Cota da China pressiona mercado da pecuária de corte
Na análise de pecuaristas e especialistas da região de Rio Preto, a arroba do boi vem caindo com o esgotamento da cota para exportar carne bovina ao país asiático

Na última semana, o mercado da pecuária de corte entrou em uma nova fase de competitividade mundial. Diante desse cenário, os preços da arroba do boi gordo estão em queda no mês de junho, mesmo com estoques globais de carne bovina nos menores níveis desde 2006. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), as baixas estão relacionadas ao ritmo das exportações para a China.
Dados do governo chinês apontam que o Brasil já cumpriu 65% da cota de vendas da carne bovina ao país asiático até maio. De acordo com a avaliação de pesquisadores do Cepea, isso indica que o Brasil deve cumprir a totalidade da cota até julho. O estudo destaca ainda que a proteína brasileira pode levar até 60 dias para chegar à China.
Neste contexto, frigoríficos que exportam a carne bovina para a China estão diminuindo o ritmo de compras de animais para abate. Além disso, há ainda nesta maior competitividade de mercado global, a medida da União Europeia de não importar carne bovina brasileira por questões de sanidade animal, sendo o Brasil advertido sobre o uso de antibióticos nos bovinos. Essa medida da UE tem prazo que expira em setembro.
“Agora estamos em uma fase de escassez de boi, o que demonstra que não resolve essa queda na exportação, mas não termos a oferta de animal. Pode até ocorrer que em julho, se realmente a China cumprir essa cota, a arroba do boi pode cair bastante e chegar ao valor de R$ 320. Mas ainda tenho dúvida se realmente os chineses vão ficar muito tempo sem a carne bovina brasileira, já que os Estados Unidos, por exemplo, não têm produto disponível”, avaliou o zootecnista e consultor em pecuária de corte, Maurício Lerro, de Rio Preto.
Abates
O aumento nos abates de bovinos no Brasil vem ocorrendo nos últimos três anos, sendo que esse movimento reflete na reposição de fêmeas e bezerros, resultado que impulsiona a maior valorização dos preços da pecuária de corte. Além disso, os frigoríficos diminuem as escalas de abates, enquanto os pecuaristas confinam os animais.
O pecuarista Augusto Cavalin explica que os abates nos frigoríficos estão com escalas não muito disponíveis para receber os animais. “Com os abates que vão para períodos de 15 a 20 dias nos frigoríficos, a arroba do boi acaba sendo pressionada. Percebemos que caiu um pouco o preço, mas acredito que isso será por pouco tempo”, afirmou Augusto.
Na avaliação do pecuarista de Rio Preto, Osmair Guareschi, a reposição de animais ficou muito valorizada para a pecuária de carne bovina. “Nunca tivemos valores tão altos nos bezerros, que chegam a uma valorização de até 30% em comparação com o boi pronto para o abate. Mas mesmo assim não acredito no mercado desfavorável para o Brasil ou que irá faltar carne bovina, porque temos o maior rebanho mundial da pecuária”.
Clima e pastagens
No campo, o período chuvoso em época considerada de seca na região, está favorecendo o estoque de alimentos para a pecuária bovina. Esse cenário contribui ainda para que as margens de lucro do pecuarista não fiquem tão apertadas com a disponibilidade de pastagem e ração para o gado, o que ocorreu nas safras anteriores.
“A chuva deixa a pastagem um pouco mais verde, apesar de que o capim entra em dormência nesta época do ano, com a falta de luminosidade. Porém, ainda é melhor do que o capim ficar muito seco, como ocorre com a falta de chuva”, explicou a médica veterinária, Fabiana Sabino.
Ela comentou ainda que os estoques de alimentos para os animais nas fazendas estão favorecendo também os produtores. “Com mais alimento disponível, como a oferta de capim, o pecuarista pode economizar mais na compra de ração”, afirmou Fabiana.
Exportações em alta
As exportações brasileiras de carne bovina registraram 297 mil toneladas em maio de 2026, volume 17,8% superior ao registrado no mesmo mês do ano passado, sendo que a China manteve a liderança dos destinos neste período. Os dados são da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e mostram que o Brasil é o principal fornecedor da proteína ao país asiático.
Em 2026, a China instituiu cotas de importação e uma sobretaxa de até 55% sobre o excedente de carne bovina, medida que pode impactar as exportações brasileiras e gerar reflexos no mercado do boi brasileiro. A expectativa é que a cota de 1,1 milhão de toneladas com tarifa de 12% seja preenchida até julho. Após esse prazo, as vendas brasileiras que ultrapassarem o limite terão imposto extra de 55%.
De acordo com o presidente da Abiec, Roberto Perosa, a diversificação de mercados segue como a principal estratégia para reduzir a dependência de um único destino e ampliar a segurança comercial das exportações brasileiras.
“Quanto mais mercados estiverem habilitados para receber a carne bovina brasileira, maior será a capacidade de direcionar os diferentes cortes aos destinos mais adequados, reduzindo riscos comerciais, aumentando a competitividade do setor e mitigando os impactos de medidas como a salvaguarda chinesa”, pontuou.
Na observação do pecuarista Osmair Guareschi, a qualidade da carne brasileira é totalmente aprovada por todos os órgãos de inspeção sanitária e reconhecida mundialmente para o consumo de milhares de pessoas. “A questão da China e de países da União Europeia é mais comercial, sendo que esses mercados não são autossuficientes para a produção bovina como o Brasil”.