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Papo Cultural

A solidão ganha contornos oníricos em Só

TEATRO

por Harlen Felix
Publicado em 14/02/2017 às 18:25Atualizado em 19/01/2022 às 22:39
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Ao falar da solidão e da desumanização nas grandes cidades e no mundo moderno, o grupo Sobrevento constrói imagens poéticas e tocantes com o espetáculo Só, apresentado na noite deste sábado, 11, na Mostra Cênica - Resistências.

Delicado e melancólico, Só me arrebatou de forma tão contundente que faltam palavras para descrevê-lo aos leitores dessa crítica. Até mesmo porque as palavras não se fazem necessária nesse espetáculo. Suas imagens são metáforas que abarcam um turbilhão de sentimentos e sensações.

Concebido a partir de um intercâmbio feito pelo Sobrevento com a belga Agnès Limbos e com o italiano Antonio Catalano, Só explora a animação de objetos de um jeito inédito para mim até então. Ao usar miniaturas de brinquedos para retratar veículos como ônibus, trem e avião, o grupo subverte as proporções da realidade, tornando seus personagens gigantes em diferentes momentos da cena - o que potencializa ainda mais a virtuose da técnica empregada pelos atores.

O espetáculo apresenta cinco personagens em suas solidões particulares, retratadas em situações tristes, patéticas e agonizantes. As cenas protagonizadas por cada um deles são construídas de forma singela e delicada, compondo imagens que, muitas vezes, me fizeram sentir dentro de um sonho de tão oníricas.

Na composição desse mosaico poético, tanto a música (de Arrigo Barnabé) quanto o figurino (de João Pimenta), o cenário (de André Cortez) e a iluminação (de Renato Machado) desempenham um papel importante no vigor das imagens.

Prestigiei a segunda sessão do espetáculo no graneleiro da Swift, que contou com uma participação especial da chuva. No entanto, sua interferência sonora e física (na forma de goteiras) apenas tornou o espetáculo ainda mais sensorial para mim.

Só faz jus a maturidade do Sobrevento, que tem 30 anos de trajetória na seara teatral. E como foi bom ver um grupo viajando com sua própria estrutura, da iluminação às cadeiras da plateia, como um grande circo místico.