Peça ‘A Última Sessão de Freud’ será apresentada no mês de maio em Rio Preto
Espetáculo com Odilon Wagner e Marcello Airoldi encena encontro fictício entre Freud e C.S. Lewis e discute fé, ciência e sentido da vida

Entre a razão e a fé, o embate não se resolve — mas ganha forma, voz e presença no palco. É nesse território de tensão que “A Última Sessão de Freud”, do dramaturgo Mark St. Germain, encontra sua força ao propor um encontro imaginário entre dois dos maiores pensadores do século 20.
O espetáculo, um dos sucessos recentes do teatro brasileiro, chega a São José do Rio Preto para apresentações no Teatro Municipal Humberto Sinibaldi, nos dias 29, 30 e 31 de maio de 2026. Os ingressos estão disponíveis no site www.freud.art.br por valores de R$ 25 a R$ 140.
Em cartaz há quatro anos, a montagem dirigida por Elias Andreato já foi assistida por mais de 170 mil pessoas e soma cerca de 370 apresentações em turnês pelo País. No palco, Odilon Wagner — indicado aos prêmios Shell, APCA e Bibi Ferreira pelo papel — interpreta Sigmund Freud, enquanto Marcello Airoldi dá vida ao escritor britânico C.S. Lewis.
A peça parte de um encontro fictício entre os dois intelectuais, ambientado na Inglaterra em 1939, no momento em que o País ingressa na Segunda Guerra Mundial. No consultório de Freud, os personagens travam um debate intenso sobre a existência de Deus, mas o diálogo rapidamente se expande para temas como sentido da vida, natureza humana, sexo, morte e relações humanas.
Freud, conhecido por sua crítica à religião, tenta compreender a conversão de Lewis, que abandonou o ateísmo para se tornar um defensor da fé cristã. A discussão, no entanto, não se limita a posições opostas. Ao contrário: o texto constrói um jogo de ideias em que ironia, humor e tensão caminham lado a lado.
“Essa peça é um elogio ao diálogo, tão necessário em nossos tempos. Saio do teatro todos os dias mais convicto que podemos e devemos conviver pacificamente com aqueles que pensam diferente de nós”, afirma Odilon Wagner.
Baseado no livro “Deus em Questão”, do psiquiatra Armand M. Nicholi Jr., o texto de St. Germain aposta na palavra como elemento central. Essa escolha é reforçada pela direção de Andreato, que constrói a encenação priorizando o embate verbal e a escuta.
“A peça mostra um embate de ideias. Isso é uma armadilha, e eu não queria que o espetáculo se transformasse em um debate. Por isso, pelo bem da ação dramática, situei o encontro entre Freud e Lewis no dia em que a Inglaterra ingressou na Segunda Guerra Mundial. Então, são dois homens no limite, sabendo que Hitler poderia bombardear Londres a qualquer minuto”, explica o autor.
O cenário, assinado por Fábio Namatame, recria o consultório onde Freud desenvolvia seus estudos, período em que vivia exilado após fugir da perseguição nazista na Áustria. A ambientação contribui para intensificar o clima de urgência e tensão que atravessa toda a peça.
Para o diretor, o espetáculo encontra eco no presente justamente por tratar de divergências profundas sem abrir mão do diálogo.
“O espetáculo dialoga com o público de maneira sensível e direta. Seu sucesso nasce da atualidade do tema e da urgência em discutir questões profundas e delicadas que atravessam o nosso cotidiano, especialmente em um Brasil cada vez mais dividido. O teatro mostra, mais uma vez, ser o veículo ideal para falar da violência com poesia, reflexão e escuta, abrindo caminhos para a transformação”, afirma.
Ao longo das apresentações, a montagem também tem provocado debates fora do palco, em encontros com o público e em universidades. Para Wagner, a experiência segue atual e necessária.
“Tem sido uma das experiências mais fascinantes de minha carreira, é um privilégio poder representar uma personagem tão potente como Freud, um dos grandes pensadores do século XX. Nesses últimos quatro anos em que estivemos em cartaz, já rodamos o país três vezes e repetiremos a turnê em 2026. A reação do público, sempre tão entusiasmada, e os encontros e debates que tivemos nos teatros e nas universidades me enriqueceram muito e trouxeram a confirmação da atualidade do pensamento Freudiano em nosso século. O espetáculo estimula a nossa reflexão sobre a necessidade de praticarmos uma cultura de paz, nos provoca a exercer nossa humanidade com mais fervor e atenção, para que não se repita a história deletéria da segunda guerra mundial, vivenciada por Freud.”
Marcello Airoldi também destaca o interesse do público por discussões mais densas, mesmo em tempos de consumo rápido de conteúdo.
“Teatro nunca é feito de facilidades e não há fórmulas para o sucesso de um projeto, mas quando este acontece, saltam aos olhos detalhes que evidenciam a existência de cuidados especiais, seja na produção, direção ou qualquer outro aspecto técnico do espetáculo. Num mundo dominado por algoritmos da superficialidade, é maravilhoso encontrar plateias sedentas pelo bom debate, humor de qualidade, poesia e pela história de bons personagens como estes, que a dramaturgia juntou na mesma página.”