SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEGUNDA-FEIRA, 26 DE JULHO DE 2021
CIDADES

Crise hídrica afeta turismo, agronegócio e pesca na região de Rio Preto

Rio Grande fica "pequeno" na pior crise hídrica dos últimos anos no Brasil. Bacia do Paraná já sente efeitos da seca no turismo, no agronegócio e na vida de quem vive da pesca

Rone CarvalhoPublicado em 10/07/2021 às 18:20Atualizado há 12/07/2021 às 15:27
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Nível do rio Grande, entre Icém e Fronteira (MG), está baixo: volume do reservatório da usina está em 10% (Guilherme Baffi 14/5/2021)

De pé sobre a terra avermelhada, o aposentado Guilherme Antônio de Souza, de 71 anos, dá a dimensão da crise hídrica no rio Grande: "Há dois anos, onde estamos hoje era o fundo do rio. Para você ter uma ideia a gente não conseguia ficar de pé nesse local".

Seu Guilherme é um dos 11 mil guaracienses que já estão sentindo direta ou indiretamente os impactos da crise hídrica na região, seja através do turismo, do agronegócio ou da pesca. É como se o rio conhecido por ser "grande" ficasse "pequeno" com a falta de chuvas nos últimos meses no Noroeste Paulista.

"Eu tenho um comércio que vende espetinhos, salgados e refrigerantes. Nos últimos meses a situação só está piorando. No passado vinham muitos turistas, agora nada. O pessoal vai onde tem água, sem contar a pandemia que piora ainda mais a situação", falou o comerciante.

Para quem vive da pesca como Meriluci Nascimento dos Santos, 58 anos, nem nos mais terríveis sonhos era possível imaginar uma fase tão difícil. Acostumada a pegar, em média, de 50 a 80 quilos de pescados por dia, nos últimos meses o máximo que a família de pescadores tem conseguido fisgar é 10 quilos. "Isso quando é um dia muito bom. Hoje mesmo voltei sem nada".

O freezer que já ficou carregado de peixes que eram revendidos para o comércio local tem cada vez mais concedido espaço para o gelo. "Pra quem vive da pesca é difícil. Tem muitos pescadores que estão largando o rio e fazendo bico como pedreiro. A gente ainda tenta tirar nossa refeição do rio, mas está complicado", contou Meriluci.

Para o marido dela, Antônio Rodrigues dos Santos, 60 anos, a situação lembra a vivenciada no sertão da Bahia. "Já pesquei muito no rio São Francisco até virmos para São Paulo. A situação está feia, mas sempre digo que graças a Deus estamos bem de saúde", enalteceu.

A seca no rio Grande pode ser notada de diversas formas. Seja nos troncos antes cobertos pela água, mas que agora aparecem totalmente. Seja pela distância dos ranchos para às margens do rio, que também diminuiu. Se antes era possível sair de casa e andar cem metros para chegar ao Grande, agora, com a seca, é preciso percorrer aproximadamente um quilômetro.

Até mesmo as casas flutuantes também conhecidas como batelões - tablados de madeira que boiam - não estão mais sendo utilizados. "Gosto de pescar por diversão, mas está complicado fisgar peixe. Fazia tempo que não via uma situação dessa", falou o trabalhador rural Carlos Humberto.

Com apenas 10,9% de sua capacidade de armazenamento de energia, o reservatório da Usina de Marimbondo, localizada entre Icém e Fronteira (MG), é um retrato da crise hídrica que assusta o país. Operando com a menor capacidade do Brasil, ele já tem obrigado o governo federal a adotar medidas emergenciais para evitar um possível apagão.

E a situação do rio Grande, em Guaraci, é reflexo disso. Segundo o diretor de turismo da cidade, Cedmar Bernardo, a prefeitura trabalha em tratativas com órgãos federais para que usinas hidrelétricas de Minas Gerais liberem as comportas para que a situação não seja ainda pior. "Estamos fazendo o máximo para alavancar o turismo e ajudar as famílias".

