SAINDO DO VERMELHO
Febraban abre feirão de negociações com bancos e instituições financeiras, uma oportunidade para quem está inadimplente; alguns cuidados fazem toda a diferença antes de fechar qualquer acordo

Os consumidores que estejam endividados com bancos e instituições financeiras têm uma oportunidade para renegociar os débitos com condições especiais. Até o dia 31 de março, acontece o Mutirão Nacional de Negociação de Dívidas e Orientação Financeira da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Entre as vantagens estão prazos mais longos, redução de taxas, alteração nas condições de pagamento ou migração para outras modalidades de crédito mais baratas. Não podem ser incluídas no mutirão as dívidas que tenham bens dados em garantia (como veículos, motocicletas e imóveis), assim como dívidas prescritas.
De acordo com o Indicador de Inadimplência da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, em fevereiro o Brasil atingiu a marca de 73,7 milhões de devedores, um volume que corresponde a 44,11% da população adulta. Em relação ao mesmo mês do ano anterior, o aumento de inadimplentes foi de 10,22%.
Caso de Suemi Pereira de Lima, auxiliar de limpeza de 42 anos, deve há anos para o banco. Quando perdeu o emprego, ela não quitou o cheque especial e a dívida se avolumou. "Quero limpar meu nome, mas o dinheiro que ganho não dá. Me atrapalhou ter restrições. Há alguns anos precisava de R$ 10 mil para reformar minha casa. Minha sogra acabou fazendo um empréstimo para mim."
Já Silvana Marcelino da Silva, auxiliar de limpeza de 42 anos, deve a algumas instituições financeiras por conta de dívidas em lojas. "Parei de pagar porque estava sem trabalho. Eles mandam propostas e eu gostaria muito de limpar, porque faz muita falta poder comprar."
Neste cenário, o Feirão da Febraban é uma boa oportunidade para quem quer sair do vermelho na praça e voltar a ter acesso ao crédito. Arethuza Helena Zero, head de educação financeira do site Educafinanceira, alerta que antes de formalizar um acordo é preciso ter alguns cuidados para evitar criar ainda mais problemas.
“É preciso entrar na negociação - seja de cartão de crédito, cheque especial, crédito consignado e outras modalidades - com clareza e estratégia”, orienta. “Antes de falar com o banco e instituições, a pessoa precisa entender exatamente quanto deve, para quem deve e qual é a real capacidade de pagamento. Não adianta fechar um acordo que não cabe no seu bolso.”
Pode parecer tentador resolver a questão de uma vez, mas o ideal é não assumir outra dívida para quitar essa primeira. “Não caia na armadilha de fazer um novo empréstimo para pagar dívida. Renegociar é reorganizar, não empurrar o problema para frente. A dica é fechar o acordo quando tiver segurança de que vai conseguir cumprir a renegociação”, ensina Arethuza.
Celso Sant’Ana, psicólogo e mestre em Finanças Comportamentais, criador da Psicologia Financeira, empresa de consultoria financeira que compartilha informações sobre o assunto pelo YouTube e Instagram, comenta que o feirão acontece em um momento de desespero para muitos consumidores, ansiosos para resolver uma situação que pesa há meses.
“É justamente esse desespero que precisa ser gerenciado antes de qualquer negociação. O maior erro não é técnico, é emocional”, destaca. “A pessoa vê uma proposta que parece melhor do que a atual e assina, aliviada. Daqui a meses, a parcela que pareceu razoável começa a apertar e o ciclo de endividamento recomeça.”
O especialista também ressalta a importância de calcular o orçamento real - não o ideal, não contando com um dinheiro que se espera receber de aumento no mês que vem, mas ainda sequer foi confirmado. “É com o que você tem agora, com folga. A parcela de uma renegociação não deveria comprometer mais do que 30% da renda líquida. Se isso acontecer, o acordo vai quebrar e a situação fica pior do que antes.”
O Feirão
As negociações poderão ser feitas de duas maneiras: diretamente com a instituição financeira credora em seus canais oficiais, ou pelo portal consumidor.gov.br, lembrando que o consumidor precisa ter sua conta Prata ou Ouro; ou presencialmente, nos Procons participantes.
DICAS PARA FAZER UM BOM NEGÓCIO
Antes de começar a negociação, descubra o quanto deve e para quem deve.
Faça um cálculo realista do quanto pode pagar. Não adianta comprometer R$ 300 se sua capacidade de pagamento
mensal é R$ 150 e contar com a sorte ou com um dinheiro ainda incerto para arcar com o compromisso. O risco de não conseguir cumprir o acordo até o final e cair novamente na inadimplência é grande.
O devedor não está em posição tão desvantajosa quanto imagina. Os bancos preferem receber um valor mais baixo do que gostariam do que não ter nenhum retorno do dinheiro, então tentar uma negociação que caiba no bolso é sempre válida.
Não caia em frases que aceleram decisões ruins, como “condição especial por tempo limitado”, “só até hoje” e “últimas vagas”. A negociação também pode acontecer fora de feirões.
No momento da negociação, questione tudo: qual o valor total da dívida, o desconto que está sendo concedido, a taxa de juros aplicada, o valor das parcelas e as consequências caso haja algum atraso no pagamento.
Deve mais do que pode pagar agora, mas consegue negociar parte do montante? Negocie primeiro as dívidas com juros mais altos.
Tente conseguir desconto para pagamento à vista ou em menos parcelas.
Antes de fechar o acordo, calcule exatamente quanto terá pago ao final. Nem sempre é vantajoso estender a negociação por muitos meses.
Evite fazer novos empréstimos para cumprir com dívidas antigas. A ideia é resolver um problema, não empurrá-lo para a frente - muito menos criar outro.
Entenda
Como saber se tenho dívidas?
Na mesma página da negociação, o consumidor também encontra conteúdo exclusivo sobre orientação financeira e acesso a outros canais, como o Registrato, sistema do Banco Central que permite acessar o Relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR). O relatório contém a lista de dívidas em nome do consumidor com instituições financeiras.
Como funciona?
As regras e condições são definidas pelas instituições (bancos e financeiras) de acordo com suas políticas de crédito. Não podem ser incluídas no mutirão as dívidas que tenham bens dados em garantia (como veículos, motocicletas e imóveis), assim como dívidas prescritas.
Como negociar?
Diretamente com a instituição financeira credora em seus canais oficiais, ou pelo portal consumidor.gov.br, lembrando que o consumidor precisa ter sua conta Prata ou Ouro; ou presencialmente nos Procons participantes
Fontes: Agência Brasil; Febraban; Arethuza Helena Zero, head de educação financeira do site Educafinanceira e Celso Sant’Ana, psicólogo e mestre em Finanças Comportamentais, criador da Psicologia Financeira.