Empreendedores que gerenciam seu negócio trabalham mais de 9 horas por dia
Empreendedores, especialmente os individuais, vivem uma rotina puxada na gestão do próprio negócio; pesquisa mostra que eles trabalham, em média, 9,3 horas por dia de segunda à sexta-feira

Existe uma máxima que costuma conduzir quem pensa em empreender: de que a atividade vai permitir mais tempo livre na agenda. A verdade é que nem sempre é assim. Ao contrário. Quem empreende costuma passar mais tempo trabalhando do que aqueles que cumprem o expediente da jornada diária de um emprego formal. De acordo com a pesquisa do Sebrae Tempo do Empreendedor, boa parte dos empresários trabalha aos sábados e domingos e, mesmo assim, há aqueles que afirmam faltar tempo para cuidar da empresa.
De acordo com o levantamento, um empreendedor trabalha em média 9,3 horas por dia de segunda à sexta-feira, e quanto maior o porte da empresa, maior a média de horas trabalhadas, variando de 9,2 horas para o Microempreendedor Individual (MEI), passando para 9,7 horas na microempresa e chegando a 9,9 horas em uma empresa de pequeno porte.
Segundo Sabrina Ikeda Neves Saeki, analista de negócios do Sebrae-SP, a falta de tempo é uma reclamação recorrente entre os empresários, que dizem não conseguir estudar, por exemplo, em função das demandas do negócio. Esse problema é mais frequente ainda entre os menores. “Quando o empreendedor é a ‘eupresa’ falta ainda mais tempo, já que ele produz, é a parte financeira, faz contato com clientes, cuida do marketing”, afirma.
De acordo com o Sebrae, os empreendedores que costumam trabalhar aos sábados são 78%, dedicando cerca de sete horas desse dia para os negócios. No caso do MEI, a parcela sobe para 82%. Por sua vez, na comparação entre homens e mulheres, 81% delas dão expediente aos sábados ante 74% dos homens. Já os 33% (entre homens e mulheres) que trabalham aos domingos têm jornada média de 6,3 horas.
Mesmo com essa rotina, 45% dos empreendedores dizem faltar tempo para a empresa. Essa sensação é maior entre as mulheres – 51% delas ante 40% dos homens. “Ter o próprio negócio exige muita dedicação; é comum nas pequenas empresas o dono ser o primeiro a chegar e o último a sair”, afirma o diretor-superintendente do Sebrae-SP, Wilson Poit.
De acordo com Sabrina, o primeiro passo para tentar amenizar esse problema é delegar funções, caso haja colaboradores na empresa. “É preciso se atentar ao que compete unicamente ao empresário”, disse. E, quando se é sozinho, uma das formas de administração do tempo é a técnica de Pomodoro, em que a hora vai sendo dividida em quatro intervalos de 25 minutos para se fazer o que é urgente e o que é importante. “São 25 minutos dedicados a uma única atividade, como atender clientes ou pagar fornecedores. Parece pouco, mas essa dedicação exclusiva significa produtividade maior e qualidade de entrega.”
O atendimento aos clientes é o que mais ocupa o tempo dos empreendedores. Segundo revela a pesquisa, eles gastam 3,9 horas do dia com essa tarefa. Em meio a tantas atribuições, o tempo para descanso acaba sendo impactado. Segundo o levantamento, os empreendedores dormem 6,7 horas por noite, em média. Apesar de 59% considerarem que é tempo suficiente, 37% avaliam que não é o bastante e só 4% consideram mais do que suficiente.
Capacidade produtiva deve ser descoberta
O objetivo do empreendedor que quer administrar melhor seu tempo deve ser entender sua capacidade produtiva. Quem dá a dica é a Sabrina Ikeda Neves Saeki, analista de negócios do Sebrae-SP. Isso quer dizer saber o quanto consegue produzir ou prestar serviço em determinado tempo. “Dessa forma fica mais fácil fechar clientes ou negociar encomendas maiores”, diz.
Como exemplo, vamos citar uma manicure que consiga fazer dez unhas em cinco horas. Ela passa a fechar seu trabalho nesse intervalo e define dias da semana ou períodos em que vai se dedicar a outras atividades, como fechar a própria agenda, captar clientes ou fazer publicações nas redes sociais. “Ao estabelecer os horários de atendimento, passo a ser mais produtivo nos outros períodos”, afirmou.
No caso de quem trabalha com produção, Sabrina cita uma pessoa que produza bolsas de crochê. Esse empreendedor precisa saber em quanto tempo consegue terminar uma peça para assim definir sua capacidade produtiva. “Só assim ela sabe se consegue atender a um pedido de última hora, se consegue entregar, principalmente trabalhando sozinha”, diz.
Outra dica é ter cuidado com o celular, ferramenta de trabalho, mas que também pode ser uma grande distração. Ao decidir fazer algum tipo de atividade “desligue as notificações do aparelho para ser mais produtivo”. (LM)
Sensação de correria é frequente

A professora Cleufa Cecília Belati se aposentou recentemente e passou cuidar da parte administrativa da empresa Ziah Gourmet, onde o marido, Ziad Ferzli, produz pratos libaneses doces e salgados. Ele produz as delícias da gastronomia e ela fica responsável por atender clientes, cuidar das entregas, entre outras funções. Ainda que seja em dois, a impressão é de que estão sempre correndo. “Já estamos aprendendo a administrar o tempo, mas é sempre uma incógnita. Tem semanas que quase ficamos malucos e em outras é mais tranquilo”.
Ela conta que faz um planejamento diário, mas que nem sempre consegue cumprir. No dia da entrevista, por exemplo, pretendia sair para uma entrega, mas estava há horas apenas atendendo clientes pelo telefone e whatsapp. “É preciso dar atenção ao cliente se não ele pode não gostar e não voltar”, afirma.
A manicure Ellen de Oliveira Wendt vive uma correria entre as muitas demandas profissionais e de casa – que tem deixado para resolver quando é possível - e tem como meta para o ano que vem, reduzir os atendimentos de clientes por dia para conseguir cuidar da parte digital do seu negócio. Embora faça unhas tradicionais, está mais focada em alongamento e ainda dá cursos para outras profissionais da área. “Atendo seis pessoas por dia. Se atendo uma a mais nem consigo parar para almoçar”, conta.
Os domingos, que seriam o dia para descansar, são usados para preparar os conteúdos para o Instagram e também para as aulas que dá. “Uma coisa que tenho definida para administrar o tempo é responder as clientes pelo whastapp só no fim do dia. Como trabalho com as mãos, não consigo nem pegar o celular.” (LM)