Clima instável afeta produção regional de mel
Apicultores colhem mel na região Noroeste paulista e sentem os reflexos do clima mais frio, das chuvas e da estiagem, o que acabou provocando uma safra menor neste ano

As intempéries do clima afetaram a produção de mel na região Noroeste do estado de São Paulo e as abelhas tiveram menos alimentos para garantir uma safra maior neste ano. Com a falta de néctar nas plantas, a produção de mel diminuiu em até 50% se comparada com a safra do ano passado. Apicultores explicam que as frentes frias e as chuvas causaram o desequilíbrio para os animais se alimentarem no pasto apícola, enfraquecendo a safra deste ano.
“As floradas de laranjeira e de cipó-uva, as mais comuns para a produção de mel na nossa região, foram até boas. Mas as abelhas não conseguiam extrair o néctar e pólen destas flores. E o clima deve ser o principal fator, já que a abelha se enfraquece com o frio. Já com as chuvas, a gente diz que lava o alimento das plantas”, comenta o apicultor Altair Baiocchi.
Há duas décadas na atividade da apicultura de abelhas africanizadas (com ferrão), Altair possui colmeias nos municípios de Adolfo, Mendonça e Irapuã, e conta que não via este cenário de as abelhas não conseguirem se alimentar desde 2006. Na produção de mel, o produtor tem 850 colmeias e consegue comercializar anualmente uma média de 15 toneladas de mel de laranjeira e de mel silvestre.
Porém, nesta safra, com todas essas caixas de abelhas levadas para as propriedades rurais (onde ocorre o pasto apícola, próximo às floradas), o apicultor conseguiu uma produção de apenas cinco toneladas de mel. “Em outras safras, com 300 caixas conseguia uma produção de mel bem superior à que estou colhendo agora”.
Produção em alerta
Menos alimentos para as abelhas na produção de mel, a mortandade dos animais é outra preocupação. Muitos apicultores relatam os problemas com as aplicações de defensivos agrícolas, especialmente os que são feitos por pulverizações aéreas nos canaviais. “A produção de mel está em alerta”, diz o apicultor Alexandre José de Oliveira.
Além das plantações de cana-de-açúcar, Alexandre pontua que nesta safra, as floradas de laranjeiras também foram muito impactadas pela aplicação dos defensivos agrícolas. “A gente percebe que o citricultor está aplicando mais agrotóxico por conta do avanço do greening (doença que ataca os citros e não tem cura) na região”, afirma Alexandre.
Junto com o pai, que está na apicultura há 30 anos, Alexandre possui 130 colmeias em Adolfo, e viu a produção anual de sete toneladas cair para duas toneladas de mel nesta safra. “Nos pomares de laranja não conseguimos extrair nada nesta safra, as abelhas acabaram se intoxicando com o defensivo, o que causa a mortalidade dos animais”.
Produtos e certificação
Para garantir o mel de qualidade para os consumidores, apicultores investem em derivados e no entreposto para a fabricação destes produtos. Em Rio Preto, o apicultor Hebert Monteiro, além de trabalhar na produção de mel, possui o entreposto para a fabricação de mel, própolis e pólen. Hebert também investiu na certificação junto aos órgãos municipal e federal, com o selo SIM-SISB, para comercializar os produtos na cidade e em outros estados brasileiros.
Atualmente, o principal produto do apiário da família de Hebert é o mel, com uma produção anual entre oito e dez toneladas. “Com a certificação, podemos vender o produto em todo o País. Precisei fazer investimentos de R$ 350 mil para adequar o espaço físico para a fabricação do mel. Mas valeu muito, pois agora posso ter os produtos em todas as prateleiras de diferentes locais”.
Em Cosmorama, o apicultor Guilherme Diniz se dedica à produção de mel, investindo em produtos que chamam a atenção do consumidor, como o favo de mel que produz e coloca em uma caixa acrílica. Na colheita do mês de agosto, Guilherme colheu 120 favos de mel e em uma semana comercializou todos, um diferencial da apicultura local.
“Investimos em novas embalagens, um pouco mais sofisticadas. No ano passado tivermos muitos problemas climáticos, mas nesta safra a expectativa com o final da colheita no mês de novembro é de uma produtividade de 30% a mais”. (CC)
Potencial de produção na região
No último levantamento da Secretaria de Agricultura do estado de São Paulo, em 2020, a produção paulista de mel chegou a 4.527 toneladas, representando 9,8% da produção nacional. Os dados apontam que existem mais de 1,6 mil apicultores no Estado de São Paulo operando mais de 72 mil colmeias. Para a diretora do Centro de Agroecologia e Serviços Ambientais da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), Carolina Matos, o estado paulista tem potencial para expandir a produção de mel em diferentes regiões.
“É importante o apicultor fazer o manejo das colmeias, não apenas deixar as caixas nas propriedades, ele tem que acompanhar. Observar se há pragas, se a abelha rainha está fazendo a oviposição, se não precisa trocar essa rainha por uma mais jovem. Enfim, o manejo adequado vai favorecer a produção de mel”, diz Carolina.
Carolina destaca ainda que cada região tem um comportamento com relação ao clima, mas que as alterações climáticas têm afetado a produção de mel em todo o estado de São Paulo. Ela diz ainda que tem um histórico climático de dois anos de forte estiagem e de geadas, o que sinaliza para a abelha não encontrar tanto alimento.
“Quando ocorre esse desequilíbrio na fauna e na flora, os recursos para as abelhas procurarem o alimento delas ficam menores. Nas flores elas retiram o néctar e o pólen, que é o alimento proteico das abelhas”, enfatiza. Outro desequilíbrio para os animais é o tempo mais chuvoso, que segundo a especialista, dificulta a procura por alimentos.
Além do manejo adequado, Carolina considera importante o apicultor ter o cadastro no Sistema Gestão de Defesa Animal e Vegetal (Gedave). Na região de Rio Preto (que integra 24 municípios), Carolina diz que cerca de 6% dos apiários possuem cadastro no Gedave. “Com o cadastro podemos saber da existência dos apiários e destinar políticas públicas para a produção de mel”. (CC)