Brasil aciona os EUA na OMC contra o tarifaço de Trump

Em entrevista à Reuters, Lula disse que "não tem por que" ligar para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

por Agência Estado
Publicado em 06/08/2025 às 22:16Atualizado em 07/08/2025 às 01:34
Brasília (DF), 01/08/2025 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da entrega simultânea de 1.876 unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Casa, em cerimônia virtual no Palácio do Planalto. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
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Brasília (DF), 01/08/2025 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da entrega simultânea de 1.876 unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Casa, em cerimônia virtual no Palácio do Planalto. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
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O governo federal brasileiro deu entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) com um "pedido de consulta" contra os Estados Unidos, em reação ao tarifaço imposto pelo presidente norte-americano, Donald Trump, às exportações brasileiras, medida que entrou em vigor na quarta-feira, 6. A informação é do Ministério das Relações Exteriores (MRE).

Na segunda-feira, 4, o Conselho Estratégico da Câmara de Comércio Exterior (Camex) havia autorizado o MRE a acionar o mecanismo de solução de controvérsias da OMC sobre as medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.

Na mesma segunda-feira, o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, já havia adiantado a aprovação da consulta pelo órgão. "O presidente Lula agora vai decidir quando fazê-lo e como fazê-lo", acrescentou.

A entrada na OMC, contudo, tende a ter caráter simbólico, uma vez que o órgão de apelação da OMC está inativo pela falta de indicação do membro norte-americano.

Ligação

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou nesta quarta-feira, 6, em entrevista à Reuters, que "não tem por que" ligar para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para falar sobre o tarifaço contra os produtos nacionais. "Não tenho o porquê ligar para Trump porque, nas cartas que ele mandou, ele não fala em negociação", disse Lula. "Um presidente não pode ficar se humilhando para outro."

Segundo Lula, o comunicado norte-americano foi recebido de forma "totalmente autoritária" pelo governo brasileiro.

Ele classificou a medida como mais do que uma "simples intromissão", afirmando que se tratava do próprio presidente dos EUA agindo como se pudesse ditar regras a um país soberano.

Lula afirmou ainda que até poderia anunciar uma taxação sobre produtos americanos, mas decidiu não fazê-lo por não querer adotar o mesmo tipo de comportamento de Trump.

Impacto

O presidente ressaltou que o Brasil não está encontrando interlocução com o governo americano, mas que a diplomacia brasileira está aberta para o diálogo. "Na hora que eles quiserem conversar, vamos conversar. Acreditamos que países que possuem 201 anos de relação diplomática civilizada não vão jogar isso fora por atitude destemperada", afirmou.

Ele também comentou que o governo atua para lidar com os impactos do tarifaço sobre empresas nacionais. "Estamos trabalhando para saber como vamos lidar com empresas brasileiras que terão prejuízos. Temos que cuidar da manutenção de empregos e ajudar empresas a procurar novos mercados", disse.
Além disso, Lula afirmou que o governo está empenhado em convencer empresários americanos a se posicionarem contra as medidas de Trump, destacando a importância do engajamento do setor privado dos EUA na contenção dos efeitos do tarifaço.

Ao ser questionado sobre um plano de contingência, disse que o Brasil fará o que estiver ao alcance da economia nacional, sempre mantendo a responsabilidade fiscal.

Encarregado é convocado

A Comissão de Finanças e Tributação (CFT) da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira, 6, um requerimento de convite para o comparecimento do encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, para a prestação de esclarecimentos sobre o "tarifaço" estabelecido pelo presidente Donald Trump.

De autoria do deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP), o requerimento aprovado solicita explicações de Escobar "acerca das declarações referentes à possível imposição de tarifas comerciais de até 50% sobre produtos brasileiros".

O requerimento também menciona "recentes tratativas do governo norte-americano com autoridades brasileiras que não integram formalmente a estrutura diplomática nacional" e cita como exemplo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Na sessão da CFT, o presidente do colegiado, deputado Rogério Correia (PT-MG), defendeu explicações sobre "o porquê de os Estados Unidos estarem agindo dessa forma, sendo que eles têm superávit comercial com o Brasil".

Ainda não há data marcada para o comparecimento de Escobar. (AE)

Haddad se reunirá com secretário

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta quarta-feira, 6, que terá uma reunião remota com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, na próxima quarta-feira, 13, para tratar da tarifa de 50% sobre parte das exportações do Brasil para os Estados Unidos. Haddad disse ainda que a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pode ser objeto da conversa.

O ministro afirmou que, a depender da qualidade da conversa com Bessent, pode haver uma reunião de trabalho presencial. "Aí será uma reunião com os ânimos já orientados no sentido de um entendimento entre os dois países, que têm um relacionamento de uns 200 anos, e que não faz o menor sentido nós estarmos vivendo nesse momento. A questão da política tem que ser tratada na esfera da política", disse.

Haddad repetiu que a intenção do governo brasileiro é abrir um cenário de negociação e superar um desentendimento que, segundo o ministro, foi provocado pela extrema-direita do País. "Até a tarifa de 10% nós estávamos achando inadequado, porque a América do Sul é deficitária em relação aos Estados Unidos", emendou.

Ele voltou também a expressar preocupação com a ação da família do ex-presidente Jair Bolsonaro nos Estados Unidos. "Hoje teve uma entrevista muito forte do Eduardo Bolsonaro ameaçando o Congresso Nacional e dizendo que o empresariado brasileiro do agro não está em contato com ele pedindo um arrefecimento das tensões entre os dois países, que seria o mais adequado. O pessoal ligado a eles trabalharam junto conosco para distensionar as relações e tratar o que é a política na política e o que é a economia na economia. Essa mistura está atrapalhando, atrapalhando muito", afirmou. (AE)