AgroDiário

Alta nos insumos deixa produtores de soja em alerta

Levantamento feito pelo Cepea aponta que produtores ainda não disponibilizaram recursos para a compra de insumos; no Noroeste paulista, mercado é acompanhado dia a dia antes da compra de fertilizantes

por Cristina Cais
Publicado em 09/01/2023 às 22:35Atualizado em 10/01/2023 às 08:38
Preço dos insumos agrícolas pode influenciar a safra da soja (Divulgação/Wenderson Araújo/Trilux)
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Preço dos insumos agrícolas pode influenciar a safra da soja (Divulgação/Wenderson Araújo/Trilux)
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Os produtores de grãos ainda não avançaram na compra de insumos, especialmente dos fertilizantes e que devem dar início aos plantios de soja, milho, entre outros, na safra 2023-2024. As incertezas estão relacionadas com as sucessivas altas dos preços dos produtos nos últimos dois anos.

De acordo com levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-USP), os preços dos adubos foram os que mais impactaram o poder de compra dos agricultores brasileiros. A alta do custo dos fertilizantes foi registrada durante o período de janeiro de 2021 a julho de 2022.

O estudo avalia que a produção agrícola brasileira vem sendo afetada pelas altas cotações dos fertilizantes, com a valorização da matéria-prima produzida no Leste Europeu que é severamente impactada pela guerra entre Rússia e Ucrânia.

Apesar de no mês de agosto de 2022 os preços começarem a enfraquecer, o Cepea explica que os produtos mantinham preços significativos. Com este contexto, o agricultor não conseguiu se antecipar na compra dos insumos, em especial os de nutrição de plantas, segundo avalia os pesquisadores.

No Noroeste paulista, o planejamento para a compra de fertilizantes ainda é incerta e os agricultores preferem não antecipar a aquisição dos insumos, aguardando as novas políticas econômicas do país. Eles destacam que os preços destes itens tiveram uma leve queda no segundo semestre de 2022, mas não o suficiente para impactar o planejamento.

Custo altíssimo

“O custo com a produção da soja, principalmente com fertilizantes e defensivos, foi altíssimo na safra que se iniciou no ano passado. Além do mais, o preço da saca que vinha se mantendo em R$ 200 (60 quilos), teve uma queda e chegou a ser negociada por R$ 160”, comenta o produtor Carlos Missiagia, de José Bonifácio.

No plantio de 250 hectares de soja, Carlos conta que costuma usar um fertilizante protegido com fósforo e nitrogênio, que encarece ainda mais o custo com a adubação da lavoura. “Enquanto uma tonelada de um fertilizante sem esse material custa R$ 5 mil, o que eu uso na lavoura é bem mais caro, custa em torno de R$ 7 mil a tonelada”.

Nos planos do produtor, que afirma usar 300 quilos do fertilizante por hectare de soja plantada, ainda não há perspectiva para a cotação de preços com os insumos deste ano. “Para a safrinha do milho, alguns produtores já começam a se preparar. Mas como não vou plantar milho, ainda não fiz uma pesquisa de preços. Ainda estou vendo como vai ficar a política e a economia do País”, afirma Carlos.

Especialista orienta

Segundo o engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) da Secretaria de Agricultura do estado de São Paulo na região de Rio Preto, Andrey Vetorelli Borges, uma dica importante para o produtor com a adubação de grãos, é usar o produto de forma correta, sem desperdício do produto.

“É muito importante fazer uma análise de solo, quando o produtor consegue dimensionar a forma correta do uso de fertilizante”, diz o agrônomo.

Andrey explica ainda que muitas vezes o produtor utiliza sempre a mesma quantidade de adubo todo ano e não se preocupa com a correção de solo.

“Esse é um erro que o produtor comete, porque a análise de solo não é cara, um custo de R$ 40. E com a análise, o agricultor consegue determinar qual a quantidade e o adubo correto, evitando o desperdício e aumentando a produtividade do plantio”, comenta.

Algumas tecnologias para o uso de fertilizantes também são interessantes para o agricultor. Andrey explica que são adubos protegidos e que fazem uma liberação de um determinado produto de forma mais lenta. “Mesmo que tenha uma chuva pesada, o produtor não perde a adubação com essa tecnologia usada no fertilizante”, finaliza. (CC)

Safra traz ânimo a produtores

Reginaldo Massuia Fonseca aguarda até o último momento para comprar fertilizantes (Arquivo Pessoal)
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Reginaldo Massuia Fonseca aguarda até o último momento para comprar fertilizantes (Arquivo Pessoal)

O plantio da soja da safra 2022/2023 deve trazer uma colheita mais produtiva, com relação ao clima. Para o produtor Reginaldo Massuia da Fonseca, de Nhandeara, “o plantio começou bem, apesar do veranico de novembro em que se cogitou perder produtividade”.

Ele afirma que a chuva ajudou bastante e a colheita, prevista para os próximos 30 dias, deve ser melhor do que a de anos anteriores, quando a estiagem prolongada prejudicou muito a soja. No entanto, Reginaldo lembra que os custos com os insumos continuam altos em 2023, e o preço pago pela saca de 60 quilos da soja ao produtor, recuou em relação ao ano passado.

“Só resta saber se vai ter uma queda de preços dos fertilizantes, acompanhando os preços da soja e do milho”. Reginaldo disse ainda que deve começar a comprar o adubo mais para frente, entre os meses de abril ou maio.

Em Santa Adélia, o produtor Marcelo Arruda diz que não sentiu tanto o impacto dos preços dos fertilizantes, no ano passado, porque conseguiu estocar um pouco do produto.

“Com a movimentação que teve na safra passada, com a guerra do Leste Europeu e a possibilidade de falta insumo, muitos produtores anteciparam a compra”, diz.

Marcelo explica que isso fez com que muitas pessoas perdessem dinheiro. Neste ano, ele diz que vai esperar para realizar a compra, e assim, não perder dinheiro como aconteceu com alguns produtores.

“Quem comprou muito antes, perdeu dinheiro porque depois, no segundo semestre do ano passado, os preços dos fertilizantes tiveram uma queda”, afirma.

O produtor plantou 160 hectares de soja e está animado com a produção desta safra, que teve pouca intempérie de clima para prejudicar a produtividade da lavoura.

“A perspectiva é boa para a safra 2022-2023, e os preços não estão ruins. Já até negociei algumas sacas de soja, que ainda serão colhidas”, completa. Em relação à safra 2023/2024, Marcelo não arrisca fazer uma previsão e prefere aguardar para cotar os insumos que serão usados no plantio da soja e de outros grãos. (CC)