AGRODIÁRIO

Guerra eleva preço e pode afetar demanda de algodão

Produtores do Noroeste paulista diminuíram plantios na região e estão preocupados com a menor demanda global da fibra, reflexo do conflito no Oriente Médio

por Cristina Cais
Publicação em 01/04/2026
Os produtores Diogo Mendonça e Laerce Maximiano avaliam mercado irregular da pluma (Divulgação)
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Os produtores Diogo Mendonça e Laerce Maximiano avaliam mercado irregular da pluma (Divulgação)
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Os preços do algodão no mercado internacional estão mais elevados, impulsionados pela alta do petróleo diante do conflito no Oriente Médio. Porém, com a demanda global da pluma aquecida, produtores da região afirmam que a produção no campo e os contratos com a indústria podem ter maior impacto caso a guerra no Irã continue por mais tempo.

De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o aumento da paridade de exportação e a valorização do Índice Cotlook A, que referencia a pluma posta no Extremo Oriente, seguem dando suporte aos preços do algodão no Brasil. A paridade na exportação é um termo técnico que define o preço ao exportador, sendo que quando essa paridade sobe, o preço interno tende a acompanhar o movimento para evitar que todo o produto seja escoado para fora do País.

Pesquisadores do Cepea explicam que, com a demanda internacional aquecida, vendedores brasileiros seguem firmes nos valores pedidos, enquanto a maior atratividade do mercado externo tem levado tradings a pagar preços mais altos pela pluma.

Na região de Votuporanga, que concentra as áreas de plantio de algodão no Noroeste do estado de São Paulo, produtores já vinham com dificuldades em escoar a produção da pluma, que apresentou menos qualidade no campo e preços que desanimaram a comercialização na safra passada.

“O mercado está muito travado, sem muita oscilação, porque o preço do dólar está irregular, e aqui na nossa região não tem muito produtor vendendo e nem muita trading comprando o algodão”, comenta o agrônomo e produtor Diogo Mendonça, de Riolândia.

Colheita

Produtores contam ainda que finalizaram os plantios das poucas áreas de algodão na região, sendo que a colheita está prevista para os próximos 60 dias. “A situação do agronegócio no Brasil está bem desanimadora. O mercado está muito irregular, tanto para o algodão quanto para a soja, que é a cultura que normalmente se planta por aqui”, afirmou Diogo.

Custo de produção alto e preços baixos pagos no campo resultaram em redução de mais de 30% das áreas de cultivos do algodão na região Noroeste. “Na safra passada tivemos problemas com veranicos e preços baixos na cotação da pluma. Nesse ano, as chuvas estão mais intensas e prejudicaram o desenvolvimento de algumas plantas, no estágio inicial do algodão”, conta o produtor Laerce Maximiano, de Cosmorama.

Brasil ampliou exportações

Apesar da diminuição de áreas de plantio do algodão, que apresentou redução não apenas no Noroeste paulista e provocou baixa liquidez no mercado interno, as vendas externas tiveram recorde em dezembro do ano passado. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o Brasil embarcou 452, 49 mil toneladas de algodão no mês de dezembro, volume recorde.

Conforme levantamento da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), as vendas externas continuam firmes, sendo que o Brasil exportou 1,722 milhão de toneladas entre agosto de 2025 e janeiro de 2026. Segundo o estudo, a China liderou as compras neste período, sendo responsável por 28% do total embarcado.

Além da China, a Abrapa destaca os aumentos das exportações para a Índia e a Turquia, ambas com crescimento próximo de 80 mil toneladas no período. Por outro lado, o Vietnã reduziu as compras, com queda de 154,8 mil toneladas no acumulado, configurando o principal destaque negativo.

No mercado interno, a projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra 2025-2026 é de redução de 3,5% na área plantada em relação à safra anterior, prevista em cerca de 2,0 milhões de hectares, com uma produção de pluma estimada em 3,8 milhões de toneladas. (CC)

Algodoeira registrou menor demanda

Em Valentim Gentil, o beneficiamento do algodão da safra passada não será feito pela empresa Ouro Branco, já que segundo os diretores, o volume menor de algodão não compensa a atividade. Segundo o diretor da beneficiadora, Arquimedes Celeri, a área plantada diminuiu 80%, o que resulta em pouco volume da pluma.

“O clima não contribuiu já na safra anterior, com pouca chuva e preço baixo pago pela fibra. Então, decidimos não ligar as máquinas para o beneficiamento de algodão dos produtores que trabalham com a empresa”, disse Celeri.

Quanto aos preços elevados da commodity, Celeri diz que depende muito do cenário e duração da guerra no Oriente Médio. “Neste momento os preços mais altos do algodão não devem refletir nesta safra, já que os produtores devem ter fechado os contratos com as indústrias antecipadamente”, pontua.

No campo, o agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), Flávio Tokuda, destaca que a produção de algodão na região Noroeste deve atingir plantios de 700 hectares. “Os produtores ainda não têm uma expectativa do volume da fibra, sendo que na maior parte das áreas também não se tem ainda uma previsão de produtividade com as plantas”.

A preocupação dos agricultores com os plantios vai além da atual safra. Segundo Laerce, os insumos como os fertilizantes que tiveram muitas altas de preços, devem ter maior custo na compra do agricultor para a próxima safra. "Está preocupando muito esta alta do diesel e do adubo, não sabemos como vamos plantar algodão e soja na próxima safra, com esses preços tão altos no custo da nossa produção”, pontua. (CC)