Uma carta aos artistas rodantes do Andaime Teatro
TEATRO

‘Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.’
(Manoel de Barros)
Caros artistas do grupo Andaime Teatro,
a última vez em que peguei numa caneta para escrever uma carta foi no início dos anos 1990, quando uma amiga estudante de letras embarcou para viver uma temporada de estudos de seis meses em Londres, na Inglaterra.
A carta era nosso meio de comunicação à distância, a maneira que eu a mantinha informada das coisas de nossa cidade natal, Votuporanga, e de nosso Brasil, e também a maneira que eu conhecia um pouco mais sobre a Inglaterra por meio de seus relatos.
Recordo-me que, anos depois de seu retorno da Inglaterra, essa mesma amiga foi para os Estados Unidos, onde ficou por um ano trabalhando como ‘au pair’. Nessa época, trocamos as cartas pelos e-mails do computador e pela agilidade da internet.
No entanto, acabou-se aquela ansiedade gostosa da espera e aquela alegre magia de receber das mãos do carteiro os papéis com letras cursivas caligrafadas por ela, que as guardo até hoje entre tantas outras cartas, algumas delas até ridículas como já disse o poeta.
Foram essas lembranças que me acompanharam no retorno do distrito de Engenheiro Schmitt para a cidade de São José do Rio Preto depois de assistir, na tarde deste sábado, 11, o espetáculo Coração dos Teatros Rodantes, apresentado por vocês na praça da Igreja Santa Apolônia sob o sol escaldante do sertão paulista.
Estava eu lá com a missão de elaborar uma crítica sobre vosso espetáculo para o painel crítico da Mostra Cênica – Resistências. Mas a missão foi logo esquecida no início da peça, quando vocês tocaram meu coração com uma poesia que fala das coisas ‘desimportantes’ da vida, dessas que só gente como nosso Manoel de Barros sabe dar valor.
A resistência de vosso teatro é feita com um amor e uma alegria que pouco se vê hoje nos olhos de muitos artistas. Uma resistência que evoca a fé nos sonhos e a crença de que chegarão, sim, dias melhores para aplacar nossas angústias diante das mazelas de um mundo tão desigual.
Inspirados pelo gesto de Franz Kafka, que se dedicou a incentivar, por meio de cartas, os sonhos de uma garotinha que perdeu a sua boneca, vocês conseguem despertar nas crianças o quanto sonhar e acreditar é importante, e nos adultos, aquela criança adormecida pelo tempo.
Por isso, essa crítica não é uma crítica, mas uma carta de um espectador tocado pela magia e pelo encanto de vosso teatro rodante, que enche de graça e esperança a praça, o coração da cidade que hoje não pulsa tanto, mas que bateu freneticamente enquanto estávamos lá reunidos em torno de vosso espetáculo.
Que Deus continue iluminando vossa missão de despertar o olhar para as ‘desimportâncias’ da vida. Muitas são as crianças (e os adultos) que ainda precisam ser tocados por vossos gestos. Vida longa ao teatro rodante do Andaime.
Esse texto é uma versão do original escrito à mão e entregue aos integrantes do grupo Andaime Teatro.