SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SÁBADO, 16 DE OUTUBRO DE 2021
AgroDiário

Devido à crise hídrica, frutos de laranja estão menores na safra atual

Fundecitrus estima redução de 26 milhões de caixas de laranja nesta safra na comparação com levantamento realizado em maio; frutos menores impactaram a produção em 2021

Cristina Cais
Publicado em 18/09/2021 às 01:20Atualizado em 22/09/2021 às 16:18
A seca implacável provocou alta queda dos frutos (Divulgação/Fundecitrus)

A seca implacável provocou alta queda dos frutos (Divulgação/Fundecitrus)

A mais grave crise hídrica que ocorre no Brasil nos últimos 91 anos atingiu com força os pomares de laranja do cinturão citrícola paulista, principal produtor mundial da fruta. Citricultores tiveram problemas com a falta de chuvas no final do ano passado, o que resultou no atraso do florescimento das árvores. Com isso, a colheita que ainda está em andamento, impactada pela seca e pela geada, apresentou frutos de laranja menores.

Segundo o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), na primeira reestimativa realizada neste mês, a safra de laranja 2021/22 do cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro deve atingir 267,87 milhões de caixas. Em comparação ao levantamento de maio, de 294,17 milhões de caixas, a redução é de 26,30 milhões de caixas (9% menor).

O levantamento ainda revelou que as laranjas estão excessivamente miúdas e que a queda prematura de frutos atinge um de seus maiores índices. Para o coordenador da Pesquisa de Estimativa de Safra (PES) do Fundecitrus, Vinícius Trombin, “a seca foi implacável no cinturão citrícola nesta safra, provocando a alta queda dos frutos, além de combinação do impacto climático entre seca e geada, que trouxe maior fragilidade às laranjas nos pés”.

A projeção apresentada é semelhante à safra passada, com uma colheita de 268,63 milhões de caixas, apesar da carga de frutos atual ser 12,5% maior devido à bienalidade positiva.

A bienalidade positiva, segundo Trombin, ocorre quando os laranjais atingem maiores reservas energéticas em determinado ano e no outro diminui. Para este ano, ele esperava uma safra mais positiva.

“Mesmo com o aumento de 12,5% de produtividade, os frutos não cresceram e a safra também não foi maior”, disse Trombin. Ele acrescentou que a colheita ocorre de forma mais lenta, com múltiplas floradas, o que pode acarretar em maiores custos para o produtor.

Maior seca

A principal causa de queda da safra da laranja, na avaliação do Fundecitrus, é a piora no regime de chuvas. O levantamento apontou ainda que os volumes abaixo da média já eram previstos, porém o déficit hídrico foi muito mais drástico e afetou todas as regiões com pomares de laranja. Sem chuvas significativas há cerca de cinco meses, as regiões do Noroeste Paulista têm os menores volumes de chuva acumulada no período de maio a agosto de 2021, com 16 milímetros, em Rio Preto (-87% em relação à média histórica), e 27 milímetros, em Votuporanga (-78%).

A escassez de chuva impactou ainda mais os pomares de sequeiro, que são os que não possuem o sistema de irrigação. Segundo Trombin, até mesmo os pomares irrigados, que abrangem mais de 30% da área total do cinturão citrícola, foram atingidos pela longa estiagem. “A expectativa do citricultor é grande com as chuvas previstas para os próximos dias e que devem impulsionar a safra da laranja em 2022”, conclui.

Redução no tamanho

A colheita da laranja de 2021 ainda foi impulsionada pela menor média dos últimos cinco anos, com relação ao tamanho dos frutos. De acordo com a estimativa do Fundecitrus, o tamanho médio projetado dos frutos passa de 259 para 283 frutos por caixa, peso de 144,2 gramas cada, 14,7% menor do que as das últimas cinco safras (média de 169 gramas). Para os produtores rurais, o cenário com uma colheita de frutos menores é muito ruim, já que se tem a necessidade de uma quantidade maior de laranjas para preencher a caixa (de 40,8 kg), comercializada no mercado.

O produtor rural José Claudio Ruiz, de Rio Preto, avalia que a falta de chuvas e o menor tamanho da laranja colhida até o momento contribuíram para a redução da safra nesta temporada. Em 400 hectares, José Claudio possui 200 mil pés de laranjas. “São frutos menores, então o trabalho é maior, com mais frutas sendo destinadas por cada caixa colhida”.

Duas situações, segundo José Claudio, foram impactantes para a safra de laranja deste ano: a estiagem prolongada e a geada que atingiu a região no mês de julho. O produtor explica que as chuvas, no final do ano passado, chegaram tarde, o que provocou o florescimento tardio das laranjeiras. “Não tive maiores problemas pelo fato de ter irrigação nos pomares, mas a produtividade diminuiu. Também pude observar que muitos produtores tiveram a morte de pomares, o que coloca em risco os estoques de produção da laranja para o mercado”. (CC)

Atenção a pragas

O engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural e Sustentável (CDRS-Cati), de Catanduva, Claudio Giusti de Souza, diz que o clima adverso, com a falta de chuvas e a baixa umidade do ar, poderá provocar o aparecimento de pragas e doenças nos pomares. “As árvores perdem muitas folhas com o clima mais seco, o que influencia na floração e no pegamento da laranja. O produtor deve ficar atento, porque esse fator pode provocar o aparecimento de doenças, sendo necessário o manejo com o uso de defensivos”, disse Claudio.

Segundo Claudio, o clima mais seco pode ser propício para o aparecimento de ácaros nas laranjeiras. “A temperatura alta faz a planta entrar em estresse hídrico, e isso pode prejudicar a produtividade dos pomares”, orientando que o produtor sempre monitore os pomares.

Outro alerta é direcionado aos incêndios, que ocorrem com muita frequência nesta época do ano na região. “Muitas vezes os produtores podem fazer a limpeza nos talhões, deixando alguma palhada. Se houver incêndio próximo aos pomares, os pés de laranja podem ser atingidos”. (CC)

Clima e custos impactam na produção

Na produção de 20 hectares, com 9,0 mil plantas de laranja, em Paraíso, o produtor Valentin Donizete Joaquim ressalta que a combinação entre impacto no clima e alta nos custos dos insumos resultou em queda na produção. “Aguardávamos a bienalidade positiva, mas com a seca e a geada na nossa região não tivemos bons resultados”.

Valentin também colheu frutos menores, o que ele atribuiu à falta de chuvas. “Com as altas temperaturas nos meses de outubro e novembro do ano passado, não há o pegamento dos frutos, o que também causa a queda das laranjas”. O produtor diz ainda que previa colher 300 frutos por caixa, mas a média ficou em 180 por conta dos frutos bem menores nesta safra.

Em propriedade de José Bonifácio, o citricultor Rodrigo Barato possui produção de 150 mil árvores de laranja e considerou muito ruim a safra deste ano. “Está praticamente impossível cultivar laranja neste clima adverso. Acredito em queda entre 30% a 40% para a safra da laranja”, afirmou o produtor. Mesmo com o sistema de irrigação nas plantações, Rodrigo disse que os níveis de água que abastecem a sua propriedade estão muito baixos, o que fez com que ele não acionasse a irrigação nos últimos dias. (CC)

Principal causa de redução da safra da laranja é a piora no regime de chuvas
 
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