o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), aprovado pela Câmara e pelo Senado, que aguarda a sanção do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Em meio a tudo isso, Possoni fala em 97% das empresas do setor tendo que lidar com faturamento zero no momento. “Imagine se qualquer setor resistiria a um ano parado”, comentou o diretor. Ele ressaltou que a Associação entende o cenário de crise sanitária e que em nenhum momento pede para que os eventos voltem a acontecer como eram.

“Queremos apenas que neste momento seja reconhecida a importância dos empregos e das rendas geradas com os eventos e que tenhamos condição de manter as empresas vivas para quando as atividades voltarem no momento certo”, disse o empresário.

Enquanto aguarda a sanção do projeto federal, Possoni também reivindica o auxílio dos governos municipais e estaduais na busca de alternativas. “Precisamos discutir medidas e planejamentos para a retomada. Somos um setor organizado e temos condição de seguir protocolos”, enfatizou.Bicos e campanhas

Há pelo menos três anos trabalhando com promoção e divulgação de eventos, de diversos tamanhos, o rio-pretense Rogério Novelli está há um ano sem poder fazer o que gosta e é fundamental para sua renda: vender ingressos e ajudar na organização de festas, como a Feijoada dos Amigos e o Churrascão Renascer, evento anual em prol da associação homônima.

Sem as opções, Novelli passou a arranjar ‘bicos’ em diversos setores e viver de outra fonte de renda, alternativa, segundo ele, encontrada pela maioria dos colabores de festas e afins. “Ta todo mundo 100% parado, indo trabalhar com comida ou outra coisa, mas ninguém está gastando”, avaliou o promoter.

Com o cenário de dificuldade financeira, ele teve a ideia junto a amigos de lançar, nas últimas semanas, a campanha “Corrente contra a Fome”, que termina nesta semana. O objetivo é arrecadar 100 cestas básicas para distribuir a famílias necessitadas, inclusive famílias de quem vivia da renda dos eventos.

“O único segmento afetado 100% foi o ramo de eventos, tem montador, segurança, garçom sem confições de tirar um recurso, um financiamento, porque trabalhavam de maneira informal”, justificou Novelli. Ele disse que a categoria foi “abandonada” pelas autoridades. “Tem cantores de bares e eventos pequenos que estão passando necessidade. Está muito difícil”, disse.

Paulo Emílio Marques (Johnny Torres 9/4/2021)

Villa Mix, em 2019, em Rio Preto (Divulgação/Alison Demetrio)

Marcos Zanovelo, ao lado da mulher Eliane, em evento (Fotos: Arnaldo Mussi)

Country Bulls em Rio Preto (Divulgação)

OBA Festival Votuporanga (Divulgação)

Edilberto Fiorentino e Matheus Rodero, sócios-proprietários do Bloco Oba, em Votuporanga (Arquivo Pessoal)

Alessandro Possoni, diretor regional da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Arquivo Pessoal)

Festa do Peão Barretos (Divulgação)

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