A escalada das recuperações judiciais no agro e o custo dela chegar tarde demais
Alta recorde de recuperações judiciais expõe fragilidades estruturais do agronegócio e reforça a urgência de reestruturações preventivas antes que a crise se torne irreversível

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O agronegócio brasileiro atravessa um momento de tensão que já não pode mais ser explicado apenas por clima ou ciclo de preços. A combinação de eventos climáticos extremos, crédito caro, volatilidade de mercado e fragilidades estruturais antigas começou a cobrar um preço alto, sobretudo de grupos maiores, mais alavancados e com estruturas societárias pouco organizadas.
Depois de 2024 registrar o maior volume de recuperações judiciais desde 2006, o ano de 2025 acelerou esse movimento e levou o problema para dentro do agro, um setor historicamente tratado como sinônimo de resiliência. Segundo dados da Serasa Experian, o 3º trimestre de 2025 somou um total de 628 requisições, maior número desde 2021.
O dado relevante não está apenas no número de pedidos, mas no perfil das empresas que agora entram em dificuldade: grupos relevantes, com operações complexas, múltiplas fazendas, holdings, CPFs e CNPJs misturados e decisões que já não admitem adiamento.
Nesse contexto, tempo deixou de ser um detalhe operacional e passou a ser um fator crítico de sobrevivência. A recuperação judicial normalmente é o último capítulo de um problema que poderia ter sido enfrentado antes, com menos custo e mais opções.
Além de restringir crédito e afetar a reputação, a RJ consome o tempo da liderança, reduz a autonomia dos sócios e, em muitos casos, destrói valor. O que começa a ganhar força no setor, ainda que de forma silenciosa, é um movimento para evitar esse desfecho. Antes da judicialização, empresas têm buscado renegociações privadas com credores estratégicos, reestruturações financeiras, reorganizações societárias e ajustes de governança. São decisões difíceis, que exigem diagnóstico independente, informação confiável e, sobretudo, disposição para enfrentar problemas que ficaram anos fora do radar.
Do ponto de vista dos credores, o alerta é igualmente claro. Uma vez protocolada a recuperação judicial, execuções são suspensas, os créditos entram em planos longos, com deságios relevantes, e a previsibilidade de recebimento despenca. A RJ desloca o controle da relação para o processo judicial. Antecipar-se permite mapear patrimônio, entender grupos econômicos, priorizar garantias e tomar decisões com base em dados, nunca sob pressão.
Esse novo ambiente tem ampliado a demanda por análises técnicas e preventivas no agro: auditorias independentes, diagnósticos financeiros, patrimoniais e societários, revisões de governança e controles internos. O objetivo é simples, embora nada trivial: ganhar tempo, reduzir perdas e ampliar alternativas antes que a judicialização se imponha como único caminho.
A experiência recente mostra que os problemas raramente têm uma causa isolada. Eles surgem da soma de fluxos de caixa desalinhados com o ciclo da safra, passivos tributários pouco visíveis, confusão entre patrimônio pessoal e empresarial, estruturas societárias informais e contingências trabalhistas acumuladas ao longo do tempo. Quando esses fatores convergem, a recuperação judicial deixa de ser uma escolha e passa a ser consequência.
Pressionado por múltiplas frentes, o agronegócio brasileiro começa a trocar improviso por método. Entender esse movimento ainda discreto, mas cada vez mais relevante, ajuda a explicar por que no agro, agir cedo deixou de ser prudência, mas sim uma condição de permanência.
Por Luiz Cláudio Fontes, sócio de Auditoria da RSM no Brasil
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