Excesso de borracha preocupa setor nesta safra
Seringueiras estão com boa produtividade na região Noroeste, porém a oferta de borracha tem sido maior do que a demanda, especialmente das indústrias de pneus

As regiões de Rio Preto e Votuporanga concentram a principal produção de seringueiras do País e iniciaram a safra 2025-2026 com uma preocupação: o destino da borracha produzida no campo. O maior desafio para os produtores não está na cadeia produtiva e nem no preço da commodity, que está registrando alta na Bolsa de Valores de Singapura, mas a questão envolve o elevado número de pneus importados comercializado no País.
Com a maior importação de pneus- a principal demanda da borracha produzida nos seringais da região- os produtores veem a oferta maior da borracha e os elevados estoques das usinas de beneficiamento ameaçar a safra de seringueira nesta temporada.
“Levamos a questão para o governo, mas o que vemos é uma enxurrada de pneus importados entrando no País e sufocando a produção nacional. O governo federal não toma nenhuma providência para proteger uma cadeia produtiva tão grande e forte como é a da borracha natural no Brasil”, afirma o diretor-executivo da Associação Paulista dos Produtores e Beneficiadores de Borracha Natural (Apabor), Fábio Tonus.
Dados da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip) apontam que a produção da borracha no País já respondeu por 70% da demanda do mercado há dois anos. Mas atualmente, no último levantamento de 2025, as indústrias estão comprando apenas 34% da borracha brasileira e optando pelo produto importado da China, que chega ao Brasil com preço mais baixo.
Imposto
O produtor e presidente da Apabor, Fábio Magrini, explica que a situação é de muita preocupação na safra deste ano, que ainda está no início e deverá atingiu a maior produção a partir do mês de março. “A borracha importada chega ao Brasil, dos países da Ásia, com preços muito mais baixos e as pneumáticas acabam comprando também os pneus importados, compensa para a indústria, mesmo com a cobrança de imposto de 25% do pneu para carros de passeio”.
Fábio comentou ainda que países como os Estados Unidos e o México elevaram os impostos de importação da borracha para 35%, recentemente. “Se não tivermos interferências dos governos estadual e federal, vai sobrar borracha no campo nesta safra”, pontua.
Pela primeira vez no cenário da produção nacional de borracha natural, o agrônomo e produtor Gilson Pinheiro considera que essa temporada deverá atingir uma produção maior do que o consumo do látex. “O problema não é que aumentamos o número de seringais, mas diminuiu o consumo da borracha no País. Essa a grande preocupação do setor, a sobra de borracha nesta safra por conta da importação de pneus que tem comprometido a indústria brasileira”, ressaltou.
Aumento de 9%
Segundo levantamento de Previsões e Estimativas de Safra do estado, elaborado pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA), a safra paulista de 2024-2025 da seringueira registrou produção total de 266,2 mil toneladas de coágulo de látex, volume 8,6% superior ao do ciclo anterior, e rendimento médio de 2,375 mil quilos por hectare. A área total com os seringais expandiu-se 3,1%, totalizando 123,7 mil hectares.
Apesar de ter origem amazônica, atualmente 60% da borracha natural brasileira é produzida nos seringais do estado de São Paulo, conforme dados do IEA. As maiores produções se concentram nas regiões norte e noroeste do estado, tendo como as principais regionais São José do Rio Preto (31%), General Salgado (15,1%) e Votuporanga (13%).
Na região Noroeste, produtores contam que as seringueiras vêm se desenvolvendo bem e a produção tem boas perspectivas no campo. “Ainda é cedo para fazermos uma avaliação de aumento de produtividade, mas podemos estimar crescimento de 10%, com as chuvas que estão irregulares ainda, mas que contribuem com a safra”, diz Fábio Magrini.
A avaliação de Fábio Tonus também sinaliza a safra deste ano com a expectativa de vigor dos seringais. “A safra está com boas perspectivas, tem chovido na região e os seringais estão todos equipados, com pessoal contratado e sem problemas no campo”, diz Tonus.
Porém, para Tonus o problema maior está na cadeia produtiva. “As indústrias pneumáticas reduziram a capacidade de produção, inclusive com o fechamento de duas delas que fabricam pneus. É um momento muito diferente de tudo que a produção de seringueiras já presenciou”.
Estoques nas usinas
A região de Rio Preto, além de concentrar as maiores áreas de seringueiras, responde ainda pelo maior número de usinas de beneficiamento da borracha natural, que são responsáveis pelo envio do produto para as indústrias de pneus e do mercado leve (solados de calçados, preservativos, elásticos e outros). Nesta safra, as usinas já avaliam a falta de demanda do látex para as indústrias.
Renato Arantes, da usina Noroeste Borracha, localizada em Urupês, disse que nesta safra, pela primeira vez, a empresa já começa a temporada com estoque de borracha. Ele afirma que a maior dificuldade está no mercado, muito valorizado pela cotação da commodity, mas com consumo muito baixo da borracha no Brasil.
“O consumo da borracha pela indústria nacional caiu muito, por conta da maior competição com o pneu importado. Por isso nós já estamos iniciando a safra em 2026 com estoque e perspectiva de vendas bem reduzidas e isso tende a uma pressão maior de preços porque teremos uma oferta muito maior de coágulo”, afirmou Renato.