SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SÁBADO, 22 DE JANEIRO DE 2022
FRAUDE FINANCEIRA

Promessa de retorno garantido e lucro acima do mercado são iscas para esquemas de pirâmide

Retorno financeiro rápido e com margens de lucro acima da média do mercado, é dessa maneira que golpistas e empresas de fachada atraem cada vez mais investidores ao mercado marginal; resultado é um prejuízo milionário

Felipe Nunes
Publicado em 04/12/2021 às 21:51Atualizado em 08/12/2021 às 12:10
 (Pixabay)

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É com a garantia de retorno financeiro rápido e com margens de lucro acima da média do mercado que investidores desavisados são atraídos por pessoas e empresas que parecem atuar no ramo de consultoria de investimentos, mas que na verdade camufla um esquema fraudulento: o de pirâmide financeira. Esse é o tema da primeira de quatro reportagens da série especial Perdas e Ganhos, sobre o mercado de investimentos.

Ilegal, esse tipo de mercado marginal tem se popularizado no Brasil, o que obrigou as autoridades a agirem. De acordo com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), apenas em 2020 foram identificados 324 indícios de crimes financeiros no País, 75% a mais em relação ao ano anterior. Segundo a autarquia, desse total 175 tinham indícios de serem esquemas de pirâmide. Até outubro deste ano, foram identificados 190 indícios relativos a ofertas e atuações irregulares no mercado de capitais.

Após analisar cada caso, a CVM identifica se o assunto é de competência da autarquia ou se a denúncia deve ser encaminhada para instituições competentes, ou seja, aos Ministérios Públicos (Federal e estaduais). Foi após uma dessas denúncias que, no mês passado, a Polícia Federal desarticulou um esquema de Pirâmide Ponzi, sob a fachada da empresa BG e Cred, com sede em Santa Fé do Sul. Nesse tipo de esquema, o investidor não precisa indicar outras pessoas para ter retorno financeiro, bastaria aplicar o capital para começar a receber os lucros. Segundo a investigação, apenas nos últimos meses o grupo teria movimentado cerca de R$ 40 milhões.

O delegado da Polícia Federal de Jales, Jackson Gonçalves, explica que para atrair cada vez mais clientes, a BG e Cred vendia uma falsa imagem de credibilidade e solidez. Para isso, pagava até anúncios em revistas conceituadas da área de finanças. “Eles faziam uma propaganda massiva nas redes sociais para mostrar a imagem de uma empresa vencedora e do jovem milionário investidor. Ele [empresário, chefe do esquema] ainda tinha um programa no rádio sobre educação financeira, apesar de não ter nenhuma graduação ou capacitação na área”, diz.

Na verdade, o objetivo da empresa era convencer os poupadores a entregarem suas economias em troca de altas taxas de juros remuneratórios, que chegavam até 5% ao mês. Mas, segundo o delegado, esse retorno era pago com recursos de novos investidores. Estima-se que cerca de 5 mil pessoas tenham caído no golpe. Os golpistas também convenciam as pessoas a fazerem empréstimos consignados, com taxa de juros que variavam de 2% a 3%, e que seriam pagos apenas com o lucro da aplicação. “Posso dizer que quem tinha dinheiro investido lá corre o risco de nunca receber. Até agora não foi encontrada uma grande parcela de patrimônio para cobrir o investimento desses clientes”, diz.

Fatores

Assessora de investimento da Blue 3, Tamires Barrionuevo destaca que são três os principais fatores que levam as pessoas a caírem em esquemas de investimento fraudulentos, como nos casos das pirâmides financeiras. O primeiro deles seria a falta de educação financeira básica. Ela destaca que isso não é algo exclusivo das pessoas mais vulneráveis, sem dinheiro para aplicação. “Isso é bastante comum até entre os grandes investidores. Pessoas com volume de dinheiro considerável, acumulado ao longo da vida de trabalho, mas sem conhecimento do mercado financeiro”.

Tamires explica que quem tem interesse em investir precisa se informar e acompanhar o mercado. “Se a pessoa soubesse o patamar da taxa básica de juros saberia que qualquer coisa diferente disso seria de se duvidar”.

Os outros dois pontos são a pressa em conseguir retorno e a ganância em ter a oportunidade de ganhar mais do que os outros, mesmo tendo em mente que o retorno não é totalmente lícito. “É preciso ter algo em mente: ninguém dá dinheiro fácil. Qualquer investimento que prometa rentabilidade garantida é preciso levar com desconfiança”.

Decifra-me ou te devoro

Uma coisa é certa em um esquema de pirâmide: uma hora ela irá ruir e quem estiver lá pode nunca mais ver a cor do dinheiro. Por esse motivo, autoridades e especialistas defendem ser preciso estudar o mercado e se orientar, antes que a busca por liquidez financeira faça seu dinheiro se tornar líquido e “escorrer pelo ralo”.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) esclarece que pirâmides financeiras são esquemas ilegais para captação de recursos. No esquema, os lucros ou rendimentos são pagos com os aportes de novos participantes, que aplicam investimento inicial para aderir à estrutura.  “A adesão de novos membros expande a base da pirâmide. Mas essa expansão é insustentável e, inevitavelmente, não será suficiente para pagar todos os compromissos”, esclarece a autarquia. “Atrasos nos pagamentos levarão ao desmoronamento do esquema, gerando prejuízos especialmente para os novos aderentes, que por terem ingressado mais recentemente, não terão tempo para recuperar o que foi ‘investido’”.

Em outubro, a CVM e a Bolsa de Valores (B3) lançaram a campanha #seliganacilada, com o objetivo de alertar pessoas sobre armadilhas presentes nas redes sociais.

A autarquia alerta que antes de tomar a decisão, é importante que o investidor verifique se a instituição possui registro na CVM e avalie a procedência das informações recebidas. “Não acredite em promessas de retornos elevados, rápidos e com baixo risco, características comuns em esquemas irregulares”. (FN)

Como não cair em ciladas

Investigue bem antes de investir

A informação é a primeira linha de defesa contra golpes financeiros: antes de realizar o investimento, é importante verificar a idoneidade da empresa junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM)

Desconfie de promessas de retornos elevados com baixo risco: lembre-se de que, em aplicações de renda variável (ações, fundos imobiliários, criptoativos etc.), não é possível afirmar com precisão que ocorrerá o ganho nem de quanto seria esse eventual ganho. Portanto, fique atento às promessas de lucro em curto prazo

Baseie sua decisão em questões objetivas: antes de aplicar seu dinheiro em uma instituição nova, procure entender, de forma clara, como as operações funcionam e o lucro é obtido, a fim de concluir se as promessas estão de acordo com a realidade

Verifique sempre o ofertante/intermediário

  • Assegure-se de que a instituição por trás do investimento é registrada junto à CVM
  • Apenas instituições financeiras autorizadas podem oferecer operações no mercado de valores

Tenha certeza de que entendeu os riscos e as características do investimento

  • Não tenha receio de fazer perguntas;
  • Nunca tome decisões de investimento de forma apressada
  • Pesquise sobre o tipo de investimento oferecido, antes de decidir

Proteja suas informações e acompanhe suas operações

  • Não entregue a sua senha a terceiros
  • Agentes autônomos fazem o contato com o investidor em nome do Intermediário, mas não podem, ao mesmo tempo, gerir os seus investimentos
  • Acompanhe as operações realizadas em seu nome

Fonte: Comissão de Valores Mobiliários

 
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