IMPACTO NA AGRICULTURA

Guerra entre a Rússia e Ucrânia deve ter impacto na produção agrícola da região de Rio Preto

Guerra entre Rússia e Ucrânia vai refletir na atividade agrícola da região Noroeste Paulista, com aumento dos preços dos fertilizantes e tendência de escassez dos insumos importados

por Felipe Nunes
Publicado em 01/03/2022 às 23:50Atualizado em 02/03/2022 às 08:39
Cana-de-açúcar deve ser uma das atividades mais afetadas pela escassez dos fertilizantes (Divulgação/Wenderson Araujo/CNA)
Galeria
Cana-de-açúcar deve ser uma das atividades mais afetadas pela escassez dos fertilizantes (Divulgação/Wenderson Araujo/CNA)
Ouvir matéria

A guerra entre a Rússia e Ucrânia já provoca reflexos na região noroeste do Estado de São Paulo. O conflito, que nesta quarta-feira, 2, entra no seu sétimo dia, impacta principalmente o setor agrícola, que depende de agroquímicos e fertilizantes importados. De acordo com levantamento Comex Stat, do Ministério da Economia, cerca de 23% dos adubos ou fertilizantes químicos importados em 2021 vieram da Rússia.

Os produtores locais já sofriam com a escalada no preço dos fertilizantes durante a pandemia, principalmente de nitrogênio e potássio. Mas com o conflito, além de uma maior elevação nos preços o receio é de uma escassez cada vez maior nos insumos.

Coordenador da comissão de agronegócio e relações agrárias da OAB de Rio Preto, Ben-Hur Cabrera Filho, reforça que será cada vez mais difícil ter acesso aos produtos russos, o que afetará toda a cadeia de suprimentos. “Vamos enfrentar maior dificuldade em conseguir fertilizantes. O produto estará mais caro e pouco disponível. A consequência disso é uma provável queda na produtividade no campo. Como a oferta não vai acompanhar a demanda, é possível que exista um movimento inflacionário nos produtos de gênero alimentício”.

Por outro lado, a Ucrânia é um importante produtor de grãos e de óleo. Ainda segundo Cabrera Filho, a expectativa de uma quebra na produção ucraniana já pressiona a cotação de algumas das principais commodities agrícolas. “Quando você tem uma quebra de um lado da oferta, que é o que se espera, o mercado fica altivo, ele joga os preços pra cima. A expectativa é de que você tenha mais demanda do que oferta esperada”.

Engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Andrey Vetorelli Borges, explica que as culturas da região que podem sofrer mais com a falta de fertilizantes são a de cana-de-açúcar, grãos (amendoim e soja) e citros (laranja e o limão). “São culturas que precisam bastante desse tipo de adubo e que mais vão sentir com a escassez de fertilizantes. Outras culturas também utilizam os produtos, como a olericultura, mas em volumes inferiores. De forma geral, todas acabam sofrendo”.

O adubo à base de potássio, por exemplo, é responsável por garantir maior resistência das culturas à doença e dar mais peso para grãos e frutos. Com as dificuldades na aquisição de material para plantação, Borges afirma que produtores já anunciaram que vão diminuir o volume de plantação. “Por conta da incerteza em conseguir adubo, muitos produtores vão escolher não usar toda área disponível para o plantio. Quem plantar sem adubo vai acabar produzindo menos, porque o fertilizante é responsável pelo crescimento e peso do fruto. Sem ele, a planta vai sofrer mais”.

Preços em alta expressiva

Produtor de cana-de-açúcar em cinco cidades da região, o engenheiro agrônomo Alexandre Pinto César explica que o custo dos fertilizantes vem de uma alta significativa desde o ano passado. Entre os principais fatores para essa situação, a alta do dólar em 2021, crise em Belarus e uma pressão da China, importadora de fertilizantes. “Os preços dos produtos à base de cloreto de potássio triplicaram e os nitrogenados e a base de fósforo, dobraram”, disse.

Segundo Pinto Cesar, o que estava ocorrendo era um movimento de recuo desses preços, depois das altas expressivas, o que foi interrompido pela nova crise internacional. Para esta safra, cujo plantio começa na próxima semana, o produtor diz que os produtos já estavam comprados, mas para o pós-colheita, ainda não sabe o que fazer. “A situação está muito incerta ainda. Vou aguardar a definição do mercado. Isso porque não temos muitas alternativas. A quantidade a ser aplicada pode ser reduzida, mas pode comprometer a produtividade”, afirmou.

Para o gerente da filial da Coopercitrus em Olímpia, André Volfe, o que estava ruim conseguiu ficar pior. Isso porque os preços dos fertilizantes já estavam exorbitantes e agora, a tendência é de mais aumento e escassez. “Por enquanto não há falta, existe estoque no País, mas não para um período tão longo, de dois a três meses”, afirmou. Hoje, em média, a tonelada de fertilizantes custa R$ 5,5 mil. Em abril do ano passado estava na ordem de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil.

Volfe ressalta que é importante que o conflito acabe o quanto antes e que a situação volte à normalidade para que os produtos possam voltar a ser embarcados em navios com destino ao Brasil. “É uma questão de lei de oferta e procura. Se falta produto, o preço sobe”, diz. Além do impacto dos fertilizantes, ele ressalta os custos de produção, que aumentaram muito e também estão refletindo na atividade agrícola.

(Colaborou Liza Mirella)

Reflexo nos preços

A escalada no preço dos fertilizantes e a escassez do produto no mercado brasileiro vai impactar o preço final dos produtos de maneira diferente. Em alguns casos, os reflexos serão imediatos, em outros pode demorar alguns meses.

Segundo Andrey Vetorelli, engenheiro agrônomo da Cati, o repasse nos custos da produção de grãos deve demorar um pouco mais, já que a colheira de agora foi planejada no meio do ano passado. “Em relação à produção de citros e cana, é preciso fazer adubação de cobertura que começa agora”. Nesse caso, o repasse para o consumidor pode ser mais imediato. O aumento também deve ser mais rápido para as hortaliças. Pois, caso contrário, os produtores teriam dificuldades em arcar com os custos para renovar o estoque de fertilizantes.

Segundo coordenador da comissão de agronegócio e relações agrárias da OAB de Rio Preto, Ben-Hur Cabrera Filho, o setor também será afetado pela alta no preço do barril do petróleo, que já ultrapassou US$ 100. “Podemos esperar outro movimento de alta no preço dos combustíveis. Se o diesel subir, naturalmente os custos da produção também serão afetados”. (FN)

Opção seria buscar mercados

Segundo o despachante aduaneiro da Caribbean Express, Paulo Narcizo Rodrigues, com a impossibilidade de importar fertilizantes da Rússia uma alternativa seria buscar outros mercados. “Temos a opção de importar da China, mas nesse momento todos os países que tinham a Rússia como fornecedor também irão buscar a China, e o país asiático não terá como abastecer a todos em quantidades suficientes”, destaca.

Uma das consequências à invasão russa foi o banimento do país da Swift – código interbancário de confirmação de transação de valores. Se confirmado, ele impede que outros países consigam mandar dinheiro para a Rússia. “Logo, os importadores brasileiros não terão como pagar pela importação dos fertilizantes na Rússia. Essa sanção deve perdurar”.

No caso de a guerra se estender e agravar o cenário internacional, existe a possibilidade de os navios interromperem suas rotas. “Não vai sair navio de lugar nenhum, principalmente da Rússia por conta dos riscos”. (FN)