Diário da Região
Papo Cultural

Mundomudo é um sopro de otimismo e esperança

TEATRO

por Harlen Felix
Publicado em 15/02/2017 às 10:21Atualizado em 19/01/2022 às 22:26
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'Quando estou longe

Quero ficar perto

Quando estou perto

Quero ficar dentro

Quando estou dentro

Quero ficar mudo

Quando estou mudo

Quero dizer tudo'

(Apaixonite Aguda - Itamar Assumpção - 1998)

Assisti Mundomudo, espetáculo que marcou, em 2014, os 25 anos da Cia. Azul Celeste, de Rio Preto, em sua estreia, numa sessão com o teatro do Sesc lotado. Neste domingo, 12, no encerramento da Mostra Cênica - Resistências, encontrei novamente os palhaços Clóvis e Ramis no Cursinho Alternativo.

Desde sua estreia, Mundomudo percorreu 68 cidades brasileiras ao longo de quase quatro anos, realizou 142 apresentações e conquistou 47 prêmios. São números que comprovam a força e a resistência de uma das principais companhias teatrais do interior paulista, que se mantém fiel ao seu propósito sem abrir mão da pesquisa e da qualidade artística.

Tendo como referência a peça Fim de Jogo, de Samuel Beckett, Mundomudo reflete sobre as misérias das relações humanas, o jogo entre oprimido e opressor, a falta de perspectiva com o futuro, entre outras questões recorrentes da sociedade contemporânea.

No entanto, a dupla de atores Jorge Vermelho e Henrique Nerys apresenta em cena uma dinâmica que subverte o pessimismo latente do dramaturgo irlandês, que é considerado o pai do teatro do absurdo. O otimismo se faz presente em Mundomudo, apesar das inúmeras críticas que ele evoca sobre o comportamento humano e da relação de dependência estabelecida pelos dois palhaços, velhos e isolados em um circo abandonado à espera do público.

Nesse espetáculo, que teve dramaturgia de Cíntia Alves e direção de Georgette Fadel, a Azul Celeste evoca a esperança de dias melhores, mostrando que é preciso acreditar em um propósito para poder continuar resistindo diante dos obstáculos inerentes à trajetória de praticamente todo grupo de teatro brasileiro - e eles não são poucos.

Revendo Mundomudo, também identifiquei uma outra metáfora sobre nosso mundo de hoje, essa, sim, fruto de uma leitura muito particular. O espetáculo não tem falas, recorrendo apenas à ação, bem diferente da dinâmica estabelecida pelas pessoas nas redes sociais, em que se fala muito e quase nunca se age.

Ou seja, é no silêncio da palavra que Mundomudo diz tudo.