Diário da Região
Papo Cultural

Corte um Pedaço fala dos 'cortes' sofridos pelos LGBT

TEATRO

por Harlen Felix
Publicado em 13/02/2017 às 17:21Atualizado em 19/01/2022 às 12:59
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Uma artista vestida de terno está de joelhos diante dos espectadores. À sua frente, uma tesoura convida cada um a cortar uma parte de sua roupa para levar consigo. Essa é a dinâmica da performance Cut Piece, concebida pela cantora e artista plástica de vanguarda Yoko Ono, na década de 1960, e apresentada em quatro ocasiões, nas cidades de Kioto, Tóquio, Nova York e Londres.

A performance da viúva de John Lennon inspirou uma das cenas curtas da Mostra Cênica - Resistências. Em Corte um Pedaço, apresentado na noite desta quinta-feira, 9, pelo ator Zé Antônio Borges e seu companheiro, Maurício Toledo, o gesto de Yoko Ono, que se abriu passivamente para a intervenção do público, foi referendado para suscitar discussões em torno dos direitos dos casais homoafetivos, ou melhor, da negação desses direitos, já que tais casais não foram reconhecidos no novo texto do Estatuto da Família.

No início dessa cena curta, os dois compõem uma cerimônia de casamento, com direito a buquê e roupa branca. No entanto, esse momento é desconstruído pelos espectadores, que sobem ao palco para usar uma das duas tesouras disponíveis na cena e cortar um pedaço deles (teve até quem cortou o cabelo).

A imagem das pessoas subindo ao palco para 'intervir' sobre Borges e Toledo, que ficaram literalemente despidos aos olhos do público, faz referência direta aos 'cortes' que a população LGBT sofre cotidianamente na sociedade, sejam os cortes que suprem direitos ou os cortes que discriminam e violentam.

O gesto de coragem de Borges e Toledo, tão necessário numa época em que só resta resistir diante de tanto preconceito e opressão, constituiu-se em um momento emocionante para todos os presentes, a começar pelos próprios performers, que não seguraram as lágrimas justamente porque não estavam em cima do palco representando, mas retratando algo que sentem na pele e que faz parte de suas vidas.

Que tal gesto possa inspirar outros LGBT a resistir diante dos 'cortes' cotidianos que insistem em marginalizar pessoas cuja orientação sexual ou identidade de gênero foge dos padrões arcaicos da sociedade que ainda não aprendeu o significado da expressão 'amar o próximo'.