Grupo de Teatro Social Sementes da Alegria, de Rio Preto, completa 18 anos
Com 55 voluntários, trupe é exemplo inspirador de arte e solidariedade que se unem para levar acolhimento a crianças, adultos e seus familiares em tratamento de saúde

O branco dos corredores, o silêncio entre um exame e outro, o peso das horas que parecem não passar. Aos sábados, esse cenário ganha música, improviso e gargalhadas em três hospitais de São José do Rio Preto. É quando o Grupo de Teatro Social Sementes da Alegria entra em cena — de jaleco colorido, nariz vermelho e um propósito claro: humanizar o ambiente hospitalar por meio da arte.
Em 2026, o grupo completa 18 anos de atuação. Hoje, reúne 55 voluntários que se revezam nas visitas ao Hospital da Criança e Maternidade (HCM), à Santa Helena e à Beneficência Portuguesa. São advogados, profissionais de tecnologia da informação, autônomos, vendedores, empresários, psicólogos, nutricionistas. Gente de todas as áreas que encontra na palhaçaria uma linguagem comum para falar de afeto.
VISITAS
Antes de entrar nos quartos, os palhaços já começam a aquecer o clima interagindo com quem encontram pelos corredores, elevadores e até na rua.
Seja no HCM, na Santa Helena ou na Beneficência Portuguesa, os voluntários do grupo se revezam na visita a diversos lugares desses hospitais.
“Visitamos, além das crianças, também os adultos. No HCM, a visita acontece na parte da tarde, quando passamos pela UTI, pelo setor de cardiologia e pelos quartos. Nos encontramos em frente ao Hemocentro e vamos para o HCM. Fazemos uma oração, tiramos uma foto e começamos as visitas por volta das 14h30. Alguns dias, a gente sai de lá às 19h30 da noite. Na Santa Helena e na Beneficência Portuguesa, tem uma turma que vai de manhã e uma turma que vai à tarde”, conta Ademir Lúcio Leandro, que dá vida ao Dr. Mi-Luco.
Para quem está do outro lado da porta, a espera é certa. A dona de casa Itaina dos Santos Souza, 25 anos, acompanha a filha Sofia, de 8 anos, em tratamento oncológico no HCM, e diz que o sábado tem outro significado com o grupo.
“Esse é um trabalho maravilhoso. Eles vêm aos sábados e divertem muito as crianças, trazem mais alegria para a gente, trazem brincadeiras e música. Isso ajuda não só as crianças, mas a gente também, que é mãe, a se distrair”, afirma.
“Eles são pessoas muito engraçadas e trazem uma paz para a gente que fica o tempo todo aqui no hospital. Eles vêm com essa alegria que faz a gente se apaixonar. Todo sábado a gente espera pela visita deles”, completa.
TREINAMENTO
O riso ali não é improviso descuidado. É técnica, estudo e preparação emocional. As inscrições para novos voluntários são feitas pelo site da ONG www.sementesdaalegria.ong.br. Depois da triagem, há entrevista e um processo de formação que pode durar até oito meses.
“Assim que abrimos as seleções, chamamos os inscritos para uma entrevista, porque tem muitas pessoas que se inscrevem na empolgação e, quando os ensaios começam, elas param e falam que não é isso que querem. Alguns acham que para ser palhaço de hospital é chegar e ir, mas não é assim”, explica Ademir.
O treinamento envolve conexão entre parceiros de cena, improviso, música e, sobretudo, preparo para situações delicadas.
“Existe um treinamento que envolve a conexão de um palhaço com outro ou ainda saber como sair de uma situação difícil. Eu já peguei situação em que batemos na porta, o pai veio e falou que a criança tinha acabado de falecer. Ali, você tem que ter um jogo de cintura, porque se você não tiver, você desaba”, diz.
“Também tem treinamento de improvisos, ensaios de música, de triangulação com o seu parceiro para você não ser o centro da atenção, pois você está em dupla ou em trio. Os veteranos também fazem ensaios semanais, pois cada dia a gente aprende uma coisa nova”, ressalta.
RECURSOS E DESAFIOS
O Sementes da Alegria é uma ONG sem verbas fixas. A manutenção vem de doações via Pix e da tradicional venda de pizzas, geralmente realizada em agosto. O grupo também sonha com uma sede própria para ampliar ensaios e formações.
“A venda de pizzas nos ajuda a arrecadar um dinheiro para a gente poder manter o site, para trazer pessoas de fora para dar os treinamentos, por exemplo”, afirma Ademir.
Do luto ao nariz vermelho

