AGRODIÁRIO

Chocolate com gostinho de interior

Amêndoas produzidas em Nova Granada foram utilizadas na fabricação das primeiras barras de chocolate com 60% de cacau; projeto Cacau SP foi criado em Rio Preto e se tornou política pública

por Cristina Cais
Publicado em 03/12/2022 às 21:47Atualizado em 03/12/2022 às 21:49
Fruto do cacau usado para a produção do chocolate artesanal (Divulgação)
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Fruto do cacau usado para a produção do chocolate artesanal (Divulgação)
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O cacau produzido na região Noroeste Paulista rendeu a primeira fabricação artesanal de um chocolate 60% de sabor intenso, de uma área com a plantação em propriedade de Nova Granada. “É uma área experimental, cedida para a produção de cacau, mas é uma satisfação muito grande ter a primeira fabricação do chocolate. Se temos um produto final na mão, temos a certeza que é possível produzir cacau na região”, afirma o produtor Paulo Sader, proprietário da fazenda em Nova Granada, de onde foram produzidas as primeiras amêndoas, as matérias-primas para a fabricação do chocolate.

Dentro do projeto Cacau SP, a região de Rio Preto investiu em seis unidades tecnológicas, uma experiência inédita para a produção de matéria-prima do chocolate. Entre as unidades experimentais, o produtor Paulo Sader cedeu uma área de 10 hectares para a plantação de árvores de cacaueiros.

Para a adaptação da cultura do cacau e com a grande produção de seringueiras no Noroeste Paulista, profissionais da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo, buscaram as tecnologias desenvolvidas no estado baiano (principal polo produtor de cacau do País) para os agricultores da região. As plantações foram intensificadas então, para adequar ao clima seco da região, com o cultivo do cacau em consórcio com as seringueiras e as bananeiras.

“Apesar de não ser a minha especialidade em termos de cultura, porque tenho mais experiência em cana-de-açúcar, seringueira e laranja, apoiei totalmente o projeto do cacau”, diz Sader. Ele pontua que, além da área experimental em que está o cacau em sua propriedade, a ideia é de investimentos na produção cacaueira. “A cultura se adaptou bem na região e começou a produzir o cacau após três anos de plantio. É viável, ainda mais agora que vimos a qualidade do chocolate que saiu deste fruto, então tenho interesse em produzir o cacau também”.

Mais tecnologia

Produtores e trabalhadores das fazendas que plantaram o cacau na região Noroeste estão recebendo cursos e tecnologia para o manejo dos novos plantios das árvores. “A ideia é apresentar as técnicas na prática porque entendemos que o projeto Cacau SP tem um potencial enorme para ser desenvolvido na região. E nós temos mostrado as vantagens da cultura e as práticas para o manejo do cacau”, destaca Fioravante Stucchi Neto, agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), de Rio Preto, e um dos responsáveis pelo projeto na região.

Neto conta ainda que as amêndoas da primeira safra do cacau produzido na região foram processadas com um equipamento adquirido pela empresa Cargill (parceira do projeto). A fabricação do chocolate, segundo o agrônomo, foi apresentada aos produtores e convidados, durante um curso de pós-colheita e processamento do cacau, em Mendonça.

Mais de 400 hectares cultivados

O chef Dú Barbosa e o produtor rural Paulo Sader (Divulgação)
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O chef Dú Barbosa e o produtor rural Paulo Sader (Divulgação)

Produtores da região do Noroeste Paulista já plantaram mais de 200 hectares de cacau em áreas consorciadas com seringueiras e bananeiras. Ao todo são 400 hectares de área de cacau - 200 hectares foram plantados no Vale do Ribeira -, desde 2019. A partir disso, o projeto Cacau SP ganhou área apta ao plantio da cultura, conforme descreve o Zoneamento para Plantio de Cacau no Estado de São Paulo, estabelecido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

De acordo com o engenheiro agrônomo Andrey Vetorelli, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo, foram implantadas seis unidades experimentais, localizadas nos municípios de Monte Aprazível, Adolfo, Nova Granada, Ipiguá e duas em Rio Preto, com as tecnologias disponíveis para o manejo do cacau no Noroeste Paulista.

“O projeto, que se tornou uma política pública, conta ainda com a parceria entre a Fundação Cargill, a Associação Comercial e Industrial de Rio Preto (Acirp) e o apoio da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão do Mapa”, diz o agrônomo. Recentemente, Andrey explica que uma área também foi destinada para a pesquisa, com consórcio de cacau entre plantios de árvores de mogno-africano e bananeiras.

Para o produtor Norival Puglieri, o plantio de cacau na propriedade de Novais chegou numa época de pouca lucratividade com a seringueira. “Foi um investimento - de 5.500 mudas de cacau, em consórcio com a seringueira e a banana - acertado”, diz Puglieri, ao comentar ainda que enquanto não há a colheita do cacau, ele tem rentabilidade com a banana. (CC)

Chef produziu chocolate

Cacau em consórcio com seringueiras (Divulgação)
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Cacau em consórcio com seringueiras (Divulgação)

Dú Barbosa, chef de cozinha, afirma que tem preferência e habilidade para a produção de alimentos de fabricação natural. Ele produz pães de fermentação natural e cervejas artesanais. Com o chocolate, ele afirma que teve uma oportunidade única: a de fabricar um chocolate com produção do cacau, própria da região.

O chef conta que para produzir um chocolate com 60% de cacau, sem nenhuma adição de outro produto artificial, levou 50 horas para todo o processamento da amêndoa à produção final da guloseima. “O resultado ficou incrível e agradou o paladar dos convidados, tanto dos que gostam de um chocolate mais adocicado como para os que gostam do chocolate amargo”, ressalta.

Para produzir o chocolate 60% de cacau intenso, Dú aproveitou todos os ingredientes do próprio cacau, que resultou na fabricação de 1,6 kg de chocolate. “O processamento começou no moinho melanger (um equipamento próprio para processar o chocolate) e aproveitamos 1,2 kg das amêndoas. Dessas amêndoas, retiramos ainda os nibs, que são pequenos grãos derivados do cacau, para chegar ao produto final de um chocolate intenso”. (CC)