AgroDiário

Produção de abacate na região de Rio Preto deve sofrer com efeitos do clima

Geadas reduziram produtividade do abacate em 2021 e safra, que se inicia no próximo mês, aponta para volumes menores da fruta nos pomares da região

por Cristina Cais
Publicado em 22/01/2022 às 03:30Atualizado em 22/01/2022 às 09:21
Olímpia e Catanduva concentram as maiores produções de abacates tropicais e avocados (a variedade hass, desenvolvida nos Estados Unidos) (Pixabay)
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Olímpia e Catanduva concentram as maiores produções de abacates tropicais e avocados (a variedade hass, desenvolvida nos Estados Unidos) (Pixabay)
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O clima complicou a vida dos produtores de abacate e avocado, que fizeram investimentos nos últimos anos e estão com dificuldades de manter a produção da fruta nos pomares do Noroeste Paulista. No ano passado, três episódios de geadas diminuíram a produtividade dos abacateiros e muitos fruticultores perderam árvores ou ainda estão avaliando os danos causados para a safra 2022-2023.

Segundo dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA-Apta), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, a perspectiva atual é de uma redução de cerca de 10% na produtividade do abacate em todo o estado paulista. O levantamento, realizado em novembro de 2021, aponta para intenção de produção de 172.302 toneladas, sendo que na safra passada foram 189.585 toneladas de abacates produzidos.

Produtores de Olímpia e da região de Catanduva, onde se concentram as maiores produções de abacates tropicais e avocados (a variedade hass, desenvolvida nos Estados Unidos), avaliam prejuízos maiores, com perda de produtividade entre 50% e 60%. “Estamos com anos muito atípicos para o cultivo do abacate, na região, e não está fácil acertar o manejo com a fruta no pomar”, explica o produtor Agnaldo Franco.

Em 24 hectares de pomares da fruta, em Olímpia, Agnaldo avalia ainda os danos causados pelas geadas nos meses de julho e agosto do ano passado, quando precisou erradicar 2 mil pés de abacate. “Fazemos de tudo para entender melhor a produção da cultura na nossa região, com todos os tratos culturais, como irrigação e o menor uso de defensivos químicos. Mas o clima ideal, com a maior umidade do ar para o abacate, ainda não temos na nossa região.”

Há uma década, um grupo de fruticultores de Olímpia vem produzindo o abacate, principalmente o avocado, com comercialização direcionada para a exportação. Agnaldo possui 5 mil pés de avocado, um fruto menor (pesa entre 200 e 800 gramas, de casca verde escura) e que é muito consumido por países como o Canadá e da União Europeia. Ele conta que as plantas de avocado exigem cuidado maior, se comparado com os abacates tropicais.

Produção média

As variedades de abacate - os tropicais ou de quintal, como são conhecidos - mais comuns nos pomares brasileiros são geada, fortuna, breda e quintal. Paulo César Faioto se dedicou ao plantio de abacates das variedades tropicais e do avocado, com um total de 2,5 mil árvores, na propriedade, em Olímpia. E as dificuldades encontradas nesta safra também foram impulsionadas pelas adversidades climáticas.

“Tivemos poucas chuvas, principalmente em 2020, e depois, no ano passado, a geada atingiu bastante os pés de abacate. Mas ainda podemos considerar uma safra de produção média, mesmo com uma quebra de produção entre 50% e 60%”, afirma Paulo. A exportação ainda está prevista para quando ocorrer a colheita do avocado, que se estende de maio a junho. Neste período, o mercado de exportação se abre mais para os produtores da região, contribuindo para a lucratividade com a produção da fruta.

Paulo acrescenta que nesta época, de maior oferta de abacate tropical, os preços estão menos atrativos para o produtor. Segundo ele, os preços do abacate, da variedade geada, custam em média R$ 3 o quilo, e os avocados, entre R$ 5 e R$ 7. Mas alerta: “Ainda não sabemos como vai se comportar o mercado, tendo em vista o baixo poder aquisitivo da população e a pandemia, dificultando inclusive a exportação”.

Avocado exige mais técnica

O Estado de São Paulo é o maior produtor de abacate, de acordo com o levantamento do IBGE, sendo que em 2020, a produção brasileira totalizou um volume de 266.784 toneladas da fruta. Nas orientações técnicas aos produtores, a variedade de abacate hass (avocado) exige um maior desempenho técnico, conforme o engenheiro agrônomo José Luiz Bonatti, da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), de Mogi Mirim.

“A produção de avocado é mais difícil no manejo, possui uma copa muito fechada, exigindo mais do produtor com a poda e habilidade para a colheita, além de ser mais suscetível às pragas e doenças. Por outro lado, a lucratividade com o avocado é maior, tem grande mercado exportador”, diz Bonatti.

O consumo do avocado, segundo Bonatti, também é maior em outros países e está muito relacionado com a aparência da fruta. “Por ser de menor tamanho e com casca de cor mais escura, o consumidor brasileiro fica mais resistente, dando preferência para o abacate de cor verde intensa e de tamanho maior. Já a população europeia prefere o avocado”.

Na recomendação do agrônomo, o produtor deve estar preparado para uma mão-de-obra especializada, que exige colheita manual do abacate e ainda ficar atento aos cuidados com doenças e fungos, como ácaros e a verrugose, que podem infestar as árvores na época da florada. E complementa que, com a geada ocorrida no ano passado, muitos abacateiros foram comprometidos, exigindo um monitoramento do fruticultor, já que as plantas podem demorar, em média, dois anos para novas frutificações. (CC)

Muda forte e árvore precoce

A cada nova safra, fruticultores têm procurado por mudas de abacate com qualidade e que produzam com ciclos menores, encurtando o tempo entre o plantio e a fase adulta do abacateiro. Os viveiros, hoje, contêm mudas com a sanidade exigida para o bom desenvolvimento da produção da fruta e a demanda tem crescido.

O produtor rural e proprietário do viveiro Vivena Mudas, de Santa Adélia, Eloy Colombo, explica que muitas mudas de abacate eram produzidas no solo, o que pode comprometer a sanidade das árvores, como o aparecimento de doenças. “Hoje fazemos o processo de enxertia, similar ao processo de mudas de laranja. E ainda, conseguimos um ciclo menor da árvore, que antes demorava até cinco anos para ter frutos. Atualmente temos um ciclo menor, de dois anos do abacateiro.”

No viveiro, Eloy mantém uma produção anual de 70 mil mudas de abacate, das variedades tropicais e de avocado. A demanda é alta pelas mudas, e muitos produtores estão investindo em pomares da fruta. “É mais uma opção na fruticultura, que o produtor pode investir com um custo não muito alto”, diz.

Eloy também possui produção de abacates, com 3 mil plantas de avocado, e vem apostando, mais recentemente, no cultivo da fruta. “Os preços são bons, apesar das dificuldades do clima, mas por outro lado, o avocado tem demanda mundial, que favorece a lucratividade com a produção”. (CC)