Acostumado a visitar o rio Grande com a esposa e o filho, Eleandro Talha Ferro, 40 anos, diz que a situação é triste. "No passado, a gente não via essas ilhas no meio do rio. É triste ver o rio assim". A esposa dele, Tânia Marisa Vieira Armesto, 60 anos, completa. "Há 20 dias estava ainda mais baixo".

Outras cidades

Além de Guaraci, outras cidades da região também já sentem os reflexos da crise hídrica. Em Indiaporã, no braço do rio Grande, no ribeirão Pádua Diniz, a água desceu tanto nos últimos meses que já mostra a velha estrada de terra até então coberta.

"Essa situação tem ficado cada vez pior nos últimos meses. A gente sentia na época da seca que o rio não estava mais conseguindo voltar a sua cota máxima, mas agora é abaixo da média histórica", afirmou o chefe do departamento do meio ambiente de Indiaporã, Heidson Bruno Neves.

O trecho do rio Grande que corta Indiaporã e Ouroeste funciona como reservatório da Usina Hidrelétrica de Água Vermelha, que opera com uma das piores capacidades do país (16%). A usina é a última das 12 hidrelétricas do rio Grande e funciona como termômetro da situação hidrológica da região Sudeste.

"Com a pandemia, a situação fica ainda mais difícil. Para evitar a disseminação da doença, optamos por deixar prainhas e clubes fechados", disse a secretária de turismo de Ouroeste, Selma Maria da Silva Gomes.

Já em Rubinéia, o receio dos moradores é que as ruínas da antiga cidade coberta pela água após a construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira voltem a aparecer. "Por enquanto, apareceu a parte da antiga máquina de arroz de Rubinéia, mas a gente espera que não voltemos a 2014, quando vivemos um período crítico e apareceu a estrutura da antiga estação de trem", contou o secretário de turismo, Evandro Rogério Santos.

Na época, quando a região também vivia uma crise hídrica, a falta de chuva e a consequente baixa do volume de água do rio Paraná trouxeram à tona as ruínas da antiga Rubinéia, inundada em 1973, após a construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira. Restos de construções que ficaram no fundo do rio reapareceram, atraindo visitantes e trazendo lembranças de uma cidade que literalmente precisou trocar de lugar.

"Perdemos cem metros de água nas margens do rio e, segundo o pessoal da hidrelétrica de Ilha Solteira, a expectativa é que nos próximos dias o rio possa ter uma baixa de 40 centímetros. Situação que dificulta muito a situação do turismo, mas também de quem vive da piscicultura", finalizou Evandro.

Risco de apagão

Por mais que o assunto ainda não seja pauta oficial do governo federal, especialistas em hidrologia são categóricos em dizer que, caso o segundo semestre de 2021 seja similar ao de 2020, ou seja, com chuvas abaixo da média na Bacia da Paraná, existe sim o risco de apagão no Brasil.

"É muito cedo para dizer que vai haver desabastecimento de energia elétrica. O que pode acontecer é que se houver uma estação chuvosa, de novembro a abril, similar à que tivemos no ano passado, com poucas chuvas, em 2022 podemos, sim, enfrentar uma crise energética", falou o vice-presidente da Academia Nacional de Engenharia, Flávio Miguez de Mello.

Atualmente, 60% da energia produzida no país é proveniente de hidrelétricas que dependem diretamente da água para o seu funcionamento. O restante da energia vem de usinas termelétricas (25%), eólicas (12%), nuclear (3%) e solar (1%).

A situação dos reservatórios de hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste, que respondem por mais metade da capacidade de geração de energia no Brasil é o que mais preocupa. Isso porque o volume de chuva registrado é o menor dos últimos 91 anos, sendo que alguns reservatórios já operam com capacidade próxima do registrado em 2001, quando o Brasil passou um racionamento de energia.

Para Flávio, é necessário repensar as restrições existentes para as hidrelétricas brasileiras, como forma de enfrentar a crise do setor. "O sistema hidrelétrico sofre uma série de restrições de operações que foram instituídas para uma época de hidrologia normal, estamos em uma época de hidrologia muito ruim. Consequentemente, essas regras de operação têm que ser mudadas".

