QUANDO A MADERIA VIRA ARTE

Centro Cultural Sesi Rio Preto recebe 'Tapicuru', instalação criada especialmente para o local

Obra inédita de Maurício Adinolfi transforma o espaço expositivo em uma travessia poética entre embarcações, aves, rios e memória

por Salomão Boaventura
Publicado em 14/07/2026 às 21:39Atualizado em 15/07/2026 às 14:40
Centro Cultural Sesi Rio Preto recebe “Tapicuru”, obra inédita de Maurício Adinolfi que une rios, memória e natureza (Divulgação)
Galeria
Centro Cultural Sesi Rio Preto recebe “Tapicuru”, obra inédita de Maurício Adinolfi que une rios, memória e natureza (Divulgação)
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A partir desta quarta-feira, 15, no foyer do Centro Cultural Sesi Rio Preto, madeira, ferro, luz e vazios se unem para formar um corpo que lembra, ao mesmo tempo, uma embarcação, a ossatura de uma baleia e uma arquitetura em movimento.

Em “Tapicuru”, instalação inédita criada pelo artista plástico Maurício Adinolfi exclusivamente para o local, a travessia deixa de ser apenas física e passa a percorrer a memória, a paisagem e a relação entre o ser humano e a natureza.

A visitação ocorre de quarta-feira a sábado, das 10h às 20h, e aos domingos e feriados, das 10h às 19h. A entrada é gratuita.

OBRA

A origem de “Tapicuru” ocorreu durante a pesquisa que Adinolfi realizou sobre Rio Preto. Foi nesse processo que o artista encontrou a ave que dá nome à instalação.

Segundo ele, a presença do tapicuru serviu como elo entre sua trajetória artística, profundamente ligada ao litoral, e a paisagem rio-pretense.

O artista conta que já havia observado a espécie na Baixada Santista e, durante sua pesquisa, descobriu que a ave passou a ser vista com maior frequência em outras regiões durante a pandemia, movimento que associa ao período de menor circulação de pessoas nas cidades.

“Eu sou um artista que tem relação direta com o mar, sou natural de Santos, e tenho como pesquisa as embarcações e as questões ambientais que envolvem a Mata Atlântica e o litoral do Brasil. Então foi a chave de ligação que me trouxe a adentrar mais no trabalho e na pesquisa sobre a cidade de São José do Rio Preto”, afirma.

Inspirada na carpintaria naval, a instalação reúne madeira e ferro em uma estrutura formada por quilha, cavernas e proa. A composição evoca simultaneamente embarcações tradicionais, a ossatura de uma baleia e elementos arquitetônicos, enquanto aves estilizadas parecem sobrevoar a estrutura, ampliando a ideia de deslocamento, resistência e transformação.

Diálogo

A referência às embarcações não surgiu apenas como solução formal. Segundo Adinolfi, sua produção artística há mais de duas décadas é construída a partir da pesquisa com carpinteiros navais e das técnicas tradicionais de construção de barcos de madeira.

Ao aproximar essa herança cultural das aves e da paisagem natural, Adinolfi diz propor uma reflexão sobre a relação entre o ser humano, a natureza e as formas de construção da cultura.

A criação também dialoga com os rios Preto, Tietê e Grande, além do Aquífero Guarani, buscando estabelecer conexões entre a história da cidade, a ocupação do território e a importância da água para a formação da região.

Segundo o artista, a instalação utiliza exclusivamente madeiras reaproveitadas.

“Essas madeiras têm uma consistência, uma presença e um caráter muito forte, porque são madeiras com uma longa história, que foram utilizadas durante muitos anos. Elas são madeiras reutilizadas, certificadas, de outras construções, então é uma madeira que vem de e carrega já uma história”, completa o artista.

A construção da obra contou com a colaboração de marceneiros e carpinteiros da marcenaria da Faculdade Santa Marcelina, responsáveis pela execução da estrutura concebida pelo artista. “Eles foram grandes profissionais na construção de parte da estrutura dessa instalação”, diz Adinolfi.

REFLEXÃO

Mais do que observar a obra, o artista espera que o visitante a experimente com o próprio corpo, percebendo a presença da madeira, os volumes, os vazios e a delicadeza das aves suspensas sobre a estrutura.

“Que essa experiência seja de uma surpresa, talvez também de um encontro com algo da natureza”, resume.

Ao final do percurso, Adinolfi diz esperar que a instalação desperte uma percepção mais ampla da relação entre as pessoas e o ambiente.

“A reflexão é de que nós somos a própria natureza. É impossível pensar sobre meio ambiente com separação. Toda a matéria trabalhada nessa obra está de alguma forma tentando reformular o entendimento sobre a vida e a nossa existência com tudo que a gente cria e recria, consome e sobrevive a partir dessa relação com todas as vidas e todas as manifestações da existência, da natureza em si”, conclui o artista.​​​​​​​

Espaço Galeria

A obra integra a edição especial do projeto Espaço Galeria, do SESI-SP, que neste ano apresenta instalações inéditas concebidas especificamente para seis Centros Culturais da instituição no Estado. Em vez de transportar trabalhos já existentes, os artistas foram convidados a desenvolver obras capazes de dialogar diretamente com a arquitetura e a identidade de cada cidade.

“Desde 2013, o SESI-SP realiza o projeto Espaço Galeria, que contempla exposições de artes visuais e propicia a circulação de obras originais. Ao mesmo tempo, amplia o acesso do público a experiências culturais gratuitas e de qualidade. Neste ano, a iniciativa ganha uma versão especial, a Edição Site-Specific, com obras inéditas criadas especialmente para cada espaço expositivo. A escolha curatorial por esse conceito torna cada mostra exclusiva e proporciona uma experiência mais próxima, envolvente e significativa para o público”, explica Larissa Lanza, analista de Atividades Culturais do SESI-SP.

No Centro Cultural Sesi Sorocaba, Adrianna Eu apresenta “Um olhar para o mundo”, uma instalação construída com milhares de metros de linhas vermelhas e oitenta óculos antigos suspensos entre o teto e o chão, criando uma imersão na subjetividade humana.

Em Itapetininga, Laura Vinci assina “Folhas Avulsas”, composta por 154 folhas fotografadas, modeladas em 3D e banhadas a ouro, suspensas por correntes metálicas que transformam o espaço em um ambiente de leveza e contemplação.

Já em Campinas, a instalação “Uma história fóssil” apresenta uma torre de aço que faz circular continuamente água salgada coletada no mar de Santos, propondo uma reflexão sobre oceanos, indústria, economia e meio ambiente.

Em São José dos Campos, Laura Gorski apresenta “MaréMorada”, enquanto Marcelo Armani leva para Ribeirão Preto a instalação “TRANS(OBRE)POR”, que investiga a relação entre som, imagem e cidade. (SB)