AgroDiário

Falta de chuvas e seca prejudicam plantio na região de Rio Preto

Especialistas em agropecuária orientam o plantio de culturas de grãos com maior volume de chuvas; risco climático pode pressionar os preços dos alimentos em 2022, afirmam economistas

por Cristina Cais
Publicado em 01/10/2021 às 23:54Atualizado em 02/10/2021 às 07:41
Grande parte dos produtores prefere não arriscar o plantio da soja (foto) e de outros grãos fora da janela de plantio (Flickr/CNA)
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Grande parte dos produtores prefere não arriscar o plantio da soja (foto) e de outros grãos fora da janela de plantio (Flickr/CNA)
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O produtor rural Osmair Guareschi está assustado com a seca intensa que atinge a região Noroeste Paulista, considerada a maior dos últimos 91 anos em todo o País. Ele aguarda a chuva para iniciar o plantio de 3,5 mil hectares de soja em propriedades da região de Rio Preto e Votuporanga. “Acompanho há 37 anos os índices de volume de chuva, entre janeiro e dezembro, e nunca vi uma seca tão severa como a que estamos vivendo neste ano”.

A falta de chuva é uma das maiores preocupações dos agricultores, principalmente com a soja, já que o mês de setembro é considerado a janela ideal para o plantio da cultura. De acordo com especialistas, os produtores já estão com os insumos - que tiveram investimentos maiores nesta safra - prontos para o plantio, mas a chuva ainda não foi suficiente para plantar a soja.

Angélica Prela Pantano, pesquisadora em Agrometeorologia do Instituto Agronômico (IAC), diz que a orientação aos produtores rurais é aguardar a chuva, prevista para a segunda quinzena deste mês na região Sudeste. “Os modelos de previsão de chuva indicam que os produtores devem aguardar um volume maior. Até agora tivermos chuvas muito irregulares e em volume não indicado para o plantio de algumas culturas, como é o caso da soja”, afirma.

Grande parte dos produtores, de acordo com a pesquisadora, prefere não arriscar o plantio da soja e de outros grãos fora da janela de plantio. “Se o produtor plantar e a chuva chegar em menor volume ocorre o que chamamos de plantio no pó, porque o solo está muito seco. Se chove um pouco após o plantio e depois não há mais chuva, a planta não germina, resultando na perda da plantação”.

O produtor rural Osmair Guareschi na plantação de soja onde utiliza pivô central de irrigação (Arquivo pessoal)
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O produtor rural Osmair Guareschi na plantação de soja onde utiliza pivô central de irrigação (Arquivo pessoal)

Para janeiro de 2022, Angélica diz que apesar de ainda não se ter uma previsão mais apurada sobre o volume de chuvas, o mês mais chuvoso do ano pode ocorrer com pouca precipitação. É outro alerta de risco climático, considerando que os grãos como soja e milho plantados em outubro e novembro podem chegar ao momento de preenchimento dos grãos sem a ocorrência de chuva no início do próximo ano.

Nas lavouras de Guareschi, o plantio da soja ainda deve aguardar chuvas mais regulares. Ele também pretende manter o mesmo cultivo de soja das safras passadas, sem expansão de áreas. “Não quero arriscar a ampliação de área e conforme avaliação do clima, é possível até diminuir o plantio de soja e de milho neste ano”.

A situação climática brasileira está afetando todo o agronegócio, na avaliação de Osmair, apesar dos preços elevados das commodities comercializados no mercado internacional. “Os insumos e fertilizantes estão altíssimos, a margem de lucratividade do produtor vai diminuir. Além disso, tem o problema com a crise hídrica, que já interfere na irrigação. Temos dois pivôs de irrigação que tiveram que ser desligados por falta de água”, destaca o produtor.

Risco de mais altas de preços

O cenário de risco climático no campo deve pressionar o preço dos alimentos ainda mais para o ano que vem. A expectativa com a inflação de alimentos para 2022, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, deve ser de 8,71%, já incluindo o risco climático das produções nas lavouras.

“É claro que o problema climático reduz a produtividade no campo, há redução ainda de produtos que são commodities e consequentemente, os preços dos alimentos se elevam para o consumidor”, avalia o pesquisador em Economia e Gestão do Agronegócio da Unesp, de Ilha Solteira, Omar Sabbag. Ele considera ainda que desde o ano passado o Brasil está enfrentando três importantes crises: a sanitária, com a pandemia do coronavírus, além da econômica e política, que se prolongaram em 2021.

Todas essas crises devem pressionar os preços dos alimentos, já que a projeção da inflação extrapolou a previsão do Banco Central, prevista a princípio para 4% e chegou a 8%. “Para o produtor, os insumos estão mais caros, aumenta-se o custo de produção e consequentemente, o custo é repassado para o consumidor”.

Na observação do economista Ary Ramos, há perspectivas preocupantes com relação ao risco climático no campo, que tende a gerar uma pressão sobre os preços dos alimentos no ano que vem. “Há a projeção muito forte de inflação para o próximo ano, com o governo adotando uma política mais restritiva, aumentando a taxa de juros, o que diminui o crédito e reduz o investimento em toda cadeia produtiva brasileira”. (CC)

Produtores contratam mais seguro

Produtor rural Carlos Missiagia afirmou que o seguro é importante para garantir os prejuízos (Arquivo pessoal)
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Produtor rural Carlos Missiagia afirmou que o seguro é importante para garantir os prejuízos (Arquivo pessoal)

A insegurança com a falta de chuva e com a estiagem prolongada resultou na maior procura por seguro rural. Em levantamento da Brasilseg, seguradora controlada pelo Banco do Brasil, o seguro rural voltou a crescer no País para a cobertura de lavouras. A previsão de contratação do seguro rural é de aumento entre 9% e 15% neste ano. Em 2020, o aumento foi de 22,7%.

O clima é o principal fator de risco para a produção rural e, ao contratar o seguro, o produtor pode minimizar suas perdas ao recuperar o capital investido.

De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Plano Safra 2021/22 prevê R$ 1 bilhão para a subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, com a contratação de aproximadamente 158.500 apólices para proteger 10,7 milhões de hectares e um valor total segurado de R$ 55,4 bilhões.

O produtor rural Carlos Missiagia afirmou que o seguro é importante para garantir os prejuízos causados pelas adversidades climáticas. Ele contratou o serviço para aa plantação de 50 hectares de soja no ano passado. “Esse ano ainda não sei quando vamos iniciar o plantio, por causa da chuva que ainda não garantiu a semeadura da soja”.

Ele diz também que são muitos requisitos que as seguradoras exigem, mas acredita que com a instabilidade climática, o seguro ainda é bom negócio. Entretanto, para esta safra ainda não decidiu em função dos atrasos de plantio. (CC)