Em consequência, com baixo nível das hidrelétricas e o crescente uso das termoelétricas, as tarifas de energia tendem a ficar cada vez mais caras. "Os reajustes batem na cadeia produtiva e se estendem ao consumidor, que é quem compra carne no açougue e o arroz e feijão no mercado, e fica com a conta final. A crise hídrica deve ser observada com atenção pelas autoridades e medidas deverão ser tomadas, como a revisão das altas taxas de energia, por exemplo, para não causar o encarecimento dos alimentos", completou o presidente da Faesp, Fábio de Salles Meirelles. (RC)

Represas já secam e preocupam agricultores

Agricultores da região também já sentem os impactos da seca. Em algumas cidades do Noroeste Paulista, represas secaram, obrigando cultivadores a procurarem outras formas para irrigar as plantações e matar a sede do gado.

"Pra gente da área não é só a questão do rio. Observamos que muitos proprietários estão tendo problema porque represas estão secando, inclusive já tivemos casos na região de Indiaporã de poços subterrâneos, em que sempre foi possível tirar água para uso doméstico, que agora não está dando mais. A crise está muito além do que observamos", pontuou o chefe do departamento de meio ambiente de Indiaporã, Heidson Bruno Neves.

Segundo o engenheiro agrônomo e professor da Unesp de Ilha Solteira, Fernando Tangerino, nos quatro primeiros meses deste ano choveu 44% a menos do que o esperado para a região. "Essa situação de déficit hídrico antecipado exige investimentos em sistemas de irrigação como meio de garantir a sustentabilidade do negócio de produzir alimentos e energia e também de planejamento mais recorrente em estruturas de armazenamento e conservação da água na bacia hidrográfica, incluindo técnicas de manejo da água a ser aplicada, segundo a real demanda das diferentes culturas".

Um levantamento da Rede Agrometeorológica do Noroeste Paulista, operado pela Unesp de Ilha Solteira, mostra que, no ano passado, a região bateu recorde de dias sem chuva. O índice foi registrado em Populina, que ficou 182 dias sem nenhum pingo de água dos céus. O último recorde pluviométrico negativo da região havia sido registrado em 2010, quando Ilha Solteira ficou 177 dias sem chuva.

"Nesta região do Estado de São Paulo, assim como em muitas outras, as chuvas, se já não seriam regulares ou bem distribuídas ao longo do ano, estão cada vez mais escassas, no volume e na distribuição da frequência", destacou Tangerino.

Segundo o professor, a Rede Agrometeorológica do Noroeste Paulista aponta um volume histórico de 1.196 mm anuais. "Em 2019, choveu 1.041 mm (-13%). Em 2020, a chuva radicalizou e, na média da região, somou apenas 731 mm, ou seja, menos 39% do esperado, comprometendo não somente a produtividade das lavouras de sequeiro, mas a recomposição do lençol freático e dos reservatórios de água para os diferentes usos, incluindo o abastecimento dos sistemas de irrigação, que serão muito comprometidos no segundo semestre de 2021", alertou.

Um estudo da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) avalia que, caso medidas não sejam tomadas, haverá impactos negativos na economia e no segmento rural, com a possibilidade de quebra de safras e alta no preço de alimentos. "O avanço da crise hídrica e o aumento na conta de energia acenderam novo alerta para os agricultores paulistas", disse o presidente da Faesp, Fábio de Salles Meirelles. (RC)

Tania Marisa Vieira Armesto, 60 anos, em pescaria no rio Grande, em Guaraci (Johnny Torres)
Carlos Humberto, trabalhador rural: "fazia tempos que não via uma situação dessas" (Johnny Torres)
Barcos antes submersos voltaram a aparecer (Johnny Torres)
Imagens mostram o impacto da seca no rio Grande em Guaraci (Johnny Torres)
Ponte de terra entre Indiaporã e Mira Estrela voltou a aparecer
Casal de pescadores Meriluci Santos e Antonio dos Santos mostrando o freezer vazio (Johnny Torres)
Vila de pescadores na cidade de Guaraci, que tem 11 mil habitantes (Johnny Torres)
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