Há histórias que não começam com gargalhadas, mas com silêncio, perda e nova chance de recomeçar.
Quatro anos atrás, o autônomo Ademir Lúcio Leandro passou a vestir o jaleco do Dr. Mi-Luco. Ele chegou ao grupo depois de se mudar de Ibitinga para Rio Preto, há dez anos, após a morte de um filho em um acidente de moto.
“Vim para Rio Preto achando que fugiria do problema da perda do meu filho. Eu já fazia trabalhos como palhaço na igreja que frequento e me inscrevi antes da pandemia no Grupo Sementes da Alegria. Como demorou um pouquinho, achei que não fossem me chamar. Um dia, estava no shopping com a minha esposa, que também é uma palhaça voluntária, e tocou o telefone. Naquela época, o Kleber era o presidente do grupo e me perguntou se eu ainda tinha interesse e eu entrei no processo de seleção do grupo”, recorda.
“Comecei a ir, ensaiar e fui selecionado. Aí surgiu o Dr. Mi-Luco, que é uma dádiva para mim. Acho que foi Deus que me colocou nisso, porque além de fazer a diferença para as pessoas que visitamos, isso faz mais bem para a gente”, completa.
IMPACTO VISÍVEL
Para a médica Marina Catuta, vice-diretora administrativa do HCM, o impacto é visível no tratamento das crianças.
“O grupo Sementes da Alegria é muito importante para uma melhor resposta ao tratamento de nossas crianças. O grupo leva alegria e leveza aos pacientes e suas famílias. Assim, pacientes e familiares se fortalecem para passarem por um momento tão difícil e delicado”, afirma.
“Com as brincadeiras, canções e até a própria vestimenta, eles levam a ‘infância’ de volta às nossas crianças. Lembrando que a doença é passageira e que a magia da infância deve continuar, fortalecendo a base emocional para que eles possam enfrentar com coragem e força esse momento”, completa.
HISTÓRIA MARCANTE
Como durante as visitas os palhaços não podem abraçar as crianças, Ademir se recorda com emoção de uma história. “A gente foi convidado para participar do desfile de 7 de setembro de 2023. Eu não queria ir, pois não gosto de ficar aparecendo, mas meus amigos do grupo me incentivaram. Após o desfile, uma criança veio correndo atrás de mim, chamando ‘Doutor, doutor, doutor’. Olhei para trás e ela falou para mim: ‘você se lembra de mim?’ Falei que me lembrava dela, no HCM - e me lembrava, mesmo. Ela me disse: ‘Eu posso te abraçar? Porque agora eu posso, agora estou boa’. Depois disso, o barbudo aqui se desmontou”, diz emocionado.
“Ali eu percebi que fazemos a diferença, porque naqueles 10 a 15 minutos que ficamos no quarto, levamos alegria à vida dessa criança e de seus familiares que estão juntos. Isso é uma coisa que não tem pagamento. Tenho muita gratidão por fazer parte do grupo Sementes da Alegria, que faz essa humanização tão linda”, conclui. (SB)
A frase que virou movimento

Uma frase dita por um menino de nove anos foi a semente. O resto foi cultivo.
Fundado em 2008, em São José do Rio Preto, o Sementes da Alegria nasceu da inquietação provocada por uma criança: “nós precisamos fazer algo por alguém”. André Moretto, fundador do grupo, ouviu a frase em 2007 e decidiu agir.
As primeiras visitas, ainda improvisadas, aconteceram em um asilo. Faltava técnica, sobrava vontade. A frustração virou combustível para estudo e ensaio.
Em 2009, durante o surto de H1N1, as visitas a um orfanato foram suspensas por determinação judicial, e o grupo quase encerrou as atividades. Restaram três integrantes. O convite para atuar em hospital — feito por um médico da Santa Casa — abriu um novo capítulo.
Com o tempo, vieram formações em teatro, improviso, música e psicologia. O processo seletivo se tornou mais rigoroso. A identidade se consolidou.
O que começou como tentativa tímida virou referência regional em palhaçaria hospitalar — prova de que alegria não é improviso ingênuo. É escolha, é treino e, sobretudo, compromisso. (SB)
Como ajudar
Doações
Doações por PIX ou depósito em conta-corrente ajudam o Grupo Sementes da Alegria a continuar levando sorrisos a crianças e adultos.
Pix: 26781305000171
Depósito em Conta-Corrente
Banco: 403
Agência: 0001
Conta: 1179328-0
CNPJ: 26.781.305/0001-71
Cia. de Teatro Social Sementes da Alegria
Como ser voluntário?
Quem deseja ser voluntário do Grupo Sementes da Alegria precisa preencher um cadastro no site www.sementesdaalegria.ong.br e aguardar ser chamado para uma entrevista e, caso aprovado, posterior treinamento antes de estrear em um hospital.
Fonte: Site do Grupo Sementes da Alegria