COREOGRAFIAS DA SOBREVIVÊNCIA

Mayk Ricardo apresenta ‘Outros Navios: danças para não morrer’ no Sesc Rio Preto

Inspirado na obra de Eustáquio Neves, espetáculo transforma memória e afeto em gesto político

por Salomão Boaventura
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Com quatro intérpretes, montagem investiga experiências e reinvenções de corpos negros no Brasil (Guilherme Di Curzio/Divulgação)
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Com quatro intérpretes, montagem investiga experiências e reinvenções de corpos negros no Brasil (Guilherme Di Curzio/Divulgação)
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No dia 2 de abril, quinta, o Sesc Rio Preto recebe o artista da dança Mayk Ricardo com o espetáculo “OUTROS NAVIOS: danças para não morrer”, uma criação que transforma memória, dor e afeto em movimento — e que retorna à cidade onde nasceu após circular por dez municípios do interior paulista.

A apresentação, com entrada gratuita, acontece a partir das 19h30, na área de convivência da instituição e propõe um encontro entre dança, performance, música e artes visuais para refletir sobre identidade negra e resistência no Brasil.

Criada em 2023 a convite do Sesc Rio Preto, a obra integra o diálogo com a exposição “OUTROS NAVIOS: fotografias de Eustáquio Neves” e se ancora no imaginário visual e histórico do fotógrafo mineiro. A partir desse encontro, o espetáculo constrói uma dramaturgia que valoriza ancestralidade, afetividades e singularidades, assumindo o afeto e a alegria como escolhas éticas e políticas diante das opressões.

Com concepção e direção de Mayk Ricardo — que também assina a coreografia —, a montagem reúne os intérpretes Carol Cof, David Balt e Diego Neves em cena. Juntos, os quatro performers revisitam suas próprias histórias, atravessadas por violências cotidianas, em busca de resgatar identidades e projetar novos futuros coletivos possíveis.

A criação se desenvolve a partir das experiências individuais e compartilhadas dos artistas, propondo um gesto de resistência e reinvenção. Na pesquisa que sustenta o espetáculo, as obras fotográficas de Eustáquio Neves atravessam os corpos em cena e também aparecem por meio de recursos como vídeo mapping e projeções, ampliando as camadas visuais e simbólicas da dramaturgia.

“Utilizamos a arte como estratégia de contra-ataque e prática de autodefesa para reconstruir nossas identidades, territórios e pertencimento”, afirma Mayk Ricardo.

Na parte final, a cena rompe os limites do palco: uma discotecagem ao vivo, comandada pelo DJ Taroba, convida o público a ocupar o espaço e participar da experiência. Longe de funcionar como alívio, o momento assume caráter político ao propor a celebração como afirmação de vida — um gesto coletivo que reivindica a alegria, o desejo e a potência dos corpos negros.