SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 22 DE OUTUBRO DE 2021
AGRODIÁRIO

Frio intenso prejudica produção de cana-de-açúcar da região

Após perdas com a estiagem, geadas prejudicam cana-de-açúcar e produtor espera menor lucratividade

Cristina Cais
Publicado em 30/07/2021 às 23:08Atualizado em 31/07/2021 às 09:24
Geada registrada no último dia 29 no canavial do produtor Alexandre Pinto César, em Onda Verde

Geada registrada no último dia 29 no canavial do produtor Alexandre Pinto César, em Onda Verde

O clima seco do ano passado já previa queda de produtividade para a safra de cana-de-açúcar deste ano em todo o estado de São Paulo. O que o produtor não contava era com três geadas seguidas, iniciadas no mês de junho, e que prejudicariam ainda mais os canaviais. Com as baixas temperaturas, produtores da região adiantaram o processo de colheita para evitar maiores prejuízos com as plantas em produção.

De acordo com o monitoramento de geadas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), da safra 2020-2021, detectou- se a queima das folhas de grande parte dos canaviais do centro-sul do País, acentuando as perdas já causadas pelo estresse hídrico. No boletim divulgado pela Conab, destaca-se também que as unidades de produção sucroalcooleiras estão adiantando as operações de colheita para estimular a rebrota dos canaviais e minimizar as perdas da produção.

Produtores rurais afirmam que a situação dos canaviais da região Noroeste do estado de São Paulo não deixa de ser preocupante com os episódios de geadas dos últimos dias, e a previsão de uma nova geada, que deve chegar a meados do mês de agosto. Alexandre Pinto César disse ter 80% de área plantada com cana atingida pelas severas geadas dos meses de junho, julho e do último dia 29, em Onda Verde. “Na primeira geada, registrada no mês de junho, tive que acelerar o processo de colheita para evitar mais perdas de plantas”.

Alexandre disse que o canavial, que já vinha muito prejudicado com a seca e a falta de chuvas desde 2020, teve as folhas das plantas queimadas com a geada. “Quando as folhas são queimadas pela geada, param de vegetar, desidratando a planta, o que gera a perda de peso e qualidade da cana. Em 38 anos de trabalho com os canaviais nunca havia visto geadas como estas. O Noroeste Paulista foi severamente impactado com a seca do ano passado e agora, com as baixas temperaturas dos últimos dias, não apenas para a cana-de açúcar, mas para diversas culturas”, destaca.

Os cálculos com os prejuízos na queda de produtividade, segundo Alexandre, ainda não podem ser tão exatos - entre 25% e 30% -, mas há prejuízos que são contabilizados para as próximas safras. É que o produtor tinha feito um investimento com a compra de 30 mil novas mudas de cana-de-açúcar, todas perdidas com a geada, e que vão atrasar o plantio no canavial em pelo menos um ano. “Além do prejuízo, são variedades de cana que não são fáceis de adquirir novamente”.

A situação dos canaviais é preocupante para o produtor rural Osmair Guareschi. “São praticamente dois anos de tempo seco e agora, além dessa estiagem prolongada, tivemos três geadas seguidas que afetaram muito a cana-de-açúcar em toda a região do Noroeste Paulista”. Para Osmair, ainda não há exatidão dos cálculos com a queda de produtividade, mas ele estima entre 10% e 25% a quebra de safra, com as baixas temperaturas entre 1°C e 2°C registradas no campo.

O reflexo maior com as perdas significativas, Osmar aponta para a próxima safra. “Afetou bastante o canavial nesta safra e na próxima também. Já percebemos que tem planta que brotou, roçou e já queimou com a geada”, diz Osmair. A produtividade, nos canaviais do produtor, apresentou queda de no mínimo 15% com a falta de chuvas que não chegaram até as plantas, provocando estresse hídrico na cana.

“Assim como a seca diminui a produtividade, a geada também causa a perda de peso da planta, que apodrece no campo e ainda tem o risco de incêndios no canavial”, afirmou Osmair. Em 10 mil hectares de área plantada com cana-de-açúcar, ele estima que deverá adiantar a colheita em pelo menos 45 dias nesta safra, evitando a perda das plantas pelo clima adverso da região.

Parte da colheita do produtor rural Juliano Maset já estava em andamento quando a primeira geada atingiu a propriedade rural localizada em Monte Aprazível. “Os brotos da cana acabaram morrendo com as baixas temperaturas dos últimos dias e, com certeza, com a previsão de novas geadas, o prejuízo será grande”, diz.

A planta que estava maior, segundo Juliano, agora está secando com as baixas temperaturas que atingiu a lavoura. “Fica tão seca a planta que é como se tivesse colocado fogo na cana. Nunca tinha visto isso em tanto tempo que trabalho com o canavial”, afirma, destacando ainda que a produtividade da colheita deve ficar 50% menor em comparação com as safras passadas.

Evite fazer mudanças

Apesar de muitos estragos em várias culturas da agricultura, especialistas dizem que é difícil tomar muitas medidas com as frentes frias que estão chegando muito rapidamente ao estado paulista. A pesquisadora científica, com doutorado em Agronomia (Física do Ambiente Agrícola), do Instituto Agronômico (IAC) de Campinas, Angélica Prela Pantano, diz que tem orientado o produtor a não interferir na produção, como a de cana-de-açúcar, por exemplo.

“Pedimos para o produtor não mexer na produção. Como temos um ano totalmente atípico em temperaturas, primeiro com o clima seco que começou mais cedo, a falta de chuvas e agora as geadas, o produtor deve evitar fazer mudanças neste momento”, disse Angélica. Ela disse que a temperatura tem ficado alta durante o dia, mantendo até 30° C em regiões como a do Noroeste Paulista e 10° C à noite, o que faz com que a planta do canavial se mantenha fisiologicamente ativa.

“Com as baixas temperaturas, as folhas da cana vão queimar, mas mesmo assim o produtor consegue colher. O problema é que se ele antecipar muito a colheita, como os novos brotos são sensíveis, o produtor corre o risco de perder a rebrota”, explica a pesquisadora. Ela lembrou ainda que a cana, que sempre foi resistente ao clima frio, foi atingida com severidade e muitas lavouras terão prejuízos com as geadas.

Angélica disse ainda que os alertas meteorológicos estão chegando muito próximo da ocorrência de geadas, porque as massas de ar polar, que são as responsáveis pela queda de temperatura, estão chegando rapidamente ao País. “Independente da cultura, os prejuízos são certos para o produtor, que investiu em mudas, adubação e controle de pragas e doenças. No caso de culturas perenes, como a cana-de-açúcar, são dois anos para produzir de novo”, afirma. (CC)

Juliano Maset registrou temperaturas inferiores a 2 graus em Monte Aprazível
A cana perde a qualidade, como as plantas do produtor Alexandre Pinto César
 
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