Falta de chuvas e seca prejudicam plantio na região de Rio Preto
Especialistas em agropecuária orientam o plantio de culturas de grãos com maior volume de chuvas; risco climático pode pressionar os preços dos alimentos em 2022, afirmam economistas

O produtor rural Osmair Guareschi está assustado com a seca intensa que atinge a região Noroeste Paulista, considerada a maior dos últimos 91 anos em todo o País. Ele aguarda a chuva para iniciar o plantio de 3,5 mil hectares de soja em propriedades da região de Rio Preto e Votuporanga. “Acompanho há 37 anos os índices de volume de chuva, entre janeiro e dezembro, e nunca vi uma seca tão severa como a que estamos vivendo neste ano”.
A falta de chuva é uma das maiores preocupações dos agricultores, principalmente com a soja, já que o mês de setembro é considerado a janela ideal para o plantio da cultura. De acordo com especialistas, os produtores já estão com os insumos - que tiveram investimentos maiores nesta safra - prontos para o plantio, mas a chuva ainda não foi suficiente para plantar a soja.
Angélica Prela Pantano, pesquisadora em Agrometeorologia do Instituto Agronômico (IAC), diz que a orientação aos produtores rurais é aguardar a chuva, prevista para a segunda quinzena deste mês na região Sudeste. “Os modelos de previsão de chuva indicam que os produtores devem aguardar um volume maior. Até agora tivermos chuvas muito irregulares e em volume não indicado para o plantio de algumas culturas, como é o caso da soja”, afirma.
Grande parte dos produtores, de acordo com a pesquisadora, prefere não arriscar o plantio da soja e de outros grãos fora da janela de plantio. “Se o produtor plantar e a chuva chegar em menor volume ocorre o que chamamos de plantio no pó, porque o solo está muito seco. Se chove um pouco após o plantio e depois não há mais chuva, a planta não germina, resultando na perda da plantação”.

Para janeiro de 2022, Angélica diz que apesar de ainda não se ter uma previsão mais apurada sobre o volume de chuvas, o mês mais chuvoso do ano pode ocorrer com pouca precipitação. É outro alerta de risco climático, considerando que os grãos como soja e milho plantados em outubro e novembro podem chegar ao momento de preenchimento dos grãos sem a ocorrência de chuva no início do próximo ano.
Nas lavouras de Guareschi, o plantio da soja ainda deve aguardar chuvas mais regulares. Ele também pretende manter o mesmo cultivo de soja das safras passadas, sem expansão de áreas. “Não quero arriscar a ampliação de área e conforme avaliação do clima, é possível até diminuir o plantio de soja e de milho neste ano”.
A situação climática brasileira está afetando todo o agronegócio, na avaliação de Osmair, apesar dos preços elevados das commodities comercializados no mercado internacional. “Os insumos e fertilizantes estão altíssimos, a margem de lucratividade do produtor vai diminuir. Além disso, tem o problema com a crise hídrica, que já interfere na irrigação. Temos dois pivôs de irrigação que tiveram que ser desligados por falta de água”, destaca o produtor.
Risco de mais altas de preços
O cenário de risco climático no campo deve pressionar o preço dos alimentos ainda mais para o ano que vem. A expectativa com a inflação de alimentos para 2022, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, deve ser de 8,71%, já incluindo o risco climático das produções nas lavouras.
“É claro que o problema climático reduz a produtividade no campo, há redução ainda de produtos que são commodities e consequentemente, os preços dos alimentos se elevam para o consumidor”, avalia o pesquisador em Economia e Gestão do Agronegócio da Unesp, de Ilha Solteira, Omar Sabbag. Ele considera ainda que desde o ano passado o Brasil está enfrentando três importantes crises: a sanitária, com a pandemia do coronavírus, além da econômica e política, que se prolongaram em 2021.
Todas essas crises devem pressionar os preços dos alimentos, já que a projeção da inflação extrapolou a previsão do Banco Central, prevista a princípio para 4% e chegou a 8%. “Para o produtor, os insumos estão mais caros, aumenta-se o custo de produção e consequentemente, o custo é repassado para o consumidor”.
Na observação do economista Ary Ramos, há perspectivas preocupantes com relação ao risco climático no campo, que tende a gerar uma pressão sobre os preços dos alimentos no ano que vem. “Há a projeção muito forte de inflação para o próximo ano, com o governo adotando uma política mais restritiva, aumentando a taxa de juros, o que diminui o crédito e reduz o investimento em toda cadeia produtiva brasileira”. (CC)
Produtores contratam mais seguro

A insegurança com a falta de chuva e com a estiagem prolongada resultou na maior procura por seguro rural. Em levantamento da Brasilseg, seguradora controlada pelo Banco do Brasil, o seguro rural voltou a crescer no País para a cobertura de lavouras. A previsão de contratação do seguro rural é de aumento entre 9% e 15% neste ano. Em 2020, o aumento foi de 22,7%.
O clima é o principal fator de risco para a produção rural e, ao contratar o seguro, o produtor pode minimizar suas perdas ao recuperar o capital investido.
De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Plano Safra 2021/22 prevê R$ 1 bilhão para a subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, com a contratação de aproximadamente 158.500 apólices para proteger 10,7 milhões de hectares e um valor total segurado de R$ 55,4 bilhões.
O produtor rural Carlos Missiagia afirmou que o seguro é importante para garantir os prejuízos causados pelas adversidades climáticas. Ele contratou o serviço para aa plantação de 50 hectares de soja no ano passado. “Esse ano ainda não sei quando vamos iniciar o plantio, por causa da chuva que ainda não garantiu a semeadura da soja”.
Ele diz também que são muitos requisitos que as seguradoras exigem, mas acredita que com a instabilidade climática, o seguro ainda é bom negócio. Entretanto, para esta safra ainda não decidiu em função dos atrasos de plantio. (CC)