Zé Celso quer remontar a peça Roda Viva
Diretor do Teatro Oficina destacou que as duas peças são importantes para refletir sobre o turbulento momento político e social do Brasil
Depois de trazer de volta aos palcos O Rei da Vela (1967), uma das mais importantes peças da trajetória do Teatro Oficina Uzyna Uzona, de São Paulo, o diretor Zé Celso Martinez Corrêa quer resgatar outro espetáculo marcante de sua carreira artística, Roda Viva (1968), primeiro texto escrito pelo cantor e compositor Chico Buarque. É dele a direção da histórica montagem do Rio de Janeiro no período da ditadura militar, que contou em seu elenco com nomes como Marieta Severo, Heleno Prestes e Antônio Pedro.
Remontar Roda Viva, assim como o fez com O Rei da Vela, peça teatral escrita pelo poeta Oswald de Andrade em 1937, não representa para Zé Celso a comemoração de um cinquentenário. São obras importantes para refletir sobre o turbulento momento político e social do Brasil.
"Não é por razão comemorativa. É mais que isso, é ativa. Parece que esse impeachment foi dado para que montássemos O Rei da Vela. A peça é extremamente de hoje porque ela é exatamente de uma época que se identifica com essa", comentou o fundador do Teatro Oficina durante entrevista exclusiva ao Diário da Região no final da tarde de sexta-feira, 25, antes de um ensaio de O Rei da Vela no Teatro Municipal Humberto Sinibaldi Neto, em Rio Preto, onde o espetáculo teve duas apresentações neste fim de semana.
"Roda Viva faz parte desse mesmo organismo que é O Rei da Vela. É um organismo vivo, que dura 50 anos e pode durar milênios até. Ele transcende à sua época porque é poesia", disse. "O teatro é filho do tempo. A arte é a coisa mais próxima do tempo, mais que a internet ou a televisão. Os atores trazem em si esse tempo cosmopolítico, esse tempo inconsciente até, que está no inconsciente das pessoas", acrescentou.
No mês passado, Zé Celso recebeu o sinal verde de Chico Buarque para remontar Roda Viva. O projeto prevê até nomes do elenco original e música inédita escrita pelo compositor carioca. Mas, o maior obstáculo é a falta de recursos financeiros. "Todo esse caos provocado por esse golpe, estão comparando com a Venezuela (risos). Realmente, é a destruição de tudo. Mas, para mim, é Estado Árabe, é pior que a Venezuela, porque as pessoas quiseram massacrar a cultura. Se não fosse o Sesc, não haveria teatro em São Paulo", desabafou.
No entanto, ele defende a importância que o teatro, assim como as artes em geral, tem em momentos de crise. "Neste momento, após esse golpe dado por lacaios das grandes fortunas, das grandes heranças, a arte passa a ter um sentido absolutamente cosmopolítico. Se ficamos apenas no social, não incorporamos as coisas concretas, que é a terra que pisamos, o ar que respiramos... O teatro, que é a coisa mais desprezada do mundo, passa a ter uma importância enorme porque é encontro de gente. O artista não é ele mesmo, é o povo dele. O lugar que ele está é o aqui e agora", disse.
Segundo Zé Celso, o momento pede atenção das pessoas. "As pessoas estão ainda nessa coisa careta de esquerda e direita. O momento pede transmutação. Não é uma questão só social, é de defender o planeta, que pode explodir, que pode derreter, que pode inundar, encher de catástrofes... não dá. Temos que ficar muito ligados. Não dá mais esse papo de que minha liberdade vai até onde começa a sua. Nós estamos juntos. Somos um corpo humano coletivo."
Enquanto O Rei da Vela critica a lógica neoliberal do capitalismo, em que riquezas se concentram nas mãos de poucos e o mercado exerce até mesmo força sobre a política, Roda Viva trata da manipulação da mídia, tendo como base a sociedade de consumo que nascia em torno do surgimento da televisão nos anos 1960. Para Zé Celso, são duas situações latentes no contexto social contemporâneo. "Agora, na remontagem de Roda Viva, a televisão vai dar lugar a um grande celular, que é o que impera hoje. As cabeças todas estão sendo feitas pelo celular. É uma loucura isso, pois o teatro é o oposto disso tudo. O teatro é comunicação direta, corpo a corpo."